Efêmero Eterno, de Cláudio Cruz

Categoria: Exposição.

05/12/2015

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Efêmero Eterno faz parte do ciclo de exposições do projeto Nova Fotografia do MIS-São Paulo, que escolheu seis trabalhos para a programação do Museu este ano e escolherá mais seis para o próximo.

 

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As imagens de Cláudio Cruz ocupam uma sala de paredes pretas. Todas horizontais, de mesmo tamanho, correm uma instigante viagem em linha pelas quadrelas. O fotógrafo não nos leva pela mão, mas aponta alguns caminhos com suas frestas de luz.

 

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Captadas em preto e branco e alto contraste, as cenas parecem rasgadas do cotidiano e carregadas para um mundo surreal, onde o subjetivo é quem manda e completa o que não se vê. O cenário das fotografias é sua luz – que enquadra, comprime e afrouxa os personagens, sejam eles um garotinho, uma maritaca ou uma poça d’água. Essa luz tão marcada, no entanto, não nos impõe um roteiro fechado. Estamos diante de fragmentos de histórias à espera de um coautor?

 

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Mas se há algo nas imagens que pede companhia, também há, sempre, um elemento que tenta escapar: a fumaça, a vida, a mão, a raiz, o nó.Efêmero Eterno tem seu quê de Lucrecia Martel. Tem até a piscina onde o tempo não cabe – e talvez seja essa, afinal, a única condição incutida por Claudio: que deixemos agir ali o nosso tempo, preenchendo aqueles instantes com algum antes e algum depois.

 

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Texto de Laura del Rey

 


MoMA, desde a crise pós-Björk até ‘Ocean of Images: New Photography 2015’

Categoria: Exposição.

28/10/2015

Se poderia dizer que a encruzilhada começou com a exposição dedicada a Björk, inaugurada pelo MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, no dia 08 de Março desse ano, um grande fiasco que um crítico descreveu como um parque de diversões. Dias antes que acontecesse o desastre já se podia intuir um ar de inconformismo diante das novas práticas curatoriais do museu, com exposições que muitos entendiam como jogadas de mídia, como a dedicada a Tim Burton, que recebeu melhores declarações da crítica, mas que marcava um padrão que muitos desdenhavam.

Agora é possível olhar a crise pós-Björk e fazer uma relação com as tendências que agora infestam os museus de maior peso no mundo. Basta analisar a lista das dez exposições mais visitadas do Met, Museu Metropolitano de Nova York, o mais chamativo é que duas dessas são exposições do Costume Institute, dedicadas a manifestações artísticas na moda. Em nono lugar temos o mítico desenhador Alexander McQueen em 2011 com mais de 660 mil visitantes e em quinto lugar está ‘China: Through The Looking Glass’, exibição aclamada pela crítica que terminou agora em Setembro com mais de 800 mil visitantes. Na Inglaterra o Victoria and Albert Museum abriga atualmente ‘Savage Beauty’, sobre o já mencionado Alexander McQueen, é a exposição mais visitada na historia desse museu, com mais de 430 mil visitantes.  O que podemos traçar desde essas exposições até a de Björk é que, o que muitos criticaram nessa última foi a ênfases nas roupas dessa artista, que convertiam as salas em um pseudo Costume Institute falido.

Os desafios assumidos pelo MoMA tem a ver com a necessidade de retomar seu status, mais além das excelentes e bem recebidas exposições montadas no museu esse ano. O que se espera de uma instituição como essa é algo mais que montar grandiosas exibições, espera-se algo que transcenda a ideia de apresentar obras desconhecidas de artistas como Matisse em sua exposição ‘Matisse, The Cut-Outs’. Talvez essa responsabilidade recaia em outros museus, afinal, o que se espera do MoMA é grandeza, não na magnitude ou popularidade de suas salas, mas sim na capacidade de gerar novas ideias. Se espera que continue sendo um dos museus de maior influencia na maneira de pensar a arte contemporânea e é nesse sentido que sempre pensaram a fotografia, sendo esse o primeiro museu em abrir um departamento exclusivo para essa arte sob a direção do legendário Beaumont Newhall.

