shekiná: a face feminina de deus

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02/11/2015

A fotografia é, para muitos, um constante processo de descobrimento. Esse caminho pode ser feito ao descobrir o outro, a si mesmo, um novo espaço, tema ou sensação. Produzir fotografias é uma troca constante entre quem está atrás da câmera e quem – ou o que – está à frente dela.

Este movimento constante é um dos grandes motivadores da produção fotográfica, esse caminho exploratório e criador, seja de novas imagens, estéticas, caminhos ou personagens. O realizador não cria sem se deixar contaminar pelo seu tema.

 

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Mariana Caldas constrói seu caminho fotográfico buscando por pessoas. Suas imagens se concentram em construir relações entre fotógrafa e fotografado, criando um universo próprio, íntimo e fechado, dentro de cada uma de suas produções. Um de seus ensaios mais marcantes, tanto para ela quanto visualmente, é shekiná, uma série dedicada ao retrato do feminino.

“Eu comecei a fotografar meninas há dois anos, meu único objetivo naquela época realmente era levar um outro olhar sobre o corpo feminino para um mercado totalmente dominado pela testosterona. Eu queria mostrar que era possível fazer de outro jeito, que aquelas histórias poderiam ser contadas com delicadeza.” Mariana foi convidada para apresentar o projeto na exposição coletiva matéria:6 e neste momento shekiná toma forma. Dentro deste processo, Mariana percebe “como cada uma dessas mulheres incríveis mudou a minha vida de algum jeito. Eu também me encontrei mulher nessa jornada. shekiná é uma série que fala sobre a jornada de uma mulher, que foi se conhecendo através de cada uma dessas deusas que ela encontrou no caminho.”

 

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Dentro desta produção intimista de imagens há uma troca constante, um desejo sempre presente de mostrar mais da personalidade e dos anseios da fotografada, assim como a fotógrafa se faz presente pelas decisões que toma ao construir cada fotografia. Essa constante dança entre os dois lados de uma fotografia é o que torna cada imagem marcante. “Eu acho que um ensaio é um encontro muito específico. Por mais que você já conheça ou tenha alguma intimidade com a pessoa que você está fotografando, essa vai ser sempre uma experiência totalmente diferente de tudo o que vocês já viveram juntos, porque pode ser muito intenso, tanto para quem está na lente, quanto para quem está do outro lado. É como se por algumas horas a gente sintonizasse uma outra frequência muito sutil e profundamente íntima e tudo isso acontece num espaço muito curto de tempo. Eu acho uma conexão muito poderosa.”

 

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Esse diálogo constante é o que constrói a unidade dentro desta série. Há uma cumplicidade constante entre corpos que buscam sua liberdade, o desejo de se apresentar como mulher, sem amarras, com a confiança de uma representação adequada por parte de quem fotografa e percorre este mesmo caminho. “Isso foi muito forte pra mim porque era exatamente essa força do feminino que eu queria resgatar, as possibilidades infinitas que podem existir no ser mulher.”

 

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Dentro deste livre universo feminino seria impossível que Mariana não estivesse presente em cada uma de suas fotografias, construindo ao lado de cada uma de suas personagens esse movimento de libertação. De certa forma, cada retrato de shekiná é também um autorretrato, uma figura dupla, uma união entre o olho que vê e o olhar que se apresenta. “Eu acho que [estou] muito [em cada uma das fotografias] e isso é uma coisa que eu demorei muito para perceber. Eu só consegui realmente entender o quanto eu também estou exposta em cada um desses retratos quando eu olhei pro todo. Foi quase que um encontro comigo mesma, super forte, me ver através delas. A fotografia é transformadora por isso, né? faz a gente chegar mais longe, ultrapassar.”

 

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Fotografias de Mariana Caldas.

Texto de Felipe Abreu.

Felipe é editor da OLD e fotógrafo. Atualmente concentra suas pesquisas na criação da narrativa e edição fotográficas.

revista.old@gmail.com