O revés da fotografia

Categoria: Pensamento e teoria.

31/08/2016

Há não muito tempo atrás, escrevi sobre a função Civil da fotografia e de como, no máximo, ela vem nos alertar sobre nossas próprias limitações e erros como sociedade. Esse mês, mais uma foto de uma criança que sofre a terrível consequência da destruição na Síria veio à tona. O que me fez repensar esse papel que a fotografia tem.

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Quando mencionei que a fotografia no máximo tornava-se um símbolo, não reparei as consequências provindas dos dias de hoje. O que aconteceu desde a foto do menino sírio morto na praia que buscava por refúgio até o menino sentando naquela ambulância? Nada mudou, não há indícios de melhoras e nem previsões positivas sobre o assunto, não há engajamento por parte da autoridades, nem mesmo por parte da sociedade. Parece que continuamos nossas vidas e aquela imagem é uma outra realidade – a realidade do mundo das imagens, que apenas existem e funcionam no mundo das imagens.

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Lembro me quando ainda em meio a transição do analógico para o digital, muitos diziam que era o fim da fotografia.  Achava essa corrente filosófica radical vindo de  um lado romântico demais para ver as possibilidades que o digital traria à nossa área. Hoje, eu vejo que eles eram, na verdade, puristas e não estavam tão errados assim. A fotografia não acabou como eles haviam imaginado, mas hoje, ela não é mais a mesma. A fotografia vista como era na época do filme e do negativo, não pode ser comparada com a fotografia de hoje. Ambas são imagens criadas por um aparelho, e por um olhar, mas quando a fotografia deixou o mundo material do negativo e foi para o mundo virtual dos pixels, elas deixam de ser a mesma coisa. O modo de arquivar,  tratá-la, editá-la e principalmente, o modo de mostrá-la ao mundo não é mais o mesmo, até mesmo o espectador já tem uma outra relação muito mais íntima com as imagens. A reprodutibilidade digital, está nos moldando e não o contrário.

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Ainda acredito na potencialidade da fotografia, especialmente para alertar nos  sobre o que acontece longe dos nossos olhos. Mas o advento digital é novo, a possibilidade de todos sermos produtores de imagens também é nova, e como pensar no significado da fotografia em um mundo poluído por tantas? Como uma imagem símbolo pode nos fazer sentir a realidade daquele menino, se passamos a ser uma imagem digital e a nossa interação, indignação e até mesmo engajamento social acontece apenas em uma esfera virtual, imaterial? Seria a fotografia uma “vilã” para a sociedade atual? Já estamos tão imersos no mundo das imagens que estamos criando um realismo paralelo ao universo? Só olhar, compartilhar uma imagem é o suficiente? Estaria a fotografia colaborando para a perda da nossa humanidade? Isso é apenas uma reflexão, um desabafo, já que estamos ainda descobrindo as consequências desse novo mundo das imagens, mas como fotógrafa deixo um apelo para pensarmos. Afinal, qual é o verdadeiro impacto de uma imagem como essa em nós?

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Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com