O que acontece agora é que se aproxima a abertura de New Photography, uma exposição que em sua edição número trinta propõe mudanças na maneira como foi pensada em seus anos anteriores, onde o número de fotógrafos incluídos dificilmente superava 10 e que nesse ano chega a ter 19 artistas de 14 países. Cifra que funciona muito bem com o título da exposição ‘Ocean of Images’ que pretende explorar a realidade baseada em imagens na era pós-internet, entendendo-se, desde seu manifesto, o espaço da internet como um vórtex de imagens. Contendo tanto obras anteriores dos artistas incluídos como obras pensadas particularmente para esse evento. O que entendemos com essa nova visão da nova fotografia é algo caótico, que existe baseado  em uma multiplicidade de meios e finalidades da imagem. A onipresença da fotografia parece ser a nova premissa para entender como nos relacionamos com ela, quase sem estar conscientes, como se a fotografia agora formasse parte da linguagem básica humano-digital.

Os artistas são tão distintos como as ideias que invoca esse ‘vórtex de imagens’. Desde fotógrafos que exploram e levam ao limite as possibilidades do meio, desde práticas analógicas, como é o caso de Basim Magdy, fotografo egípcio.

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A 240 SECOND ANALYSIS OF FAILURE AND HOPEFULLNESS (WITH COKE, VINEGAR AND OTHER GAS REMEDIES), 2012, Basim Magdy.

Também com presença de artistas como Katja Novitskova, da Estônia, que não pensa no meio fotográfico como algo estático, sendo esse somente um possível ingrediente numa equação críptica que não chega a um único resultado, ao contrário, parece ser uma resposta a um algoritmo desconhecido que somente pode existir dentro do reino da internet.

Katja Novitskova, estonia, Pattern of activation, 2014

PATTERN OF ACTIVATION, 2014, Katia Novitskova

O inquietante de ‘Ocean of Images: New Photography 2015’ é que ler em voz alta os nomes dos fotógrafos parece um exercício aleatório, porque al terminar de ler o nome de Novitskova e o de Magdy, aparece a lituana Indrė Šerpytytė, cujo o premiado trabalho ‘A State of Silence’ fala em um idioma diferente. Formalmente talvez seja o mais fotográfico dentro da lista, respondendo a uma busca fortemente vinculada ao meio fotográfico do pós-guerra, um desejo de reclamar a memória, de apropriar-se do que foi arrebatado pelo conflito, no caso particular de Šerpytytė, sendo a morte de seu pai o catalizador para explorar a historia de seu país.

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Imagem da serie A STATE OF SILENCE, 2006, Indrė Šerpytytė

Falta um pouco menos de 1 mês para a inauguração da exposição em 7 de Novembro e esse é o momento para começar a entrar em contato com as ideias que propõe a equipe curatorial liderado pelo curador chefe, Quentin Bajac, em companhia de Roxana Marcoci, curadora sênior y Lucy Gallun, curadora assistente, todos do departamento de fotografia. Devemos considerar que o efeito de uma exposição com tantos vértices será trazer boas novidades ao MoMA e  para aqueles que querem seguir recorrendo a essa instituição como algo mais que um museu. Agora que muitos podemos ver uma exposição via internet, é emocionante pensar que uma das exibições mais interessantes desse momento seja dedicada a nova fotografia, tomando isso de ‘nova’ como um emblema, explorando sua onipresença e incluindo tantos pontos de vista como seja possível, uma exposição que seguramente se mutuará na sala até parecer parte posta em cena, instalação, escultura, parte de um todo, porque isso é o que acontece quando se entra no vórtex, tudo se transforma e tudo se move mas sem deixar de ser as imagens que dominam o espaço, a nova fotografia.

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Texto por Sara Mejía / traduçao Renata Alves Fortes

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.


Seus Dados

Categoria: Exposição.

23/09/2015

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Uma necessidade tem sido  implantada sutilmente em nosso organismo, ou talvez não tenha sido introduzida mas simplesmente amplificada. Seja como for, os aparelhos eletrônicos com câmera estão aderidos ao nosso corpo, transformando-nos em algo como cyborgs.

