O que sobrevive de tantas imagens que vemos?

Categoria: AutoresePensamento e teoria.

17/03/2016

O fotógrafo italiano Adriano Calabrese foi um dos selecionados do concurso Foam Talent 2015 com seu trabalho A Failed Entretainment, com o qual vem discutir a fotografia como mídia e de que maneira a internet influencia nossa maneira de ver e produzir imagens.

 

Francis

Adriano Calabrese, Francis, A Failed Entretainment, 2015.

 

Em um primeiro momento, simplificadamente, Calabrese pega fotografias suas, pesquisa por elas usando o Google Reverse Image Search e coleta alguns dos resultados de imagens “semelhantes” que o sistema encontra. A partir disso, imprime imagem por imagem em uma superfície transparente, sobrepõe e digitaliza essa nova imagem.

Com essa atitude, o fotógrafo nos faz pensar nessa metalinguagem da imagem, na qual ele fala sobre suas fotografias a partir de outras que são de pessoas anônimas.

Uma ferramenta de busca  de imagens na internet a partir de seus semelhantes, que usa critérios não muito claros – mas imagina-se que cerceia semelhanças de forma, cor, geolocalização e outros -, é muito interessante para pensarmos uma imagem fotográfica hoje.  Geramos tantas imagens, e tão semelhantes, que somos capazes de falar sobre uma determinada fotografia a partir de outras.

 

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Parte dos resultados da pesquisa que originaram a imagem Francis. Fotografia à esquerda de Calabrese

 

Ao usar essa ferramenta, algumas vezes vê-se muitos acertos (de semelhança) e outras, resultados um tanto quanto distantes, mas que, geralmente, tem algo que tangencia a imagem inicial e que pode falar algo sobre ela. Ela oferece uma espécie de quebra-cabeça visual, em que cada peça é tirada de um jogo diferente, mas se encaixa no jogo atual. Ao fazer uso dela, Calabrese junta essas peças desordenadas e monta seu próprio jogo. Nele, a nova ordem reflete a sensação de overdose de imagens que temos hoje, são tantas a se acumular que, de uma maneira, se anulam em algum momento.

 

Mina

Adriano Calabrese, Francis, A Failed Entretainment, 2015.

 

Ao escolher o título desse trabalho, Calabrese dá uma pista disso. A Failed Entreteinment era o título original do romance Graça Infinita (no original Infinite Jest) de 1996, do escritor americano David Foster Wallace, que apresenta o entretenimento em um cenário um tanto apocalíptico, no qual ele é tão paralisante que pode levar a morte. Dadas as proporções,  não se difere tanto do que vivemos hoje com a internet e seu fluxo constante de impulsos visuais, e para o artista, a série propõe que a dependência da internet e sua incessante pulsar de imagens deve falhar em entreter por causa de sua falta de controle, perfeição e ausência de um fim narrativo.

Somos tão bombardeados por imagens diariamente, onde elas são de alguma maneira guardadas no inconsciente e esquecidas por nós, e Calabrese cria uma metáfora imagética muito interessante para isso: essas imagens se sobrepõem tanto, que nos resta só uma mancha escura que denuncia sua anulação.

A produção e o acesso incessante a imagens atualmente também acabam gerando um incômodo sobre as razões para se fotografar, uma vez que já temos (quase) tudo dado e acessível, porém feito por outros. Na série aqui mostrada, o fotografo “sacrifica” seu próprio trabalho para que as fotografias feitas por outras pessoas deem forma à cada imagem final. Acaba se tornando um trabalho de certa maneira colaborativo, que oferece não um ponto de vista único, dado por Calabrese, mas uma multiplicidade de olhares.

 

Flavio

Adriano Calabrese, Francis, A Failed Entretainment, 2015.

 

Ao final, A Failed Enretainment, nos faz olhar para a situação da fotografia como meio/mídia: se por um lado nunca foi tão acessível produzirmos imagens e termos elas disponíveis, por outra a televisão e a internet, principalmente, nos oferecem tanto a disposição que nos deixam desnorteados, gerando uma espécie de buraco negro de imagens. Nos instiga a pensar o que em nós sobrevivi um pouco disso tudo que vemos e o que fazemos com isso.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com