Atlas da beleza

Categoria: Projetos.

30/09/2016

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Apesar de toda diversidade e de uma vasta interpretação sobre o que é beleza, principalmente quando tratamos de beleza feminina, há uma imposição ainda muito forte sobre quais são os padrões de beleza aceitáveis. Não apenas em uma esfera real, mas virtual, onde chegamos à buscar uma beleza surreal, provinda de softwares, como photoshop. E foi exatamente essa frase que já perdi a conta de quantas vezes ouvi uma mulher falar de que “agora você melhora no photoshop né? Ou “você vai remover essa ruguinha ou estria” que me preocupa. A fotografia tem um papel fundamental nisso, é ela que constrói visualmente esse imaginário e estimula a busca de tais padrões.

 

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A mesma fotografia que colabora para mitificar a beleza e “forçar” uma estética imposta, é a mesma que possibilita a descoberta da diversidade, da naturalidade e do universo feminino em todas as suas formas respeitando sua cultura e corpo. Para a fotógrafa Mihaela Noroc, beleza significa autenticidade e foi em busca de mulheres pelo mundo para registar a diversidade da graça feminina para o projeto “The Atlas of Beauty”.

 

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Em seus retratos, em seu ambiente natural, vemos mulheres de todas as formas, todas as raças, cores e credos, mulheres essas que desafiam até mesmo sem querer ou perceber.
“Através da minha fotografia eu quero capturar aquele sentimento acolhedor e de serenidade que trás os olhos da mulher e com isso poder contrabalancear toda a negatividade que vemos na mídia. Muitas pessoas vinda de todos os lugares do mundo sofrem discriminação apenas por causa da sua cor, religião, etnia ou até mesmo simplismente por serem mulheres. Eu acho que a beleza está na diversidade e isso pode nos ensinar a sermos mais tolerantes.”

Para conhecer melhor o projeto http://theatlasofbeauty.com/

 

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Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com


A Narrativa Fotográfica

Categoria: Projetos.

26/05/2016

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Atualmente entram no mercado de todo o mundo, bilhões de celulares, um número bem maior do que o de vendas de câmeras fotográficas. Isso quer dizer, bilhões de câmeras digitais portáteis, acessíveis 24h por dia e com acesso à internet. Ou seja, a maneira na qual pensávamos e fazíamos fotografia mudou radicalmente de uns tempos para cá. Seja para um amador ou profissional, quem quisesse fotografar, teria que adquirir o equipamento, estar com o mesmo em mãos, para só depois poder fotografar. Hoje não, você pode fotografar da mesma forma que pode começar uma conversa trivial. E no meio desse turbilhão de imagens produzidas atualmente (que há essa altura já não é nenhuma novidade) uma das poucas ferramentas úteis para ressaltar a importância da mensagem visual e fortalecer o discurso fotográfico é a narrativa.

 

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A narrativa é um processo tão antigo quanto o ser humano. Contar eventos diários em núcleos familiares, relembrar do passado e de tradições, criar e compartilhar mensagens e fatos  que adicionam significados à vida em comunidade, é uma prática que exercemos e passamos de geração à geração. Nós, humanos, nos explicamos através dos fatos, sentimentos e esperanças, o presente adquire significado pelo passado, assim como, uma visão do futuro. ” A narração é uma declaração de fatos. A existência da narração exige eventos relacionáveis. (…) Esses eventos podem desenvolver-se ao longo do tempo e são derivados um a partir do outro, no qual, simultaneamente oferecem uma relação consecutiva (antes e depois) e uma relação lógica (causa e efeito)” (Berinstain, 1995, p.355). E aplicaria-se à fotografia na narrativa?

 

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Inegavelmente, há imagens que contém sua própria narrativa. A fotografia “congela” um instante, mas sua habilidade para narrar irá depender da quantidade de informação que será provida nesta imagem ou até mesmo com a capacidade de revelar fatos que não foram capturados. O fotógrafo deve ir além das técnicas visuais, e focar também na narrativa e na estratégia discursiva. Em como abordar a história, denominar o conflito e desenvolvê-la. O objetivo não é explicar ou mostrar, mas sim, contar. Em uma narrativa visual, a história surge não apenas das ações, mas também das imagens, onde contar é mostrar, é reforçar e, através do imaginário e dos códigos visuais,  fazer-se efetiva.

