Por que esperamos da foto a verdade?

Categoria: Pensamento e teoria.

27/05/2015

795px-Lenin_addresses_the_troops,_May_5,_1920_with_Trotsky_in_foreground.

 

Uma das primeiras providências de Stalin ao consolidar seu poder na Rússia foi apagar a presença de Trotsky de todas as fotografias remetentes aos grandes momentos da história do regime ditatorial. No toque do bisturi e da cola a editar as fotos que dali em diante ostentariam o status de registro dos momentos heróicos dos grandes líderes do governo, Trotsky ia se tornando um vestígio, um pouco daquilo que quem conhece o livro 1984, de George Orwell, sabe melhor como é.

Bem se vê que não é fenômeno dos dias atuais o desejo de dar aquele retoque naquilo que nos incomoda. Por motivos políticos, estéticos ou publicitários (com certa freqüência, vemos esses três juntos), editamos fotos como nunca antes. Sabemos disso fechando os olhos de desconfiança diante do pescoço estranho da modelo na capa de revista ou curtindo fotos no Instagram e vendo que aquele filtro realmente fica bom pra dar um ar vintage. Como li em Fotografia e História do Boris Kossoy,

 

o retrato fotográfico tornava-se uma necessidade do ponto de vista psicológico, pois o homem em todas as latitudes nele percebera uma possibilidade de perpetuação de sua própria imagem. Por que não ‘congelar’ sua imagem de forma nobre? (…) Não seria esta uma fantástica possibilidade de autoilusão para sua aparição posterior? Não seria esta uma saída digna para a imortalidade, isto é, quando seu retrato fosse apreciado no futuro pelos descendentes e desconhecidos? [2014, 123]

 

Isso me lembra de uma certa vez conversando com amigos sobre manipulações digitais de fotografias as dúvidas que temos se “a mulher da revista é aquilo mesmo ou foi ‘fotoshopada’”. Técnicas de registro visual como a pintura e o desenho antes da invenção das câmeras eram utilizadas para retratar os mais diversos temas, porém por maior que fosse o desejo de fidelização representativa, nunca tivemos como na contemporaneidade uma demanda tão grande de que uma imagem registrasse algo, que ela nos mostrasse o “real”.

 

Uma fotografia posta a um público apresenta em seu suporte (blog, jornal, etc) o reforço de sua veracidade, assim como as técnicas de produção expressas no resultado final nos conduzem a ler na imagem um sentido de verdadeiro ou falso naquilo que expressa. Isso nos leva a um primeiro ponto de provocação: a imagem fotográfica não surge a nós sem seus vestígios, ela traz nos seus elementos iconográficos e no veículo através do qual circula um forte teor de discurso que na grande maioria das vezes nos toma de assalto, acessa nosso imaginário, nos traz algo. Impactante ou corriqueiro, nossa relação com a fotografia cotidiana costuma ser ver e seguir o dia e geralmente não percebemos o quanto disso trazemos para nós, significando e consumindo.

 

Um segundo ponto surgiu na conversa a respeito do material que a produz; em outras palavras, acreditamos na realidade da imagem expressa pela câmera pelo fato de ela ser uma máquina (diferente do desenho, vindo da mão humana e portanto tão passível de erro)? Pensemos sobre o contexto da criação da câmera fotográfica e sua evolução tecnológica e de sua “filha”, o processo de filmagem. Pensemos agora em nossa contemporaneidade, e uma das primeiras perguntas surgidas diante de ações que demandem provas: “alguém fotografou ou filmou o ocorrido?”. A fotografia tanto para o ambiente policial-jurídico quanto para as relações sociais surge como testemunho do acontecimento, diferente do relato verbalizado, tomado como duvidoso diante das falhas da memória. Nos relacionamos com nosso desejo de fotografar e com essas imagens buscando um parar do tempo, um  certo congelamento do instante; é o nossa vontade de comunicação para si e para o outro as mensagens que não devemos esquecer.

 

Uma das respostas que percebo hoje para aquilo que foi calorosamente discutido na mesa de bar é que, tal como ocorre com o que lemos e escrevemos, precisamos em certo momento refletir sobre o que há ali de verdadeiro e falso – as intenções e elementos que são postos a nós – mas também perceber que demandamos cotidianamente que a fotografia seja uma fonte documental do acontecimento,  uma ilustração que esclareça a manchete do jornal, que ela diga a nós “como as coisas eram”, e assim esquecemos que ela é vinda de um processo de criação, de uma série de seleções com motivações nem sempre claras porém presentes – e que ela pode estar mais próxima da ficção do que é fácil de se admitir.

_____________________

Texto por Renata Moraes.

Renata Moraes faz mestrado em História pela UFPE com interesse nas questões sobre imagem e imaginário.

E-mail: renatapsmoraes@gmail.com.