O festival de fotografia internacional Noordelicht, celebrado anualmente em Groningen, Holanda, e com curadoria de Wim Melis, apresenta esse ano “Data Rush”. A fotografia já não se ocupa de suprir as impressões e lacunas da memória, a fotografia popular já não é registro, muito menos pode ser considerada, se é que alguma vez realmente foi, testemunho da verdade. Selecionamos e encenamos experiências para no mesmo momento compartilhá-las com os outros, um “outros” abstrato e com objetivo de abarcar maciçamente. Tornar-se público, “sentir-se especial” sem esperar ser nomeado. É conhecido como democracia digital, e cede seu espaço para um exibicionismo intercultural globalizado. E dentre todo esse caos de imagens, vídeos e tweets, poder perder-se, dissolver-se em um eco de vozes cacofônicas de “me olha, estou aqui, eu também existo”. Assim é o projeto de Christopher Baker, ‘Hello World! How I Learned To Stop Listening and Love The Noise’ uma imensa tela cheia de uma infinidade de vídeos extraídos do Youtube, de vozes tentando ser ouvidas.

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Desse modo, formar parte da realidade midiática que nos induz a admirar e imitar ídolos, a ser um deles em nosso próprio site. Agora todos podemos ser estrelas, as redes sociais conseguiram nos oferecer os famosos 15 minutos de fama. Fama essa que, como podemos observar nas fotografias de Dina Litovsky não ultrapassa o círculo relativamente próximo ao protagonista. As vezes são relatos inventivos ou de um absurdo patético e que dão a volta ao mundo, propagand0-se mais rápido que uma estreia de Hollywood. Entretanto, na grande maioria dos casos, esse extenso arquivo de hiperprodução de imagens e  proliferação de dados que preenchemos todos, acaba caindo na fugacidade do meio, o que para muitos é o melhor que poderia acontecer. É o que os defensores do direito ao esquecimento no Google reclamam, e o que Nate Larson & Marni Shindelman de um modo mais humanista congelaram e levaram à realidade: tweets de todo o mundo acompanhados das fotografias de sua geolocalização, recuperando a mensagem e respeitando o anonimato.

Entretanto, nesse aparente mundo feliz onde compartimos como bons irmãos se esconde um entremeado de “mas” e condições. *1 Aaron Swartz lutou para que os avanços intelectuais fossem possíveis a todos, que o conhecimento e a cultura pudessem ser compartilhados livremente, mas essa ideia não foi bem vinda. De  uma forma menos política e mais casual, deram um passo a frente nesse caminho, *2 “The Pirate Bay” e a ideia também não foi bem recebida. A transmissão da informação e documentos se não é mercantilizada e controlada não será aceita. Mas o que acontece se uma entidade privada comercializa informação pública (o que é ilegal) faturando milhões de dólares por isso, e ainda por cima com respalde do Governo?

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Tudo aquilo que consideramos pessoal e privado em nossas vidas é facilmente acessível a qualquer pessoa em qualquer lugar com apenas alguns clicks no teclado. Hasan Elahi depois de ser injustamente acusado de terrorista decidiu monitorar-se voluntariamente para demonstrar al FBI que sua vida está isenta de suspeita. Depois de 1 ano a quantidade de fotografias do que comia, comprava e dos lugares ao que ia e viajava se acumularam em um completo e banal arquivo que decidiu converter em obra de arte no trabalho “Thousand Little Brothers v2”. Através desse ato Elahi propõe, e assim apresenta em seu TED, gerar o conteúdo que o FBI, as multinacionais e o Governo possam desejar e entregar a eles por exemplo, uma página web onde eles e todos nós temos acesso, esquecendo por um momento que a luta é a favor da privacidade e que o controle não é de quem gera o conteúdo, mas sim de quem o dispõe, suscetível as suas intenções. Recordemos que todo dado está sujeito a uma leitura subjetiva e facilmente manipulável. Pouco tempo atrás um jovem foi preso por tweetar sua alegoria apaixonada de viajar aos EUA em suas ferias e colocar fogo nela.

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Nessa mesma linha de recopilação de dados foi gerado o projeto “Rogier”. Se alguém já fantasiou com a ideia de publicar um livro a partir dos seus tweets, Joyce Overheul é dessas pessoas que passou do dizer ao fazer, não foi o primeiro obviamente, nem o único mas serve como exemplo desse fazer romântico.

