Quando a fotografia fala dela mesma

Categoria: Pensamento e teoria.

24/05/2016

A fotografia como mídia, por suas características técnicas e sua relação com o real acaba sendo a porta de entrada de diversas discussões dos mais variados temas da sociedade e da arte. Porém, apesar de muitos debates teóricos sobre a fotografia e suas funções, essas discussões não tomam tanto o foco de tomarem novamente a forma de fotografia.

No texto desse mês, busco apresentar alguns trabalhos que discorrem de uma certa metalinguagem da fotografia, uma “metafotografia”, onde o tema e o espaço de discussão são ela mesma. Para isso, irei apresentar dois trabalhos que discutem a fotografia como mídia a partir de aspectos diferentes.

O primeiro destes trabalhos se chama After Image (após a imagem, em tradução livre), da artista estadunidense Rita Maas. Nele, ela fotografa uma projeção de um filme 8mm em longas exposições, resultando em várias imagens que se compactam. A série é composta de duas frentes, as fotografias e um vídeo, enquanto as primeiras tratam do resultado final , o vídeo trata da experiência de percorrer e reter as imagens.

 

Rita Maas, After Image (vídeo) , 2012.

 

A intenção de Maas é de representar aquilo que já foi visto, algo como o que ficou registrado na visão de todas as imagens fotográficas antes vistas. “Uma imagem-fantasma-temporal, queimada na retina como ilusão ótica”, como ela mesma define no texto de apresentação do trabalho.

A artista reduz a imagem fotográfica apenas a uma referência à ela mesma, mostrando apenas a luz capturada e a luz que media a experiência de ver imagens. Ao gerar um ofuscamento, abdica de uma imagem reconhecida, ela traz o foco para o processo e a mídia fotográfica, sem deixar brecha para que se volte a atenção para algo que se reconhece na imagem.

Dessa maneira, ela traz uma discussão sobre o que pode conter uma imagem e o espaço subjetivo dela. Enquanto uma fotografia que contém diversas fotografias é uma imagem densa, um acumulo de imagens, podemos perceber que ali existem muitas imagens que nos identificamos, como também podemos acabar por não ter nada, ou quase nada, porque ao se acumularem praticamente se anulam.

 

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(da esquerda para direita) Rita Maas, Untitled 12.03 e Untitled 12.06, After Image, 2012.

 

O segundo trabalho se chama Constructed Landscapes (Paisagens construídas, em tradução livre), da artista inglesa Dafna Talmor. Constituído de pedaços de diversas imagens que buscam construir uma nova paisagem, em que temos apenas os ambientes externos e qualquer rastro do homem e suas construções são apagadas, deixando um vácuo de subjetividade entre elas.

 

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Dafna Talmor, da série Constructed Landscapes I, 2013-14.

 

A partir disso, Talmor deseja dialogar com a história da fotografia e um dos seus temas mais célebre, a paisagem. Se por um lado ela olha para o Pictorialismo e suas tendências em aproximar a fotografia da pintura, em dar uma “qualidade” pictórica às fotografias. Por outro, ela combina com o experimentalismo e desejo de ruptura das vanguardas modernistas, através de colagens e múltiplas exposições.

 

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Dafna Talmor, da série Constructed Landscapes I, 2013-14.

 

O trabalho surgiu a partir da percepção de que estava cercada de uma coleção imensa de negativos de imagens feitas por ela e que não tinham nenhuma função. Ao pegar seu arquivo de paisagens, recombina-lo em um novo ambiente e apagar qualquer elemento que conferisse significado pessoal a imagem, ela torna essas imagens universais.

Essa ação se potencializa quando a artista trabalha com referencias à história da fotografia, tornando essas imagens familiares uma segunda vez. Essa repetição de referências causa uma reflexão sobre a maneira como o mundo é fotografado, uma vez que, na recombinação, Talmor cria novamente imagens que geram identificação, justamente por não serem pessoais.

 

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Dafna Talmor, da série Constructed Landscapes I, 2013-14.

 

Ambas as artistas geram reflexão sobre a mídia fotografia e a partir dela, tratando da relação de identificação que buscamos nas imagens. É por esse gancho que cada uma segue um caminho diferente, enquanto Maas expõe a maneira com que vemos e produzimos as imagens, Talmor vai buscar na história da fotografia o lugar-comum de todas essas imagens.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com