 

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Uma era onde imagens e informações são tão abundantes e imediatas como são hoje em dia,  o contexto é a única forma as que distingue em meio à tanto ruído. Toda imagem  convida a ser interpretada, guia em alguma direção. Toda foto memorável conta uma história e imagina as consequências do que ela representa, seja ela uma foto ou uma série de imagens. Uma imagem aspira à ser coerente, à sugerir um antes e um depois, à propor ou explicar uma mudança. Neste meio tempo, aprendemos e mudamos, nossas idéias sobre fotografia e narrativa também continuam a mudar,  cabe a nós explorar e refletir. Afinal, ser compreendido e compreender uns aos outros, começa justamente com o conhecimento de como contar essas histórias.

 

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Looking for Alice é um projeto realizado pela fotógrafa britânico Sian Davey, no qual conta a história de sua filha Alice e sua família. Alice nasceu com síndrome de Down, mas não é diferente de qualquer outra garotinha. Ela sente o que todos sentimos, sua família como tanta outras famílias e o retrato de Sian sobre a Alice e seu cotidiano  íntimo e familiar.

 

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Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com


A edição e a construção da narrativa em Estudo Sobre a Liminalidade, de Camila Svenson

Categoria: Autores, Pensamento e teoria, eProjetos.

06/10/2015

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A fotografia tem encontrado seus resultados mais expressivos em projetos que são apresentados de uma maneira seqüencial. Há uma preferência pela construção de narrativas através da associação de diversas imagens, construindo assim um trabalho finalizado.

Esse uso narrativo da fotografia tem sido aprofundado com o interesse cada vez maior na produção de fotolivros, sendo estes considerados a forma principal de expressão de um trabalho para muitos fotógrafos. Apesar deste foco, ainda há um estudo tímido sobre a lógica e a estrutura destas construções, tudo ainda é muito feito no instinto, baseado na vivência do autor.

Para tentar desvendar um pouco mais sobre este processo conversamos com Camila Svenson sobre a edição e a narrativa de seu ensaio Estudo Sobre a Liminalidade. Camila já publicou seu trabalho na OLD e se formou recentemente no ICP, em Nova Iorque.

 

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Neste projeto Camila busca entender algumas relações que estabeleceu ao longo dos anos e também construir imageticamente a ideia de pertencimento e perda de um lugar. Esta sensação se desenvolve através de retratos e da investigação de lugares, no interior de São Paulo, que têm um valor afetivo para a fotógrafa.

Não há – na atual edição de Estudo Sobre a Liminalidade – uma relação causal entre as imagens. Há uma associação entre imagens próximas e no todo da série, mas uma imagem não leva à outra por uma relação de causa e conseqüência, dessa forma não se constrói uma narrativa direta, mas sim uma atmosfera, que aos poucos vai se intensificando e ficando cada vez mais complexa.

Em nossa conversa, Camila fala sobre uma das grandes dificuldades na construção desta atmosfera narrativa: o desapego em relação a imagens que são importantes para o fotógrafo, mas não transmitem nada para o observador.  “entender que não eram todos os espaços ou retratos que poderiam caber na narrativa – não importa o quanto aquilo representasse ou fosse importante para mim. Porque as outras pessoas deveriam se importar? Foi o que um professor meu vivia repetindo quando olhava as minhas fotos. Elas eram ‘bonitinhas’ como objetos singulares mas não traspassavam absolutamente nada. Tive que treinar o meu olhar e ser extremamente crítica e analítica, para conseguir me desvencilhar de fotos que certamente eram essenciais – mas só para o meu próprio ego.” Este processo, muito bem apontado pela fotógrafa, é essencial para construir um ensaio relevante. Afinal de contas, não fotografamos só para nós mesmos, fotografamos para o outro também.

 

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Além de entender a relevância de cada fotografia dentro do ensaio, é também essencial entender a função de cada uma das imagens dentro da narrativa e como elas contribuem para o objetivo final da série. Não há interesse em ter uma fotografia bela, fantástica, mas que não contribui para o que está sendo contato. Além disso, dentro das imagens que estão na série, a ordem e a proximidade de outras altera sua função narrativa, então é preciso sempre ter isso em mente.