Internet não é somente a vitrine de uma loja, si vamos mais além onde as normas, o controle, a censura e a moral não tem sentido, estaremos navegando por Dark Blue, mas para aceder a esse espaço temos que saber como, entender como funcionam os vazios legais, espaços não apresentáveis, espaços que não só não podemos evitar, mas bem que devem existir. Thiemo Kloss apresenta uma misteriosa e cativante serie fotográfica inspirada no lado escuro que o mundo digital oculta.

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Estas hiper realidades que nos são apresentadas, se situam em um espaço de contemplação e de observação, combatendo a habitual submersão em aparelhos tecnológicos ou a pressa que tantas vezes nos impede recair no contexto que nos rodea. Nossa capacidade de reunir dados cresce mais rápido que nossa capacidade de analise dos mesmos. Todos esses trabalhos e outros tantos mais podem ser vistos no festival de fotografia “Data Rush” até o dia 11 de Outubro. Como um conjunto de relatos do nosso presente mais tecnológico, um zumbido que chama nossa atenção para distinguir-se.

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*1: Aaron Swartz – Programador, escritor e ativista na Internet. Em seus quase 14 anos começou a formar parte como criador do RSS, espaço para compartir conteúdos. Conseguiu o acesso (ilegal) a JASTOR, um servidor de distribuição de revistas científicas e literárias restrito a subscritores, o que criou a ele um problema com as autoridades federais sendo acusado a até 35 anos de prisão e 1 milhão de dólares em multas. Também foi investigado pelo FBI em 2008 por baixar mais de 18 milhões de páginas do sistema de pagamento que organiza arquivos judiciais e divulga-las ao público. Contribuiu na rede social dedicada a noticiais Reddit. Morreu aos 26 anos de idade de causa desconhecida.

*2: The Pirate Bay – É um motor de buscas e rastro de arquivos BitTorrent no qual é possível realizar buscas de todo tipo de material multimídia. Fundada pela organização contra o copyright Piratbyran a princípios de 2003 na Suécia. É o maior Tracker de BitTorrent  a nível mundial.

http://www.noorderlicht.com/en/

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Fotos e texto por Nerea Arrojería

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.


New Portraits, de Richard Prince

Categoria: Exposição.

19/08/2015

A exposição New Portraits, de Richard Prince, inaugurada na Galeria Gagosian de Londres no dia 12 de junho, desencadeou uma enorme onda de controvérsias sobre as praticas de Prince ao apropriar-se de fotografias alheias. O contraditório é que esse tipo de apropriação, que é o ponto central na obra de Prince, não é uma prática nova, basta pensar em artistas como Serrie Levine, ou até mesmo Duchamp para recordar que Prince não está fazendo nada que ele mesmo ou, outros artistas, já não tenham feito anteriormente.

Em 1989 Prince tirou a foto de uma propaganda da marca de cigarros Marlboro para sua obra Untitled (Cowboy) e a reutilizou como se fosse sua. Entregou uma imagem final que é uma versão reapropriada tanto da imagem publicitaria, como do ideal americano que representava: o homem masculino e forte que cavalga erguido, o emblema do que os Estados Unidos imaginavam ser naquele momento. Richard Prince assume a peça publicitaria como uma imagem de domínio publico e, por esse motivo, suscetível de ser reapropriada. Nada muito distante do que já havia feito Andy Warhol com as sopas Campbell`s.

 

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Segundo Walter Benjamin, idealmente devemos “deixar de ver a fotografia como arte para ver a arte como fotografia”, e talvez essa seja a chave para entender a maneira como a fotografia existe dentro da obra de Richard Prince. Um material a mais para construir imagens novas e, no caso dos seus ‘New Portraits’, objetos de desejo para quem as consume, pessoas que transitam em redes como Instagram qualificando fotos e deixando comentários. Essas imagens, apesar das reclamações e críticas gerais, são essencialmente imagens de domínio público. E, da mesma forma que o vaqueiro da propaganda da Marlboro, são emblemas de uma imagem, no último caso, fabricada através das redes sociais, personagens que só existem nesse reino e que confiam à fotografia o papel mais importante na construção da sua imagem e o que esta representa. Agora, a imagem do vaqueiro foi substituída pela imagem de garotas bonitas posando sedutoras e talvez esse seja o novo ideal americano.

