O Processo Kirlian

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17/12/2015

Kirlian photography é o grupo de técnicas fotográficas que trabalham com a formação de imagem através de descarga elétrica. Esta técnica foi desenvolvido pelo casal russo Semyon Davidovich Kirlian (1898 – 1978) e Valentina Khrisanovna Kirlian  (desconhecido – 1972) em 1939, quando acidentalmente descobriram que ao colocar numa chapa fotográfica um objeto conectado a uma carga de alta voltagem uma imagem é formada.

Eles utilizavam um oscilador de alta frequência e um gerador de faísca que operava de 75 a 200kHz. Para se ter noção desta grandeza, a frequência da corrente alternada aqui no Brasil é de 60Hz (hertz), ou seja, 60 ciclos por segundo. O casal Kirlian chegou a dizer que a imagem que eles haviam descoberto se comparava a áurea humana, pois acreditaram que suas imagens captavam a áurea dos objetos.

 

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fotografia de folha do casal Kirlian

 

Nesta pesquisa pela captação da áurea das coisas não humanas, o casal acabou acumulando uma grandiosa quantidade de imagens de vegetais em diversos estados de decomposição, afim de entender a variação no campo elétrico delas.

Através desta pesquisa, em 1949 foi confirmado que o processo Kirlian era capaz de detectar algumas doenças em plantas que até então eram impossíveis de serem diagnosticadas. No mesmo ano o casal recebeu a patente Soviética sobre um método de fotografar por meio de correntes de alta-frequência.

 

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fotografia de folha do casal Kirlian

 

Um artista contemporâneo que trabalha com o processo Kirlian de alta-frequência é o estadunidense Phillip David Stearns (1982). Stearns utiliza tecnologias e mídias eletrônicas como ferramentas para explorar a relação dinâmica entre ideia e matéria como mobilizadores dentro da sociedade contemporânea numa cultura complexa e interligada.

 

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And Rivers of Silver Halide Poured from Their Eyes”, Phillip David Stearns

 

Um de seus trabalhos mais marcantes é High Voltage images (2014) em que aplica alguns corrosivos e descargas elétricas de 15.000 volts de corrente alternada em chapas de Fujifilm FP-100c Instant Color.

A questão da energia elétrica na imagem de Stearns é muito poética, pois a captação da imagem pela visão após o momento da projeção na retina é a recodificação da imagem para impulso elétrico nas sinapses. Em High Voltage images o artista amplifica estes impulsos cerca de 300.000 vezes ao disparar descargas elétricas de alta voltagem.

 

Phillip_David_Stearns-02

As She Reached Inside Her Arms Spread Out Like Mycelia”, Phillip David Stearns

 

O que despertou o interesse de Stearns foi ler as especificações técnicas do filme e percebeu com isso as semelhanças entre as camadas do filme fotográfico com a da retina do globo ocular são impressionantes e a partir da constatação enxergou que a limitação praticada no filme fotográfico se estende à nossa capacidade de experiência. Para ele, temos o costume de entender certas tecnologias como extensões ou abstrações de determinados órgãos humanos e com isto, nós temos a tendência de aplicar estas mesmas limitações às nossas capacidades.

 

Legenda: Processo de Phillip David Stearns

OBS:

Volt é a unidade de tensão elétrica que mede a diferença entre a quantidade de carga elétrica de um ponto a outro em um circuito. Em residências a voltagem varia de 110V a 220V.

Hertz é a unidade de frequência medida em ciclos por segundo.

A energia elétrica é fornecida nas residências por corrente alternada, ou seja, de forma não contínua, por isto o uso da medida de frequência.

 

SITE:

http://www.phillipstearns.com/

http://kirlian.com/

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.