Assim, Camila vê “uma distinção bem grande entre os retratos e os espaços no sentido estético de composição.  Cada um ocupa um lugar diferente dentro dessa narrativa. E juntos conseguem contextualizar esse conceito de liminalidade que eu quero explorar.“

Além da distinção estética, há também uma diferenciação de função entre estes dois grandes grupos de imagens na série: “os retratos lidam com a parte mais emocional e irracional do projeto – esse sentimento e sensação de que o mundo como eu conheço está prestes a acabar, e este é o último momento e o último encontro antes que isso aconteça. São sobre perda, sobre a passagem óbvia do tempo e também sobre distância.  Eles tem uma carga diferente dos espaços, que vão para um lado mais analítico, menos emocional e mais objetivo –  de explorar a estaticidade do passado e do presente. As linhas retas, a aridez do interior, a plasticidade de uma arquitetura funcional;  portões, a piscina do prédio. Na narrativa um depende do outro para existir. Eles são complementares no sentido que para contar esta história eu preciso da irracionalidade e do mistério presente na maneira que estas pessoas me encaram através da câmera, quanto também preciso da estrutura formal destes espaços.”

 

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Através da aproximação entre retratos e objetos, Camila constrói sua narrativa, unindo imagens que não são necessariamente próximas por tempo ou geografia, mas se aproximam visual e narrativamente. Com isto, ela consegue construir sua história, mesmo que esta ainda não seja a versão final deste conto:  “Acredito que a sequência das fotos ainda vai mudar muito, porque ainda pretendo fotografar esse projeto por algum tempo – mas neste primeiro momento decido por alternar retratos e espaços de maneira que um complemente a narrativa do outro. Os espaços não necessariamente pertencem aquelas pessoas, mas eles dialogam de maneira orgânica. Também prestei atenção na parte estética da paleta de cores para que o produto final tivesse uma consistência e coesão como um todo. Não acho que essa narrativa é linear, a sequência é flexível e pode ser vista em combinações diferentes, não alterando radicalmente a história.“

Estudo Sobre a Liminalidade nos apresenta um processo de edição muito consciente, que tem objetivos e procedimentos claros, mesmo que ainda não esteja em sua forma final. Assim o trabalho ganha força e qualidade, se apresentando de uma maneira complexa para cada novo espectador.

 

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Texto por Felipe Abreu.

Felipe é editor da OLD e fotógrafo. Atualmente concentra suas pesquisas na criação da narrativa e edição fotográficas.

revista.old@gmail.com


Fragmentos imagéticos de uma relação com a Armênia

Categoria: Projetos.

28/08/2015

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Desde que foi pela primeira vez para a Armênia, em 2010, Cassiana Der Haroutiounian, não deixou de pensar e produzir imagens sobre este país ainda desconhecido por muitos no Brasil. Descendente de armênios a fotógrafa já realizou um filme, está finalizando um livro de fotografias, e prepara uma exposição e um curta-metragem, todos a partir de experiências vividas naquele pequeno território.

Apesar de transitar entre suportes imagéticos, a fotógrafa não deixa de privilegiar o eixo principal do seu trabalho: a busca pelo entendimento das suas origens e de si mesma sempre que regressa aquele país. O primeiro produto desta imersão é o filme ‘Rapsódia Armênia’ que faz jus ao nome ao concretizar através de imagens e sons, uma grande partitura com rostos, trilhas e sensações capturados durante a primeira visita a Armênia.

 

imagem 2 Cassiana Der Haroutiounian

 

“O Rapsódia aconteceu de uma maneira meio repentina, espontânea e meio sem pensar demais. Pegamos um voo e chegamos em Yerevan, capital da Armênia. Foi meio um road movie mesmo. Tinha apenas uns lugares que queria visitar, mas na maioria eram personagens achados em vilarejos por indicações de pessoas de outros lugares. O acaso predominou muito nessa produção”, revela Cassiana.

