Under 35

Categoria: Exposição.

28/05/2015

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Oscar Monzón

 

Esse junho, Madri recebe a 15ª edição do PHotoEspaña – e diversas ações paralelas já começam a salpicar pela cidade. Entre elas, a pequena mas muito significativa Under 35, exposição coletiva montada como parte do Festival Off que tem lugar na sede da Ivorypress.

 

Segundo a própria curadoria, o elo entre os fotógrafos convidados é a “liberdade criativa, energia e vontade, que lhes levou a produzir os trabalhos mais significativos e inspiradores do gênero nos últimos anos”. Outro ponto comum entre os artistas espanhóis Laia Abril, Alberto Lizaralde, Javier Marquerie Thomas, Óscar Monzón e Jordi Ruiz Cirera é o reconhecimento internacional, especialmente Óscar (cujo fotolivro Karma venceu o Paris Photo-Aperture de 2013) e Laia (sua publicação Epilogue figurou em quase todas as listas de melhores do ano 2014, como as de Jôrg Colberg e Cristina de Middel). As semelhanças quase param por aí.

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Alberto Lizaralde

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Alberto Lizaralde

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Oscar Monzón

 

Ao fundo da exposição, de cara chamam a atenção as brilhantes e agressivas imagens do projeto Karma. Num certo ‘degradê’ de invasão de privacidade, uma sequência de 15 imagens perpassa a esquina da sala com a mesma brutalidade que sangra as páginas do livro. Monzón, membro do coletivo e escola Blank Paper, propõe um paralelo entre os indivíduos e seus carros, registrando sem autorização pitorescas cenas sobre nosso comportamento dentro dos veículos. Noturna, colorida, invasiva e ‘estourada’, a série joga flash em flagrantes violentos, competitivos e animalescos, refletindo sobre esse ‘quem somos’ quando, supostamente, não estamos sendo observados – ou estamos camuflados atrás das máquinas.

 

Na outra ponta da exposição, The United Soya Republica documenta os resultados da agroexportação paraguaia. Acompanham as fotografias uma série de reportagens sobre a conexão direta entre o uso de agrotóxicos e doenças como por exemplo o câncer. Jordi Ruiz Cirera choca as vidas por trás dessa produção gigantesca (especialmente de soja) que o país vem vivenciando com imagens de grandes galpões industriais, numa melancólica pousada de olhar sobre essa nova paisagem imposta.

 

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Laia Abril

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Jordi Ruiz Cirera

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 Jordi Ruiz Cirera

 

Ao centro, o trabalho de Laia Abril acompanha de perto a família Robinson, que perde sua filha de 26 anos. A dura história de Cammy, vítima de bulimia, é costurada com imagens de acervo familiar, registros médicos, cartas, objetos e uma angústia permanente. Não terminei de ver/ler o livro ainda, mas a sensação de incapacidade, de culpa, de saudade e de raiva dela e da família parece marcar todas as páginas, muito cortantes e ao mesmo tempo muito delicadas. A montagem atual na Ivorypress segue a tentativa de compreender e digerir essas emoções e lembranças, organizando as fotografias como um confuso mosaico – que, embora tão íntimo, transfere aos Robinson uma potência bastante universal, ao trazer à luz um tema tão enevoado.

 

O sentimento de perda também circunda o trabalho de Alberto Lizaralde, que, como alguns dos outros, tem uma versão na forma de livro. Everything Will Be Ok soma fotografias feitas entre 2009 e 2014 e sua primeira edição, de 750 exemplares, esgotou rapidamente. Alberto, que contou com a parceria de Cristina de Middel na publicação e esteve na shortlist do Photo-Aperture 2014, mistura magia e realidade para falar de dor, medo, trauma e cura. Na exposição, podem-se ver, além de diversas imagens do livro, alguns documentos bastante pessoais do fotógrafo. Entre eles, uma conversa (acho que por email) impressa, registrando o momento em que o artista pede permissão a um conhecida para usar os retratos que fez dela em seu projeto. Começa um diálogo entre os dois sobre momentos em que as coisas desmoronam e nos vemos muito frágeis. O projeto, que seguiu por 5 anos, traz muito da história de Alberto (que sofre de depressão, como sabemos através de um diagnóstico psiquiátrico exposto, e atravessa um inferno pessoal e a perda de um amigo). São imagens por vezes muito diretas e, em alternância, extremamente simbólicas, registrando amigos e pessoas que cruzaram seu caminho. A sequência de 55 fotos, duramente editadas, termina com um otimismo impressionante.

 

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Javier Marquerie Thomas

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Javier Marquerie Thomas

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Javier Marquerie Thomas

O último dos trabalhos é de Javier Marquerie Thomas, artista nomeado finalista do prêmio First Photobook da editora Mack. Em Under 35, participa com Los Barros del Monje, de 2012, série na qual busca remontar a Batalha de Brunete, que ocorreu em 1937 na fazenda de sua família. Sem nunca tê-la vivido, efetivamente, Javier nasceu e brincou, literalmente, em um campo de munições ali depositadas, sobre o qual “brotaram as raízes de nossa genealogia”. Tantos tempo depois de acabada a Guerra Civil Espanhola, estão justapostas em Los Barros del Monje as cicatrizes físicas do terreno e a responsabilidade autoimposta por ele, especialmente após a morte de seu avô, de guardar a memória da família. Permeando tudo, a admiração e empatia que o artista sente pelos soldados que ali estiveram, a quem chama de idealistas e otimistas profissionais. De certa maneira, o fotógrafo parece resgatar dias tão turbulentos para, ligeiramente desobrigado da tarefa, esquecê-la um pouco e deitar no chão a olhar estrelas, com a mesma leveza que brinca o grupo de amigos que encerra Everything Will Be Ok.

 

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Texto por Laura Del Rey.  http://www.cenastorridas.com + http://www.doravante.com.br