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Na exposição as imagens de Prince se apresentam de maneira particular, estão impressas em marcos e parece ser que isso cumpre com um objetivo fundamental: legitimar-las dentro do contexto da galeria. Além do que, sendo capturas de imagens consideravelmente pequenas, adquirem um tom borrado, que alimenta ainda mais a sensação de hibrido entre fotografia e pintura, ainda que na verdade não sejam nenhuma nem outra coisa. Para incluir uma capa mais de significado, Prince decide manter os comentários feitos na publicação e também inclui comentários próprios que atuam como sua assinatura na imagem, as vezes sedutor outras vezes inocente.

Antes de começar com o projeto New Portraits, Prince, com a intenção de fazer retratos de pessoas próximas a ele, pedia aos retratados que escolhessem uma fotografia que lhes interessava, algum retrato feito por outra pessoa, dava a eles todo o poder de como seriam representados e, mesmo não continuando com o trabalho, a maneira como atua em seus ‘New Portraits’  não está longe dessa ideia inicial. Isso porque, em sua essência, os personagens dessas fotos já deram sua aprovação. Entendemos que se a foto foi publicada é porque foi eleita como digna para ter presença em uma rede social e, ao subir uma fotografia ao espaço virtual de maneira publica, se esta considerando a possibilidade de que uma infinidade de pessoas tenham acesso a ela, projetem suas fantasias, inclusive é absolutamente possível que muitas pessoas se apropriem dessa foto como um arquivo próprio…as possibilidades são tão amplas como o espectro de pessoas que tem acesso a essas imagens.

Richard Prince põe em evidencia todas essas possibilidades não somente ao apresentar esses retratos, afinal, a parte desse intercambio que mais peso tem e que foi o centro da controvérsia é o fato de que as imagens estão a venda a altos preços, possíveis de tornarem propriedade de outra pessoa e assim convertendo-se em objeto de desejo absoluto. A representação de uma pessoa, que existe em uma rede em que o êxito de uma imagem é medido através de likes, que logo ganha status ao ser apresentada em uma galeria e que, ao mesmo tempo, é ultrajada por ser produto de uma apropriação sem a aprovação do proprietário. Tudo isso para terminar sendo propriedade de algum colecionista, alguém o mais distante possível da pessoa que criou a imagem inicial.

A essência dessas imagens pode ser encontrada na declaração contida no título da exposição. São os ‘novos retratos’, a maneira de fazer retratos, é esse o tipo de imagem que transita entre o publico e o privado. Existem em um estado que recorda a heterotopia de Michel Foucault: estão suspensas entre o físico da pessoa na fotografia e o ideal da construção de um personagem. Demonstram de maneira exemplar o que é a fotografia na era das redes sociais e dos likes como moeda do mundo virtual.

Por isso parece contraditório irritar-se com Richard Prince por copiar uma fotografia quando essa existe na rede de maneira publica, destinada a flutuar pelo cyber espaço para sempre.

 

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Texto por Sara Mejia, do Coletivo TRENZA

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.


Under 35

Categoria: Exposição.

28/05/2015

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Oscar Monzón

 

Esse junho, Madri recebe a 15ª edição do PHotoEspaña – e diversas ações paralelas já começam a salpicar pela cidade. Entre elas, a pequena mas muito significativa Under 35, exposição coletiva montada como parte do Festival Off que tem lugar na sede da Ivorypress.

 

Segundo a própria curadoria, o elo entre os fotógrafos convidados é a “liberdade criativa, energia e vontade, que lhes levou a produzir os trabalhos mais significativos e inspiradores do gênero nos últimos anos”. Outro ponto comum entre os artistas espanhóis Laia Abril, Alberto Lizaralde, Javier Marquerie Thomas, Óscar Monzón e Jordi Ruiz Cirera é o reconhecimento internacional, especialmente Óscar (cujo fotolivro Karma venceu o Paris Photo-Aperture de 2013) e Laia (sua publicação Epilogue figurou em quase todas as listas de melhores do ano 2014, como as de Jôrg Colberg e Cristina de Middel). As semelhanças quase param por aí.

