O que se comunica com o nosso olhar (ou sobre quando somos surpreendidos ao ver a foto de alguém)

Categoria: História e Fotografia.

18/06/2015

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A existência dela chega a nós através daquele papel amarelado pelo tempo. Secretaria de Segurança Pública, salvo conduto. Elfriede Klein. Alemã. Recife, 5 de junho de 1944. O seu rosto representado em uma 3×4 em preto e branco. Dentre os objetos pessoais apreendidos e registrados no DOPS de Pernambuco, estão fotografias de infância e de familiares. Não pelo tema das fotos, mas pelas imagens que ali estavam, a sensação que é transmitida com arquivos como o dela é um pouco do que temos em um álbum de fotografias: de uma forma quase mágica, as presenças daqueles mortos se levantam a nós.

Então, qual a distância entre a vida de quem foi fotografado e a de quem vê a foto, se nela consigo tecer fios de reconhecimento e de empatia? A experiência do outro assim posta me lembra um frase de Susan Sontag em Sobre a Fotografia:

“O que está escrito sobre uma pessoa ou um fato é, declaradamente, uma interpretação, do mesmo modo que as manifestações visuais feitas à mão, como pinturas e desenhos. Imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que qualquer um pode fazer ou adquirir.”

 

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A imagem de Elfride me fez sentir e depois entender um dos maiores poderes da fotografia, poder este não posto por uma demanda social mas que vem daquilo que é de sua essência: como um objeto místico, a fotografia nos dá esse envolvimento de estar em contato com uma realidade compactada, e que quando vemos e tocamos a foto ela se expande, e a partir disso estamos de fato a vivenciar algo que não é da dimensão do cotidiano e do óbvio, e tudo isso pode surgir a quem vê pelo olhar do outro lançado à câmera que o registrou. O desconforto de uma pose 3×4 em nada se parece com a foto de porta retrato charmosa, ou mesmo o do instante com a família na varanda da casa. O que fotografias como as dela proporcionam a um pesquisador ou até a um curioso atento é de que as dimensões dos acontecimentos – passados e presentes – se intercalam e se visitam várias vezes graças aos olhares que provocam a memória. Entrei naquele arquivo com um conhecimento prévio sobre a Segunda Guerra Mundial no Brasil, os ataques xenófobos ocorridos, as suspeitas e investigações policiais sobre espionagem – e toda essa mala intelectual se dissolveu no encontro desse conhecimento blocado com as sutilezas e envolvimentos das histórias pessoais trazidos nos olhos de quem ali esteve.

 

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Texto por Renata Moraes.

Renata Moraes faz mestrado em História pela UFPE com interesse nas questões sobre imagem e imaginário.

E-mail: renatapsmoraes@gmail.com.