Seus Dados

Categoria: Exposição.

23/09/2015

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Uma necessidade tem sido  implantada sutilmente em nosso organismo, ou talvez não tenha sido introduzida mas simplesmente amplificada. Seja como for, os aparelhos eletrônicos com câmera estão aderidos ao nosso corpo, transformando-nos em algo como cyborgs.

O festival de fotografia internacional Noordelicht, celebrado anualmente em Groningen, Holanda, e com curadoria de Wim Melis, apresenta esse ano “Data Rush”. A fotografia já não se ocupa de suprir as impressões e lacunas da memória, a fotografia popular já não é registro, muito menos pode ser considerada, se é que alguma vez realmente foi, testemunho da verdade. Selecionamos e encenamos experiências para no mesmo momento compartilhá-las com os outros, um “outros” abstrato e com objetivo de abarcar maciçamente. Tornar-se público, “sentir-se especial” sem esperar ser nomeado. É conhecido como democracia digital, e cede seu espaço para um exibicionismo intercultural globalizado. E dentre todo esse caos de imagens, vídeos e tweets, poder perder-se, dissolver-se em um eco de vozes cacofônicas de “me olha, estou aqui, eu também existo”. Assim é o projeto de Christopher Baker, ‘Hello World! How I Learned To Stop Listening and Love The Noise’ uma imensa tela cheia de uma infinidade de vídeos extraídos do Youtube, de vozes tentando ser ouvidas.

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Desse modo, formar parte da realidade midiática que nos induz a admirar e imitar ídolos, a ser um deles em nosso próprio site. Agora todos podemos ser estrelas, as redes sociais conseguiram nos oferecer os famosos 15 minutos de fama. Fama essa que, como podemos observar nas fotografias de Dina Litovsky não ultrapassa o círculo relativamente próximo ao protagonista. As vezes são relatos inventivos ou de um absurdo patético e que dão a volta ao mundo, propagand0-se mais rápido que uma estreia de Hollywood. Entretanto, na grande maioria dos casos, esse extenso arquivo de hiperprodução de imagens e  proliferação de dados que preenchemos todos, acaba caindo na fugacidade do meio, o que para muitos é o melhor que poderia acontecer. É o que os defensores do direito ao esquecimento no Google reclamam, e o que Nate Larson & Marni Shindelman de um modo mais humanista congelaram e levaram à realidade: tweets de todo o mundo acompanhados das fotografias de sua geolocalização, recuperando a mensagem e respeitando o anonimato.

Entretanto, nesse aparente mundo feliz onde compartimos como bons irmãos se esconde um entremeado de “mas” e condições. *1 Aaron Swartz lutou para que os avanços intelectuais fossem possíveis a todos, que o conhecimento e a cultura pudessem ser compartilhados livremente, mas essa ideia não foi bem vinda. De  uma forma menos política e mais casual, deram um passo a frente nesse caminho, *2 “The Pirate Bay” e a ideia também não foi bem recebida. A transmissão da informação e documentos se não é mercantilizada e controlada não será aceita. Mas o que acontece se uma entidade privada comercializa informação pública (o que é ilegal) faturando milhões de dólares por isso, e ainda por cima com respalde do Governo?

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Tudo aquilo que consideramos pessoal e privado em nossas vidas é facilmente acessível a qualquer pessoa em qualquer lugar com apenas alguns clicks no teclado. Hasan Elahi depois de ser injustamente acusado de terrorista decidiu monitorar-se voluntariamente para demonstrar al FBI que sua vida está isenta de suspeita. Depois de 1 ano a quantidade de fotografias do que comia, comprava e dos lugares ao que ia e viajava se acumularam em um completo e banal arquivo que decidiu converter em obra de arte no trabalho “Thousand Little Brothers v2”. Através desse ato Elahi propõe, e assim apresenta em seu TED, gerar o conteúdo que o FBI, as multinacionais e o Governo possam desejar e entregar a eles por exemplo, uma página web onde eles e todos nós temos acesso, esquecendo por um momento que a luta é a favor da privacidade e que o controle não é de quem gera o conteúdo, mas sim de quem o dispõe, suscetível as suas intenções. Recordemos que todo dado está sujeito a uma leitura subjetiva e facilmente manipulável. Pouco tempo atrás um jovem foi preso por tweetar sua alegoria apaixonada de viajar aos EUA em suas ferias e colocar fogo nela.

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Nessa mesma linha de recopilação de dados foi gerado o projeto “Rogier”. Se alguém já fantasiou com a ideia de publicar um livro a partir dos seus tweets, Joyce Overheul é dessas pessoas que passou do dizer ao fazer, não foi o primeiro obviamente, nem o único mas serve como exemplo desse fazer romântico.

Internet não é somente a vitrine de uma loja, si vamos mais além onde as normas, o controle, a censura e a moral não tem sentido, estaremos navegando por Dark Blue, mas para aceder a esse espaço temos que saber como, entender como funcionam os vazios legais, espaços não apresentáveis, espaços que não só não podemos evitar, mas bem que devem existir. Thiemo Kloss apresenta uma misteriosa e cativante serie fotográfica inspirada no lado escuro que o mundo digital oculta.

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Estas hiper realidades que nos são apresentadas, se situam em um espaço de contemplação e de observação, combatendo a habitual submersão em aparelhos tecnológicos ou a pressa que tantas vezes nos impede recair no contexto que nos rodea. Nossa capacidade de reunir dados cresce mais rápido que nossa capacidade de analise dos mesmos. Todos esses trabalhos e outros tantos mais podem ser vistos no festival de fotografia “Data Rush” até o dia 11 de Outubro. Como um conjunto de relatos do nosso presente mais tecnológico, um zumbido que chama nossa atenção para distinguir-se.

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*1: Aaron Swartz – Programador, escritor e ativista na Internet. Em seus quase 14 anos começou a formar parte como criador do RSS, espaço para compartir conteúdos. Conseguiu o acesso (ilegal) a JASTOR, um servidor de distribuição de revistas científicas e literárias restrito a subscritores, o que criou a ele um problema com as autoridades federais sendo acusado a até 35 anos de prisão e 1 milhão de dólares em multas. Também foi investigado pelo FBI em 2008 por baixar mais de 18 milhões de páginas do sistema de pagamento que organiza arquivos judiciais e divulga-las ao público. Contribuiu na rede social dedicada a noticiais Reddit. Morreu aos 26 anos de idade de causa desconhecida.

*2: The Pirate Bay – É um motor de buscas e rastro de arquivos BitTorrent no qual é possível realizar buscas de todo tipo de material multimídia. Fundada pela organização contra o copyright Piratbyran a princípios de 2003 na Suécia. É o maior Tracker de BitTorrent  a nível mundial.

http://www.noorderlicht.com/en/

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Fotos e texto por Nerea Arrojería

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.