Retrato de família – fotografia e memória

Categoria: Pensamento e teoria.

09/12/2015

NPG x74402; Christian IX, King of Denmark and his family by Georg Emil Hansen

Christian IX, Rei da Dinamarca e sua família por Georg Emil Hansen, 1862, © National Portrait Gallery, London

 

O que levou aquela família ou grupo de pessoas a fazerem  aquele retrato? Porque estão ali, assim, daquele jeito e naquele momento? Quais os motivos para  vestirem suas melhores roupas, estamparem seus melhores sorrisos e suas melhores posturas? Haveria alguma forma na qual a câmera possa “capturar o tempo”? Um dos intuitos do retrato de família sempre foi o de ostentar a prosperidade e o bem-estar, de atestar  determinado modo de vida e de uma riqueza perfeitamente representada através de objetos, poses e olhares. É uma forma simbólica composta por um sistema de convenções, que muda com o tempo, visando mostrar o retratado de uma forma favorável. A fotografia tornou-se meramente um objeto de apreciação. O ato de fotografar  é um ato de nutrir as lembranças, é uma tentativa de capturar a cena, um ritual, um rosto, …, é, em si mesmo, uma tentativa de modelar a nossa memória.

O fotográfico é essencialmente melancólico, refere-se ao que já passou ou associa-se intimamente com a perda ou a morte. Até mesmo o que parece uma imagem alegre apenas reforça a evidência de que todas as coisas passam. Somos atraídos para o retrato como uma promessa de atrasar ou erradicar a mortalidade. Fotografar pode, enfim, estimular a “memorização” de pessoas, eventos, objetos e experiências emocionais. Quando recordamos um rosto em um determinado momento, carregamos algo do passado, de como eramos, pareciamos, um indicador de como talvez  poderiamos  vir a ser. A imagem retrata ambos, a continuidade e a mudança, estabelece ligações entre tempo e espaço, nos faz  lembrar de coisas, lugares e pessoas.

 

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 https://www.flickr.com/photos/vintage_women/6600692467/in/photostream/

 

Uma imagem é associada ao seu contexto no passado e com as atuais circunstâncias nas quais as revivemos. Percebemos as imagens de forma muito complexa, inclusive por meio do contexto social  (ou por conta própria, ou por interação com amigos ou parentes que também estão vendo a mesma fotografia).  Podemos nos lembrar e estruturar não apenas os “quês” e os “porquês”, mas também os “e ses”. Humanos são diferentes de todos os outros seres vivos pois adquirem informação, armazenam-a, processam-a e transmitem-a para futuras gerações. Isto é anti-natural, vai contra a entropia da natureza. Isto é uma habilidade unicamente humana.

A estética da fotografia de família mudou, assim como alguns valores e conceitos sociais mudaram, mas quase sempre nos encontramos presos a estética da felicidade, da prosperidade e da família perfeita. Quantas vezes você viu ou mostrou a foto daquele dia que estava descabelado(a), desarrumado(a)? Salvo algumas exceções, ainda nos escondemos atrás de nossas melhores roupas e nossos melhores sorrisos. Mas no fundo, a fotografia de família, é apenas resquícios das nossas memórias, a nostalgia de outrora. Sempre saberemos e lembraremos, e é exatamente por isso que estamos ali, naquele retrato, para que lembremos.

 

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Foto de Alisa Florence

 

“ Eis o que afirma a ideologia grega: a memória é transumana é espécie de espaço (topo uranikós) no qual são armazenadas as informações (as formas, idéias). Somos originários de tal espaço, mas decaímos dele para o mundo das aparências efêmeras. Ao decairmos, atravessamos o rio do esquecimento (lethe). No entanto, o esquecimento não apaga a memória, apenas a encobre. O nosso propósito de vida é desencobrir a memória e destarte voltar para ela. Os métodos de descobrimento da memória são os métodos para re-emergimos para ela (para o céu – topos uranikós) (…) Participamos da memória transumana na medida em que conseguimos superar-nos a nós próprios e reconhecermos os outros. E seremos guardados em tal memória (seremos imortais) na medidade em que, por nossa vez, formos reconhecidos pelos outros.” FLUSSER(1998)

 

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Texto por Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com