Em 2014 a fotógrafa decidiu morar por 4 meses na Armênia para a produção de um livro, “a idéia era fazer um livro sobre as mulheres e acabou virando um livro sobre o feminino… poucas das imagens escolhidas tem o rosto aparente na edição do livro, fui escolhendo as mais ‘parecidas’ comigo: as que tinham suas questões e que já viveram fora e voltaram pra Armênia para fazer algo diferente”. Ainda segundo a fotógrafa estas mulheres funcionam mais como ‘várias cassianas’ encontradas pelas paisagens que ela percorreu ao longo dos meses. O trabalho está em processo de finalização e tem lançamento previsto para início de 2016.

 

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No meio deste processo Cassiana conta que teve um sonho: fazer uma roupa de espelhos, que refletisse aquela paisagem interiorizada durante sua última viagem, mas completamente fragmentada, tentando mostrar o que sentia por dentro. “Fujo de uma única imagem ou de uma única verdade. Sou pedaços e formas que agrupadas se tornam fortes”.

Sempre firme em ir atrás de seus devaneios a fotógrafa embarcou para Armênia no último inverno com uma capa feita de pedaços de espelhos na mala. A princípio tinha planos de incluir estas novas imagens no livro sobre o feminino, mas ao fotografar a neve que cobre parte da paisagem armênia acabou mergulhando e interiorizando um tempo específico que segundo ela corre de um outro jeito por ali. “O inverno era ainda mais bucólico, nostálgico (uma nostalgia que ainda tento entender), é como se toda a natureza se preparasse para o que está por vir na próxima estação em silêncio, debaixo daquela roupa branca, que iguala todas as montanhas, deixando apenas sair os galhos e árvores secas, que se comportam como esculturas minimalistas em toda uma imensidão de brancos”.

 

imagem 4 Cassiana Der Haroutiounian

 

A roupa de espelhos virou imagem palpável e resultou em uma performance em que Cassiana veste o manto espelhado, e, segundo ela, este movimento se transformou numa experiência fundamental para todo o entendimento da relação com a Armênia e a questão do feminino, ao ficar em contato direto com o silêncio daquela paisagem inóspita.

No final do ano Cassiana volta para a Armênia para concluir o trabalho com os espelhos que vão resultar em uma exposição e em um curta-metragem. Ao transitar entre suportes durante sua produção artística, Cassiana procura desvelar este sentimento único que possui em relação à Armênia, usando as peculiaridades de cada mídia consegue revelar, e tenta unir, os  fragmentos que compõe sua relação com este pequeno país.

 

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Guilherme Tosetto – Vive em Lisboa onde cursa Doutorado em Belas-Artes. Mestre em Multimeios e Especialista em Fotografia, desenvolve pesquisa na área de fotografia, arte e memória.

guilhermetosetto.com

guilhermetosetto@gmail.com

 


Todos precisam de bons vizinhos

Categoria: AutoreseProjetos.

23/04/2015

Arquivo / Não se sabe o nome

Arquivo / Não se sabe o nome

El Cíclope Mecanico

El Cíclope Mecánico

 

As fronteiras que separam Marrocos e Espanha estão entre as menores do mundo. Em certo ponto, devido a um terremoto de algumas décadas atrás, os países se dividem por apenas 85 metros e um fiapo de areia. Fazendo um dos trajetos mais comuns via ferry, entre Tarifa e Tanger, são cerca de 14 quilômetros de mar costurando a história, por vezes tensa, entre os dois países.

Um trabalho recente do coletivo andaluz El Cíclope Mecánico, conduzido na cidade marroquina de El Jebha (El Frente), se desloca no tempo em busca de dissolver esta já tênue separação. Combinando materiais fotográficos produzidos pelo grupo com diversas imagens de arquivo das décadas de 40 e 50 e um pequeno vídeo documentário, o material concentra o olhar sobre o cotidiano da cidade e seu entorno, que fizeram parte do protetorado espanhol cem anos atrás. Recebido amistosamente pelos vizinhos africanos, o coletivo dedicou uma série de visitas nos últimos anos a tocar os pontos de conexão entre essas duas orelhas do estreito de Gibraltar. O resultado são imagens sutis, sem espaço para heróis e grandes fatos; são o dia após dia de antes, e de agora, passando de forma tranquila ao redor do porto e debaixo do sol, em uma aproximação íntima da vida de seus habitantes.