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Alberto Lizaralde

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Alberto Lizaralde

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Oscar Monzón

 

Ao fundo da exposição, de cara chamam a atenção as brilhantes e agressivas imagens do projeto Karma. Num certo ‘degradê’ de invasão de privacidade, uma sequência de 15 imagens perpassa a esquina da sala com a mesma brutalidade que sangra as páginas do livro. Monzón, membro do coletivo e escola Blank Paper, propõe um paralelo entre os indivíduos e seus carros, registrando sem autorização pitorescas cenas sobre nosso comportamento dentro dos veículos. Noturna, colorida, invasiva e ‘estourada’, a série joga flash em flagrantes violentos, competitivos e animalescos, refletindo sobre esse ‘quem somos’ quando, supostamente, não estamos sendo observados – ou estamos camuflados atrás das máquinas.

 

Na outra ponta da exposição, The United Soya Republica documenta os resultados da agroexportação paraguaia. Acompanham as fotografias uma série de reportagens sobre a conexão direta entre o uso de agrotóxicos e doenças como por exemplo o câncer. Jordi Ruiz Cirera choca as vidas por trás dessa produção gigantesca (especialmente de soja) que o país vem vivenciando com imagens de grandes galpões industriais, numa melancólica pousada de olhar sobre essa nova paisagem imposta.

 

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Laia Abril

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Jordi Ruiz Cirera

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 Jordi Ruiz Cirera

 

Ao centro, o trabalho de Laia Abril acompanha de perto a família Robinson, que perde sua filha de 26 anos. A dura história de Cammy, vítima de bulimia, é costurada com imagens de acervo familiar, registros médicos, cartas, objetos e uma angústia permanente. Não terminei de ver/ler o livro ainda, mas a sensação de incapacidade, de culpa, de saudade e de raiva dela e da família parece marcar todas as páginas, muito cortantes e ao mesmo tempo muito delicadas. A montagem atual na Ivorypress segue a tentativa de compreender e digerir essas emoções e lembranças, organizando as fotografias como um confuso mosaico – que, embora tão íntimo, transfere aos Robinson uma potência bastante universal, ao trazer à luz um tema tão enevoado.

 

O sentimento de perda também circunda o trabalho de Alberto Lizaralde, que, como alguns dos outros, tem uma versão na forma de livro. Everything Will Be Ok soma fotografias feitas entre 2009 e 2014 e sua primeira edição, de 750 exemplares, esgotou rapidamente. Alberto, que contou com a parceria de Cristina de Middel na publicação e esteve na shortlist do Photo-Aperture 2014, mistura magia e realidade para falar de dor, medo, trauma e cura. Na exposição, podem-se ver, além de diversas imagens do livro, alguns documentos bastante pessoais do fotógrafo. Entre eles, uma conversa (acho que por email) impressa, registrando o momento em que o artista pede permissão a um conhecida para usar os retratos que fez dela em seu projeto. Começa um diálogo entre os dois sobre momentos em que as coisas desmoronam e nos vemos muito frágeis. O projeto, que seguiu por 5 anos, traz muito da história de Alberto (que sofre de depressão, como sabemos através de um diagnóstico psiquiátrico exposto, e atravessa um inferno pessoal e a perda de um amigo). São imagens por vezes muito diretas e, em alternância, extremamente simbólicas, registrando amigos e pessoas que cruzaram seu caminho. A sequência de 55 fotos, duramente editadas, termina com um otimismo impressionante.

 

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Javier Marquerie Thomas

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Javier Marquerie Thomas

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Javier Marquerie Thomas

O último dos trabalhos é de Javier Marquerie Thomas, artista nomeado finalista do prêmio First Photobook da editora Mack. Em Under 35, participa com Los Barros del Monje, de 2012, série na qual busca remontar a Batalha de Brunete, que ocorreu em 1937 na fazenda de sua família. Sem nunca tê-la vivido, efetivamente, Javier nasceu e brincou, literalmente, em um campo de munições ali depositadas, sobre o qual “brotaram as raízes de nossa genealogia”. Tantos tempo depois de acabada a Guerra Civil Espanhola, estão justapostas em Los Barros del Monje as cicatrizes físicas do terreno e a responsabilidade autoimposta por ele, especialmente após a morte de seu avô, de guardar a memória da família. Permeando tudo, a admiração e empatia que o artista sente pelos soldados que ali estiveram, a quem chama de idealistas e otimistas profissionais. De certa maneira, o fotógrafo parece resgatar dias tão turbulentos para, ligeiramente desobrigado da tarefa, esquecê-la um pouco e deitar no chão a olhar estrelas, com a mesma leveza que brinca o grupo de amigos que encerra Everything Will Be Ok.

