Um sentido híbrido da fotografia + texto

Categoria: AutoresePensamento e teoria.

21/06/2016

A fotografia e o texto, por serem linguagens com modos de pensar tão distintos, são, muitas vezes, difíceis de combinar. Claro que um bom texto nos faz ver imagens e uma fotografia pode nos recordar histórias, que pensamos como junção de palavras, e portanto, texto.

Por diversas vezes, a fotografia toma uma postura ilustrativa do texto, ou o texto se torna meramente descritivo, parecendo muito mais uma repetição daquilo que já foi nos apresentado na outra linguagem. Certo que cada uma tem a sua riqueza e consegue transpassar algo que na outra não seria possível, mas será que essa parceria não pode ser muito mais instigante?

Apresento aqui três casos já bastante consagrados em que percebo uma construção híbrida de linguagem.

A artista francesa Sophie Calle é bastante famosa por seus trabalhos envolvendo fotografia e com um toque performático. Em The Address Book, 1983 (depois publicado em formato de livro 2012), sai em uma jornada para descobrir quem é o dono da caderneta de endereços (em inglês, Address Book) que ela encontrou na rua, Pierre D., através do relato das pessoas que constam nessa lista. Em meio a esses relatos, ela faz fotografias que os envolvem e as coloca lado-a-lado com o texto. Essas imagens ora são indício de coisas citadas no texto, ora abrem espaço para um julgamento subjetivo do que possam ser.

 

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Página dupla de The Address Book, Sophie Calle, 2012.

 

O que há de particular e interessante nessa busca é a construção desse personagem, através dos relatos das pessoas que estavam anotadas dentro desse caderno. A partir de relatos dela, pequenos diálogos e fotografias que ela faz, vamos traçando na imaginação como é esse homem, o locais por onde passa e como pode ser sua vida.

Aqui, as fotografias não são ilustração do texto, mas um texto que corre em paralelo, são registros das percepções da artista sobre o personagem. Contando uma história a partir de coisas que ela vê e ouve, que podem ou não, de alguma forma, ter feito parte da vivencia do personagem.

 

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Página dupla de The Address Book, Sophie Calle, 2012.

 

Dispatch (2012-2014) foi uma revista feita pelo fotografo Alec Soth e pelo escritos Brad Zellar contando como os estadunidenses vivem hoje, sendo cada publicação sobre um estado diferente. Para isso, eles viajam para esses locais procurando por histórias e personagens que possam caracterizar o local, dar um ponto de vista regional, mas não caricato, sobre aquele estado.

 

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LBM Dispatch #3 , Michigan, Alec Soth e Brad Zellar, 2012.

 

Nos textos, encontramos referências a outros escritores, artistas, e diversas menções de terceiros sobre o local ou algo que eles tenham visto lá. Mas, majoritariamente, ele é composto por pedaços de conversas entre os artistas e os habitantes, relatando seus sentimentos e anseios sobre o local onde vivem.

As fotografias pretendem falar sobre o que texto não trata, vemos muitos retratos daqueles que dão seus relatos, mas também muitas imagens dos locais por onde eles passam, uma documentação visual desse espaço. Somam-se assim diversos tipos de documentação, as conversas com os moradores, os textos de escritores, trechos de música e referencias diversas, e as fotografias que, ao mesmo tempo que mostram o local e seus moradores, também deixam espaço para a imaginação.

 

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LBM Dispatch #3 , Michigan, Alec Soth e Brad Zellar, 2012.

 

Jim Goldberg é um fotografo documentarista da agência Magnum. Com Rich and Poor (1985), documentou a cidade de São Francisco (EUA) a partir do seu contraste socioeconômico, passou a abrir espaço em suas imagens para que os fotografados falassem algo sobre eles mesmos, e assim colocando um questionamento sobre como vemos aquelas pessoas e quais as verdades delas sobre elas mesmas.

 

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Página dupla de Rich and Poor, Jim Goldberg, 1985.

 

Mais recentemente, em Open See (iniciado em 2003, com livro homônimo publicado em 2012), Goldberg está documentado aqueles que chama de “Novos Europeus”, os refugiados da África, Oriente Médio e leste europeu  que estão procurando asilo na Europa central. Agora com fotografias mais enigmáticas, que não entregam completamente a imagem do fotografado e novamente, abrindo espaço para que a pessoa conte um pouco de sí nesse pequeno espaço da imagem.

 

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Imagem da série Open See, Jim Goldberg, 2003-2012.

 

Dessa maneira, o fotógrafo nos mostra como a verdade que tomamos sobre as imagens é relativa, somos muito tomados por estereótipos quando olhamos para alguém e, ao acrescentar um pequeno relato sobre sí, vamos muitas das nossas impressões serem questionadas.

Além disso, ele reforça o caráter documental dessas imagens, ampliando seu potencial de registro. Agora, com um item a mais para contar um pouco da história que o fotógrafo quer contar. Também, cria uma proximidade com aquele que é fotografado, um pequeno grau de intimidado, tanto entre fotografo e fotografado, quanto com aquele que vê.

 

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Imagem da série Open See, Jim Goldberg, 2003-2012.

 

Acho interessante como a fotografia e o texto, mais do que a literatura, podem se unir para construir um imaginário com novas potencialidades, criando também uma linguagem híbrida, em que nenhuma se anula, apenas se somam. Fazendo com que possamos ler e ouvir uma imagem e ver um texto.

*** O projeto Open See, de Jim Goldberg, possui um site com uma compilação da pesquisa: http://www.opensee.org/

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com