 

Arquivo / Não se sabe o nome

Arquivo / Não se sabe o nome

El Cíclope Mecánico

El Cíclope Mecánico

 

“… [El Frente] soma e enterra tudo o que restou para descobrir, como Galdós, que o espanhol é um marroquino cristianizado e o marroquino é um espanhol islamizado”.

O trabalho está exposto, até junho, no 19º FotoPress da Caixa Fórum de Madri. É um entre dez projetos, que se conectam pela abordagem documental e temáticas ligadas às questões de território e identidade. Todos são propostas contempladas pela Instituição com apoio financeiro e a tutela de um supervisor da agência Magnum.

 

Arnau Blanch

Arnau Blanch

Arnau Blanch

Arnau Blanch

 

Apresentados em um mesmo andar, os ensaios nos levam das violentas prisões venezuelanas (Vista Hermosa, Sebastián Liste) à pequena vila grega de Petras, onde vive uma comunidade de jovens afegãos (Surviving Greece, Mattia Insolera). Com soluções expográficas muito distintas, o conjunto nos arremessa a refletir o que acabam por demarcar, afinal, certas fronteiras – sejam elas físicas ou religiosas, entre bairros periféricos e centrais, entre gêneros ou décadas.

Mapas, vídeos, painéis e gráficos interagem com as fotografias na criação desta dezena de terras expositivas, vizinhas de salas. Passeamos pela montagem entrando e saindo destes mundos duplos, fronteiriços, que compõem cada projeto. Entre todos, Everybody needs good neighbours talvez seja o que melhor simboliza esses pontos de contato. Com fotografias de Arnau Blanch, a série percorre o pequeno Vilobí d’Onyar, um peculiar município onde confluem diversas infra-estruturas de transporte: o aeroporto de Costa Brava, o Eixo Transversal, a autopista do Mediterrâneo e a linha férrea AVE. Paradoxalmente, este compêndio de conexões é uma “terra de ninguém”, na qual seus poucos habitantes convivem estranhamente com muros, pontes e outras obras de acesso.

 

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Arnau Blanch

 

A poucos passos dali, entramos na América Central com Las Guerrilleras, iniciativa de Rebecka Biró e Victoria Montero. As artistas revolvem a caixa da guerra civil salvadorenha, sob o ponto de vista de catorze mulheres que se engajaram na luta armada. Trechos de depoimentos colhidos, e expostos junto aos retratos de cada uma, sublinham a dor do medo e o ímpeto da coragem incrustados na memória. Tomasa Jacinta, uma das senhoras entrevistadas, conta que viu três filhos morrerem no conflito e hoje trabalha como parteira voluntária. Parece ser ela, com olhos tão calmos, uma ponte mais firme de ligação entre as lembranças e a esperança de um porvir menos duro, como a que o coletivo Cíclope Mecânico quer fortalecer entre a Espanha e o Marrocos.

No início deste mês, no lançamento de seu livro Ama Lur, Jon Cazenave, um dos artistas-solo da exposição, fez uma apresentação completa e emocionada sobre o caminho trilhado com o projeto. A premissa é uma viagem-ritual pelas origens do fotógrafo e pelas cavernas dos Pirineus, tratadas por ele como metáforas uterinas. Na Caixa Fórum, o trabalho se vê em uma televisão, instalada ao fundo de uma sala de paredes pretas; no livro, imagens sangradas nos mostram as pinturas rupestres, formas às vezes incompreensíveis, espaços e corpos um quê mágicos e misteriosos. Em sua pequena palestra, Jon concluiu o trajeto de anos com um dizer mais ou menos assim: “Comecei este trabalho procurando entender o que fazia de mim um basco – e terminei por descobrir-me um Homem”. A sala foi um uníssono de sorrisos silenciosos.

Rebecka Biró e Victoria Montero

Rebecka Biró e Victoria Montero

Jon Cazenave

Jon Cazenave

 

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Mais

Os outros trabalhos expostos são Bonavista (David Mocha), Aquellos que Esperan (Borja Larrondo, Pablo López Learte e Diego Sánchez), This is Spain (coletivo NoPhoto) e La Dernière Carte (Gerardo Custance). Todos também foram publicados em forma de livros, por casas diversas como Ediciones Anómalas e Dalpine.

