Tangentes da performance no autorretrato

Categoria: Pensamento e teoria.

10/12/2015

Percebo que o autorretrato e a performance se tocam em diversos momentos. Ora no campo fotográfico, ora no campo cênico, temos fotografias que são registros de performances e temos ações performáticas que acontecem para serem fotografia.  Neste post falarei um pouco de como essas criações cênicas encontram o autorretrato.

Definir o que é performance é uma tarefa um tanto quanto árdua, mas podemos aferir algumas características que nos ajudem a delimitar algumas fronteiras desse espaço: uma performance é uma manifestação cênica, ela acontece em um tempo e local definidos,  é fruto de uma hibridização de linguagens – ela surgiu de experimentos de artistas plásticos que se apropriam da linguagem cênica para expressar algo.

Na fotografia, quando não apenas na função de registro de uma performance, ela geralmente evoca questões relacionadas com o corpo, em performances que são realizadas para a câmera fotográfica e envolvem desdobramentos e aprofundamentos do individuo e do corpo humano.

O autorretrato entra nessa esfera num embate muito direto de identidade, uma vez que temos consciência de quem somos, queremos entender o espaço que ocupamos, de como somos percebidos por aqueles que veem nossa imagem. Ao nos fotografarmos, projetamos possíveis imagens de nós mesmos, algumas vezes de um jeito muito próximo ao que nos vemos, em outras, nos vestimos de personagens para falarmos de algo que não nos parecemos, e em outras tantas, a imagem transpassa o estereótipo ao ponto de quase deixarmos de ser indivíduos para sermos sentimento.

 

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Untitled Film Still #21, Cindy Sherman, 1978.

 

A primeira artista que trago é Cindy Sherman, já bastante conhecida por seu trabalho de autorretratos em que aborda a representação da mulher na sociedade. Em frente a câmera, ela se transforma em personagens coletivos e estereotipados, como a prostituta, a madame e tantos outros, apontando para algumas feridas latentes de nossa cultura.

Seus autorretratos são claramente muito planejados e produzidos, com cenários e um gestual estudado, tendo como resultado uma imagem final que transita entre a pintura e a publicidade, encenando personagens que provocam o expectador ao devolverem imagens pré-concebidas tiradas do cotidiano, como revistas, filmes, programas de televisão e até imagens clássicas. Ao nomear suas imagens de “sem título” (Untitled, em inglês), ela também despersonifica esses autorretratos, jogando para o coletivo a identificação ou não com aquela situação.

 

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Untitled #355, Cindy Sherman, 2000.

 

A segunda artista é Laurence Demaison, uma fotografa francesa que se dedica quase que exclusivamente a autorretratos, e podemos perceber em seus trabalhos muito mais aspectos internos do que uma imagem externa, de autoafirmação ou estereótipo. Seus autorretratos tratam de temas muito calcados em violência e sofrimento. Ao invés de retratar seu corpo como ele é, ela modifica, distorce e constrói novos corpos a cada imagem.

 

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Bulle nº3, Les Bulles, Laurence Demaison, 1998.

 

Seus retratos são fruto de longas exposições, nas quais ela encena movimentos ensaiados em que remonta e transforma seu próprio corpo. Essas imagens são feitas em película, passando muitas vezes por intervenções durante os processos de revelação e ampliação.

 

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Bobines, Laurence Demaison, 2007.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com