 

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Texto por Laura Del Rey.  http://www.cenastorridas.com + http://www.doravante.com.br


“QU’EST-CE QUE LA PHOTOGRAPHIE ?”

Categoria: Exposição.

16/04/2015

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O Centro Pompidou, fundado em 1977 no coração de Paris forma, ao lado do TATE em Londres e do MOMA em NY, a tríade de arte moderna e contemporânea do mundo.Neste imenso centro dedicado às artes, encontra-se mais de 100 mil fotografias e negativos de diversos artistas, e todo ano cerca de 400 fotografias são expostas nas exposições multidisciplinares do museu.

Esta dedicação crescente do Centro Pompidou à imagem se concretiza em 2014 com a inauguração de uma galeria de 200 m2 como espaço permanente e autônomo dedicado à fotografia.De 4 de março a 1 de junho de 2015 o publico é convidado a apreciar uma seleção inédita de imagens produzidas dos anos 20 até hoje, por grandes artistas que em algum momento de suas trajetórias se puseram a mesma questão: “QU’EST-CE QUE LA PHOTOGRAPHIE?” – O que é a Fotografia.

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A exposição mostra como grandes nomes pensaram e responderam a esta questão através da produção de imagens. Em suas obras vemos a tentativa de partir da reflexão sobre do que a fotografia é constituída para finalmente entender o que é a fotografia em si. Para alguns a fotografia é o material que a produz: a luz, o papel, a gelatina, a câmera escura, a óptica. Para outros é a nova prática conduzida por este material que difere a fotografia de outras artes: uma nova composição, enquadramentos “subversivos” ou sujeitos encontrados ao acaso. A fotografia também se define como sua relação com o real: sua precisão documental e o poder de transformar o banal em poesia imagética.

O último espaço da galeria é um generoso olhar sobre a obra de Ugo Mulas, fotógrafo italiano que explorou com riqueza a materialidade da fabricação de imagem, produzindo fotografias como o famoso díptico de mãos, presente mundialmente na capa do livro “O fotográfico” de Rosalinda Krauss.

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Clément Chéroux e Karolina Ziebinska, curadores da exposição e responsáveis pela galeria de fotografia do Centre Pompidou deixam claro que a intenção é fazer com que essa pergunta não tenha uma só resposta, mas que o visitante possa terminar o trajeto com uma bagagem de diferentes e ricos olhares sobre a mesma questão: o que é a fotografia?

Artistas: Joseph Beuys, Brassaï, Michel Campeau, Paul Citroen, Jean-Louis Garnell, Jochen Gerz, Douglas Gordon, Mariusz Hermanowicz, Mishka Henner, John Hilliard, André Kertész, Man Ray, Abelardo Morell, Robert Morris, Ugo Mulas, Giulio Paolini, Florence Paradeis, Timm Rautert, Józef Robakowski, Denis Roche, Jan Saudek, Patrick Tosani, Jeff Wall, James Welling

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Texto por Lívia Melzi


Miguel Rio Branco na Pinacoteca

Categoria: Exposição.

25/05/2014

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Rio Branco é um dos grandes fotógrafos brasileiros – apesar de ser espanhol de nascença – e um dos que mais procura maneiras diferentes de se utilizar da imagem fotográfica, sempre buscando fugir do óbvio e sempre mantendo sua assinatura visual.
A Pinacoteca de São Paulo apresenta a exposição Teoria da Cor, uma retrospectiva com 40 obras do artista, que ocupará a Estação até o dia 19 de Julho. As obras selecionadas cobrem os mais de 40 anos de produção de Rio Branco, a transformando na mais completa retrospectiva do artista a ser exibida em São Paulo.
Entre as obras estão colagens, instalações, objetos, pinturas e fotografias que mostram a capacidade de Rio Branco de transitar brilhantemente entre os mais diversos meios artísticos. Se você estiver em São Paulo entre agora e Julho, não perca essa oportunidade de conhecer ou se aprofundar no trabalho deste grande fotógrafo brasileiro.

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