 

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Texto por Laura Del Rey.  http://www.cenastorridas.com + http://www.doravante.com.br

 


Camila Svenson: Nós Somos o Deserto

Categoria: Projetos.

04/09/2014

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Vivemos em um mundo em que muitas vezes estamos sozinhos, mesmo que ao lado de muita gente. A sensação de isolamento é cada vez maior, especialmente em grandes centros, em que se abrir pode ser um risco, tanto físico quanto afetivo.

A fotógrafa Camila Svenson retrata essa solidão ao unir corpo e paisagem, em um dos ambientes mais inóspitos para o ser humano. A série Nós Somos o Deserto une o corpo nu à paisagem do deserto boliviano, criando uma união profunda entre personagem e espaço, uma fusão quase inseparável entre homem e geografia.

“O corpo, em uma tentativa de desaparecimento, quer tornar-se orgânico, junto com as formas do deserto. Assimilar-se em sua paisagem pouco convidativa para em fim diluir-se na imensidão. Ele não tem nome, não pertence a um homem e nem a uma mulher. Não tem nacionalidade, não fala nenhuma língua específica, não tem manias, nem qualidades ou defeitos. é apenas um corpo.” Camila resume muito bem o impacto sentido a cada imagem. Nós Somos o Deserto é ao mesmo tempo um retorno à natureza e um atestado de nosso isolamento contemporâneo.

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Deslocação, um ensaio de Márcio Vasconcelos

Categoria: Projetos.

19/08/2014

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Márcio apresentou seu ensaio Nagon Abioton na OLD 19. O ensaio é um ótimo exemplo de fotografia documental, que se aprofunda no assunto e traz uma visão plural sobre um tema. Em seu novo ensaio, Deslocação, Márcio se utiliza de uma visão mais fantástica para abordar um tema de profunda relevância social.

Deslocação tem a intenção discutir a situação do homem, a ocupação desordenada das terras, a substituição das matas por áreas para plantios de monoculturas, o assoreamento dos rios e suas nascentes, a expulsão dos animais de seu habitat natural e os deslocamentos de grande massa humana para a periferia degradada dos centros urbanos. Com isso vejo a criação de um ser, que não é nem homem nem bicho, e que não sabe o rumo que deve tomar.” Márcio resume muito bem seus objetivos com o ensaio e o que chama mais a atenção nas imagens é a força da relação entre personagem e ambiente.

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A relação com as outras artes é outro ponto forte da criação de Márcio “O meu trabalho está sempre a dialogar com outras áreas da arte. A música e a dança talvez sejam as responsáveis pela minha aproximação com a fotografia. Nos trabalhos mais conceituais e experimentais, venho buscando essa mistura mais intensamente e sinto uma reciprocidade muito forte com esses artistas.”

Deslocação se torna assim um belo exemplo de criação na fotografia contemporânea, que não se veja para outras áreas criativas e assim consegue trazer um resultado muito mais plural e cativante.

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Já Não É Mais Verão, de Marco A. F.

Categoria: Projetos.

04/08/2014

Marco participou da OLD Especial É Preciso Arrumar a Casa, em Dezembro de 2012. Na época, Marco participava de um projeto coletivo – que deu nome à edição – para o financiamento e produção do primeiro fotolivro de seis fotógrafos. Um ano e meio depois, Marco já tem este fotolivro na bagagem, uma premiação no Marc Ferrez e um trabalho recém terminado em Portugal, atualmente em fase de edição.

Já não é mais Verão é o dito trabalho premiado no Marc Ferrez do ano passado. A série se dedica a investigar as transformações na atmosfera e na paisagem do balneário no qual o fotógrafo costumava passar seu verões na infância. A delicada série mostra o impacto do tempo sobre um local e a importância da nossa memória afetiva em nossos caminhos criativos. Nós conversamos com Marco por email sobre o sua produção e sobre os detalhes deste trabalho:

 

Na OLD Especial É Preciso Arrumar a Casa nós publicamos teu trabalho Da Tua Primeira Fotografia. Agora, apresentamos por aqui o ensaio Já Não é Mais Verão. Quais as diferenças essenciais entre estes dois projetos?

