Revisitando o passado

Categoria: Pensamento e teoria.

13/08/2015

Quando um artista se depara com arquivos uma imensidão de possibilidades de diálogo se abrem: desde a necessidade de manter algo vivo na memória até a possibilidade de dar um novo significado para aquele momento. O intuito desse texto é localizar alguns artistas e seus trabalhos que revisitam arquivos que são públicos ou fazem parte do imaginário do local a que pertencem e com isso observar quantos caminhos diferentes essas histórias podem tomar.

Vesna Pavlović é uma artista de origem sérvia, residente nos Estados Unidos, que na instalação Fabrics of Socialism (2013) retrabalha um arquivo de imagens da Iugoslávia pós Segunda Guerra Mundial. A partir de imagens de propaganda, registros de viagem do presidente Josip Broz Tito e o atual estado desses arquivos ela revisita as lembranças do passado socialista desse povo que veio sofrer uma ruptura muito violenta nos anos 1990. Os registros são projetados em uma cortina, onde se movimentam com uma certa distorção, análoga a passagem do tempo e consequente fragmentação, sendo vistas sempre repartidas.

 

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Vesna Pavlović, Fabrics of Socialisma, 2013.

 

Em Imemorial (1994), a brasileira Rosângela Rennó procura nos fazer descobrir que a construção de Brasília teve também um alto custo de vidas que foram enterradas nas fundações da cidade. A obra é montada a partir de fotografias encontradas no Arquivo Público do Distrito Federal de trabalhadores que foram “dispensados por motivo de morte”. Assim, reconhecemos e lembramos a vida e a morte de tantas pessoas que viam na construção de uma nova capital para o país a possibilidade de um futuro progressista. De certa maneira, Rennó traz a possibilidade resgatar para o coletivo uma memória que até então tinha seus fatos escondidos

 

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Rosangela Rennó, Imemorial, 1994.

 

Esses dois primeiros trabalhos foram de artistas que buscam rever a memória nacional e coletiva de seus países, trabalhando questões que vão além do mero registro fotográfico como documentação, mas vendo como parte integrante e ativa da história. Os próximos dois vem discutir a fotografia como mídia e objeto artístico.

 

Soviet Photo (2012), do fotógrafo ucraniano Roman Pyatkovka debruça seu olhar sobre a única revista de fotografia que circulava na União Soviética entre 1926 e 1992.  Carregada de propaganda politica e simbologias, era um dos únicos espaços que a fotografia tinha para circular na URSS. Assim, Pyatkovka mescla imagens dessa revista com seu trabalho daquele momento, que só poderia existir em um espaço alternativo (underground). Extremamente politico, segundo o artista, ele busca mesclar as imagens de uma União Soviética idealizada com a realidade daquele momento, tentando libertar a memória de uma ditadura de imagens.

 

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Roman Pyatkovka, Soviet Photo, 2012.

 

Mais conhecida por aqui, Sherrie Levine em 1981 apresenta a série After Walker Evans, na qual ela fotografa reproduções das fotografias mundialmente famosas feitas por Walker Evans durante a depressão americana. Ao fazer isso, ela se tornou um marco do que poderia ser a fotografia pós-moderna, discutindo as relações da fotografia e sua reprodutibilidade, criticando seu estatuto como documento da realidade e também do que pode ser arte.

Indo mais adiante, Levine tem uma espécie de seguidor chamado Michael Mandiberg, que resolveu em 2001 digitalizar as mesmas imagens que Levine reproduziu 20 anos antes e trazer a discussão para a era digital.  Para ele, ao escanear essas imagens, disponibilizá-las em alta resolução para impressão e emitir um certificado de autenticidade para cada uma delas, ele faz uma segunda negociação com Walter Benjamin, criando um objeto de arte com alto valor cultural, mas pouco ou quase nenhum valor econômico.

 

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Untitled (AfterWalkerEvans.com/2.jpg) e certificado de autenticidade.

Michael Mandiberg, 3250px x 4250px (at 850dpi), 2001 (disponível em: http://www.aftersherrielevine.com/; http://www.afterwalkerevans.com/)

 

Por último, queria falar da apropriação de um arquivo muito delicado, a bíblia. Podemos chamar a bíblia de um arquivo pensando que ela é uma coleção de documentos e que também representa um conjunto de tradições. O trabalho intitulado Holy Bible (2013), de Adam Broomberg e Oliver Chanarin, parte de um texto do filósofo Adi Ophir que fala, resumidamente, que Deus se revela predominantemente nas catástrofes e que podemos fazer ligações entre as relações de poder citadas na bíblia e as políticas atuais. A partir disso eles acrescentam a paginas da bíblia fotografias que fazem parte do The Archive of Modern Conflict, que contém um grande acervo de imagens de guerra, violência e conflitos no geral, criando um diálogo entre trechos canônicos e imagens fotográficas que vão desde um casal se beijando a destruição pela bomba atômica.

 

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Adam Broomberg & Oliver Chanarin, Holy Bible, 2013.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com