O preto e o branco: a experiência estética na fotografia documental de Marcelo Buainain

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16/09/2015

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O preto e branco sempre foi, no campo da fotografia documental, uma das experiências estéticas mais significativas. Se observarmos o processo histórico das imagens técnicas, quando elas surgiram só havia o preto e o branco e, quando o colorido veio preencher as fotografias, as pessoas ainda achavam que o preto e branco transmitia mais “realidade” do que as cores. Tentemos, no entanto, não adentrar as fronteiras da ontologia fotográfica nesse momento, assunto denso que já foi tratado em alguns textos na Revista Old e será tratado mais futuramente nesse blog. Por hoje falaremos um pouco sobre o preto e o branco.

Dentre os fotógrafos documentais contemporâneos, Marcelo Buainain chama atenção pela a utilização dos tons de cinza em suas imagens. Fotógrafo, produtor e diretor de documentários, Buainain trocou a carreira de médico para se dedicar à fotografia. Recebeu diversos prêmios, entre eles a Medalha de Ouro da Foto Série Society for New Design nos Estados Unidos. Atualmente desenvolve trabalhos autorais e atua na área jornalística e editorial,  o que faz com que ele viaje por diversos países e documente os mais diversos aspectos culturais mundiais.

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Seja sobre a cultura hindu ou sobre os carvoeiros do Mato Grosso do Sul, as imagens de Buainain se destacam pelas nuances do preto e branco, pela surrealidade dos assuntos isolados surgindo da escuridão e pela intensidade  das nuvens de ar ou de poeira. A luz é quase sempre natural e enfatiza as texturas dos corpos e do ambiente. Os tons de cinza, as sombras e os corpos em espaços vazios realçam a dramaticidade e o caráter subjetivo dos assuntos retratados, fazendo com que diversos conceitos surjam, tais como subjetividade e religiosidade.

A composição é sempre pensada em relação à luz, que surge diagonalmente aos corpos, de modo intensificar os detalhes. Seja na imagem de um garoto de costas, com o tom de sua pele destacado pelo adorno branco em seu corpo diante do rio; seja a fotografia de um carvoeiro que segura o seu instrumento de trabalho que brilha pela luz incidida e esconde as suas feições, Buainain consegue tornar as imagens quase que universais, ao mesmo tempo que individualiza o retratado. Dois universos que se encontram majestosamente sob a benção do preto e do branco.

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Para Buainain, é preferível retratar em preto e branco pois nem sempre há cor naquilo que é retratado. Ele acredita que a informação cromática pode, muitas vezes, atrapalhar a visão. Como sua fotografia tem muito do momento, é necessário muita concentração no ato fotográfico e, portanto, o preto e branco transmite melhor o seu discurso.

Marcelo Buainain prefere as pessoas aos lugares, “uma forma de preencher ou compensar a própria solidão”, como diz em seu site. Ele cria cenários carregados de uma força subjetiva, fazendo com que suas imagens fotográficas documentais passeiem entre o surrealismo, a poesia imagética, a reflexão e, principalmente, a visualidade. O processo criativo e o pensamento imagético de Buainain estão ali, configurados em tons de cinza, personificados em preto e branco.

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Texto por Anna Carvalho

Docente e Doutoranda em Artes Visuais – annaleticia@gmail.com