 

São dois projetos que surgem de inquietações bem diferentes. E é por isso que acabaram tendo formatações e estéticas muito distintas. ‘Da tua primeira fotografia’ (que quando foi publicado na OLD ainda tinha o título de ‘Dez’) surge primeiramente da necessidade de usar a fotografia para documentar uma fase da vida de alguém muito próximo a mim. Quando fui editar o trabalho em um formato de publicação (para o projeto ‘É preciso arrumar a casa’) o que emergiu foram as características únicas da nossa relação e como a fotografia tem um papel importante nessa história. Comecei a utilizar não somente imagens que eu havia produzido, mas também material de arquivo, trabalhando principalmente o caráter de objeto que há na fotografia, algo que é muito presente no álbum de família (ou que era presente antes da massificação da fotografia digital). No fim das contas esse projeto virou algo bem diferente do que eu havia idealizado no início, ganhando um tom extremamente autobiográfico.

‘Já não é mais verão’ também emerge de um contexto autobiográfico, porém, há nesse ensaio uma dimensão coletiva bem presente, e acho que essa é a principal diferença entre esses dois projetos. Mas há outras diferenças também. ‘Já não é mais verão’ é um trabalho muito mais metódico, com saídas de campo planejadas de acordo com a época do ano, as condições do clima, da luz, etc. A abordagem e os planos são muito estudados. O fato do projeto todo ter sido fotografado com uma câmera de médio formato no tripé transparece no conjunto das imagens, que é muito formal esteticamente.

 

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Tanto Da Tua Primeira Fotografia como Já Não é Mais Verão tem um caráter biográfico forte. Histórias próximas de você te movem mais profundamente?

 

Na época que iniciei esses dois projetos, havia sim uma motivação por buscar temas muito próximos a mim. Mas atualmente tenho cada vez mais me direcionado para histórias que extrapolem essa perspectiva autobiográfica. Quando comecei a fotografar (ainda no início da faculdade de comunicação) eu tinha aquela ideia romântica de que a fotografia iria me levar a conhecer o mundo, que eu trabalharia para a National Geographic nos lugares mais remotos e exóticos do planeta, etc. Mas houve um momento de ruptura onde essa ideia pareceu um tanto absurda para mim, e acabei naturalmente me voltando para dentro (digo “naturalmente” pois é da minha natureza a introspecção), tentando buscar no meu entorno histórias a serem contadas. Mas de um tempo para cá ando retomando (em parte) essa fantasia inicial que eu tinha com a fotografia, essa ideia do fotógrafo-explorador. Atualmente é isso o que mais me dá prazer no processo fotográfico: o impulso que a fotografia me dá de ir para fora descobrir o mundo.

 

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Como os objetos presentes nas imagens do ensaio constroem a narrativa da série?

 

Vejo esses objetos como reminiscências. Eles atestam de alguma forma a presença de algo que passou por ali, e que não demora a retornar. A presença desses objetos ao longo do ensaio não é com a intenção de representá-los, mas de remeter a algo que não esta nas imagens.

 

Quais os desafios e interesses de produzir um ensaio com uma limitação geográfica clara?

 

Neste projeto a limitação geográfica se deu pela relação que tenho com a cidade de Tramandaí. Eu poderia ter desenvolvido o ensaio por toda a costa do Rio Grande do Sul, uma vez que encontraria um cenário muito parecido ao longo de mais de 600 km. Mas não era isso que me interessava. O meu interesse era ficar imerso nessa geografia que é delimitado pela minha memória afetiva.

 

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Offside Brazil

Categoria: Projetos.

30/06/2014

Brazil 2014. Sao Paulo. Man walking in avenida paulista.

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Este é o nome do projeto que a Magnum criou para retratar a copa do mundo de um outro ponto de vista. A proposta é ter cinco fotógrafos brasileiros e cinco fotógrafos da Magnum retratando as cidades sede da Copa buscando novos pontos de vista, apresentando o que acontece longe dos estádios.

