Só vendo para crer

Categoria: Pensamento e teoria.

22/06/2016

Iran-Revolutionary-Guard-Photo-Manipulation

À esquerda – imagem alterada mostrando 04 mísseis no ar. À direita imagem original mostrando apenas três mísseis no ar.

Falar sobre ética fotográfica, é um assunto complexo e profundo, mas quero aqui, ao menos, levantar alguns questionamentos sobre nosso relacionamento com o produtor de imagens. Há câmeras, praticamente por todos os lados, e nós confiamos nesses aparelhos para que eles nos dêem, no mínimo, uma breve sobre a realidade, mas será que devemos  realmente confiar? Podemos confiar na pessoa que está atrás dessa câmera? Ou por detrás dessa imagem? Olhando para as imagens nas capas de revistas, internet ou até mesmo na mídia, fica cada vez mais difícil de acreditar,  já que estas são alteradas, falsificadas e/ou até mesmo  encenadas.

Não se engane, a mídia tornou-se uma poderosa ferramenta para influenciar e manipular as pessoas, no qual dentre outras questões, traz também à tona a importância da ética na fotografia. Deveria a fotografia apenas mostrar a realidade? Ou, seria aceitável alterar/manipular imagens apenas por motivos estéticos? Se sim, haveria um limite?

Vamos à um exemplo,  o que você acharia se um dia entrasse em uma galeria de arte e visse uma das suas fotos publicas nas redes sociais pendurada na parede, à venda por uma quantia bem significativa sem seu conhecimento (e consentimento)? Pois se você nunca ouviu falar de Richard Prince, dê uma pesquisada,  ele “roubou” e usou imagens publicadas por terceiros  e vendeu-as como se fossem sua obra de arte.  Não deveria ele, ao menos, pedir permissão de uso para reutilizar essas imagens? Ou ainda, podemos considerar esse feito como a sua obra de arte?

Richard-Prince-Instagram

Galeria de Richard Prince, exibindo as imagens que pegou no Instagram como seu trabalho de arte.

Ou outro tipo de apropriação de imagens alheia – o plágio. Seria uma imagem sua, apenas porque você apertou o botão da câmera, mesmo que o resultado seja a “cópia” de uma outra imagem? Ou seria necessário dar os créditos para quem fez o trabalho original?

E aquela capa de revista com aquela mulher linda e perfeita que foi criada virtualmente, sim, porque a manipulação nos retratos de moda e beleza são tantos que nem as estruturas ósseas sobrevivem. O que dizer dessa imposição surreal puramente estética? O que dizer de imagens que comprometem comportamento de jovens meninas que aspiram aquelas curvas imaginárias, aquela pele irreal? Então, onde está a tenua linha entre o que poderia ser considerado ético e o que não se enquadraria como tal?

Tyler-Shields-Plagiarism-2

À esquerda: Tyler Shields, 2015. À direita: Henry Leutwyler, 2012.

Vejamos o caso de Brian Walski que achou que seria uma boa idéia utilizar-se de duas imagens para melhorar a composição de sua  fotografia, adicionando um personagem de um frame e o segundo de outro, dando à esses uma interação completamente diferente entre eles.  Esse não foi o único caso de manipulação de imagens no jornalismo – no ano passado, no concurso da World Press Photo, cerca de 20% das imagens que chegaram ao segunda parte da seleção pelos jurados foram desclassificadas por significativa alteração de “post-processing”.  Contudo, aqui levantam-se alguns questionamentos, já que a credibilidade da informação é quesito primordial, e tanto no jornalismo como na fotografia documental, não é permitido tal manipulação, já que a veracidade do fato esta em jogo.

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Na 1ª linha, as duas fotos originais. Na 2ª, a imagem com a composição manipulada por Brian Walski.

Contudo, como disse no começo, esse é um assunto delicado e extenso, poderíamos discutir, se a decisão do fotógrafo na escolha do equipamento, por exemplo, não seria manipulação e tantas outras questões relacionadas à este tema. Mas aqui, quis trazer um pouco de alguns questionamentos básicos que deveriam estar no referencial de todos ao “ingerirem” qualquer conteúdo, inclusive o imagético. Na atualidade, onde profissionais altamente qualificados, podem ser facilmente descartados por mão de obra com câmera disponível e mais barata, fica aqui a dúvida, quem são os novos  produtores de imagens por detrás dessas fotografias que consumimos? Realmente vale tudo para ter /conseguir a imagem perfeita, seja lá a qual custo? Por onde anda a ética fotográfica?

“Eu perdi amigos que arriscaram suas vidas para conseguir fazer a foto, e tem pessoas que apenas encenam aquilo”. Disse Michael Kamber, que era próximo dos fotógrafos Tim Hetherington e Chris Hondros, ambos mortos trabalhando no Líbano. “É uma traição. Apenas faça o correto. Não mude coisas de lugar, não encene, não minta em sua legenda, não altere pixels. Faça certo! Isso é o que nós estamos aqui para fazer”

Não podemos mais aceitar ingenuamente as imagens como espelhos da realidade, há muita responsabilidade em jogo, e além, devemos cobrar dos produtores responsáveis por esse conteúdo, no mínimo, bom senso, já que a ética pelo visto anda em falta ou em baixa.

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Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com