Uma Kinoshita – “In Silence and in Sorrow”

Categoria: Autores.

19/11/2015

Uma Kinoshita é uma fotógrafa japonesa que ao vivenciar os desastres sofridos por um terremoto seguido do tsunami e do vazamento de radiação de uma usina nuclear em 2011 em Fukushima no Japão, mudou drasticamente seu trabalho. A partir de então a artista busca entender de que maneira tragédias como essas, que direta ou indiretamente são causadas pelo homem, alteram o meio ambiente e a vida humana naquela local.

A série “In Silence and in Sorrow” de 2015 é o terceiro projeto da artista sobre a província de Fukushima após o desastre. Nele a artista visita algumas das áreas de evacuação do acidente nuclear no período de 2013 e 2014. Percorrendo um trajeto por áreas costeiras que foram destruídas pelo tsunami e contaminadas pela água tóxica, e também por regiões mais distantes a cerca de 40 quilômetros nas montanhas onde a contaminação se deu pelas partículas radioativas trazidas pelos ventos.

 

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Em todas as imagens encontramos os rastros das ações do homem num ar melancólico de abandono. “In Silence and in Sorrow” é uma denúncia ácida sobre a arrogância humana a respeito da falsa sensação de controle absoluto sobre meio.

As imagens são acompanhadas por uma espécie de diário de bordo, no qual a artista descreve brevemente como se encontram os ambientes e alguns pensamentos dela ao visitar estas locais.

Kinoshita articula na construção da linguagem de seu trabalho a escolha da mídia ao eleger um papel que já possui uma antiga tradição no seu pais e que é feito até hoje de forma totalmente artesanal. O tipo do papel chamado “Kamikawasaki-washi” está a “beira da extinção”, mesmo possuindo uma tradição que percorre mais de mil anos, hoje ele conta com apenas três artesãos que produzem este tipo de papel.

 

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Esta escolha salienta a fragilidade humana e ao mesmo tempo expõem a falta de controle do homem sobre o meio e também sobre seu próprio futuro. Kunoshita emulsionou todos os papéis e cada um aderiu a solução de um modo próprio, o que somado a forma como o papel é produzido, gerou uma improvisação natural, como chamado pela artista, em cada ampliação como por exemplo na densidade da imagem, que no geral é um pouco mais alta do que estamos acostumados, nas ranhuras e texturas que se incorporam a imagem, no fato de ter sido umedecido, etc.

Através desta falta de controle expressa na ampliação, Kinoshita traça a ponte com a situação vivida em Fukushima que por ela é descrita como a derrota da modernidade no Japão e como a natureza acima de tudo é incontrolável e imprevisível pelo homem.

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.