Dentro deste projeto, a Garapa decidiu explorar as “linhas de exclusão” criadas pela FIFA. Os limites são criados por linhas imaginárias criadas pela entidade máxima do futebol para proteger a integridade dos jogos organizados em cada uma das cidades sede. Com essa lógica, a FIFA corta a cidade, criando uma imensa área que não tem direito ao evento e que, se necessário for, será lembrada rapidamente disso.

As ruas do Brasil são as grandes protagonistas do projeto. Quase todas as imagens do Offside circulam entre o cotidiano brasileiro, as tensões nas manifestações e o lado B das cidades mais conhecidas do país. O time brasileiro é composto por NINJA, Garapa, Pio Figueiroa, Breno Rotatori e André Vieira. Todos têm trabalhos de destaque nos últimos anos da fotografia contemporânea brasileira. O mais interessante aqui é acompanhar esse grupo de estilos visuais tão distintos produzindo esse extenso trabalho documental. O grupo de imagens já criado é impressionante e promete muito mais até a final, dia 13 de Julho. Veja o trabalho completo no tumblr do projeto: www.offsidebrazil.tumblr.com

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Pamplona Street building occupation in São Paulo.


Parque Aquático, de Roberta Sant’Anna

Categoria: Projetos.

23/06/2014

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O trabalho de Roberta Sant’Anna tem uma relação muito especial com o retrato, com o corpo. Suas imagens têm uma afeição especial por mostrar pessoas, por tentar conhecê-las e por revelar um pouco de suas personalidades através da fotografia.

A OLD publicou o trabalho de Roberta no Especial É Preciso Arrumar a Casa. Em Mixtape, trabalho apresentado na dita edição, Roberta se voltou para o íntimo, para o seu próprio corpo e para o de quem estava mais próximo dela. Em seu novo trabalho – terceiro lugar no Conrado Wessel deste ano – Roberta se volta para o outro, para a exploração dos pequenos detalhes dentro de cada corpo único que ela apresenta.

Parque Aquático consegue unir a delicadeza dos retratos ao ambiente surreal típico deste tipo de parque. São dragões, cachoeiras, bombas d’água e bóias, unidas a todo tipo de corpo e personalidade, dos mais tímidos aos mais desinibidos. Com seu novo e premiado trabalho Roberta mostra sua capacidade de transmitir algo que não é simplesmente visual. Suas imagens conseguem transmitir o ambiente, a aura, de um espaço e de uma pessoa.

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Além da Arena

Categoria: Projetos.

16/06/2014

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Itaquera já estava lá antes da Copa. O bairro no extremo da zona leste de São Paulo tinha uma vida, um ritmo, seus problemas e suas soluções. A chegada da copa pode ter transformado a geografia do bairro, mas não eliminou sua vida anterior.

Gustavo Gomes – capa da OLD Nº 16 – registrou a vida em Itaquera, muito além da construção que sediou a abertura da copa. “Fui lá 12 vezes entre o começo de maio e o começo de junho. Não tinha uma pauta pré-definida, a maioria das coisas que fotografei foi encontrada andando por lá, a pé ou de ônibus”, conta Gustavo que, segundo ele mesmo, estava “cansado de só fotografar o centro” de São Paulo. Como de costume, a essência das imagens de Gustavo está na rua e nos seus personagens. Na edição final, da qual tiramos uma pequena amostra para o blog, se consegue sentir a complexidade do bairro paulistano.

 

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Além da Arena é uma amostra da mais fina qualidade da fotografia de rua que vem sido desenvolvida em São Paulo, em especial pelo Selva SP, do qual Gustavo faz parte. Sobre o Selva, Gustavo diz “Acho que o que mais nos define é fazer uma fotografia sem frescura, com uma linguagem bem direta e imediata, que não precisa de texto para se justificar. Não sei se essa abordagem é nova; na verdade, acho que é bem primordial na fotografia.” O coletivo, que vem registrando profundamente a rotina das ruas brasileiras, acaba de lançar um novo site, com todo seu acervo e com cobertura diária da copa: www.selvasp.com

Com seu registro do cotidiano público do bairro, Gustavo consegue dar vida a um ambiente que desejavelmente seria esterilizado, esvaziado para um espetáculo de bilhões de reais. Ainda bem que há muito vida além da arena de Itaquera.

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