O papel cívico da fotografia perante a sociedade

Categoria: Pensamento e teoria.

22/09/2015

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James Nachtwey

 

Não é de hoje que temos, nem que seja de um modo em geral, um vago desejo de “salvar o mundo”. Talvez o próprio subconsciente coletivo acha que isso seja muito para nós, reles mortais, achamos outro para assumir esta responsabilidade – a fotografia. Mas você acredita mesmo que a fotografia pode mudar o mundo?

Inocentemente, já acreditei que uma imagem poderia mudar o mundo. Hoje digo seguramente que não, a fotografia não é capaz de mudar o mundo! Ela é apenas capaz de tornar-se um ícone. Como recentemente, a imagem do pequeno menino sírio afogado na praia turca juntamente com outros que buscavam refúgio e esperança na Europa.  Ou como em 1972 , a imagem da menina queimada  por napalm ou como a foto de 1994 do urubu espreitando a criança desnutrida.  A intenção da fotografia  não é e nunca foi de “modificar o mundo”, apenas visa modificar a vida dos homens.

 

Vietnam

 

Nick Ut

 

Quando uma imagem atinge o máximo de sua potencialidade, ou seja, torna-se um ícone simbólico no repertório visual de todos, ela coloca uma face humana nos problemas que de longe podem parecer abstratos ou ideológicos, coloca um lado humano no que acontece num nível popular com cidadãos comuns que se encontram longe dos holofotes do poder. Estimula a opinião pública e dá ímpeto ao debate público, força as partes envolvidas, direta ou indiretamente, a assumir responsabilidades e a tomar atitudes cabíveis.

Sem entrarmos na discussão e nos princípios da ética, de que o que deve e o que não deve ser publicado, muitas dessas imagens chocam, mas nem sempre são explícitas, certamente são as cicatrizes que nunca nos deixaram esquecer como e onde falhamos, de quantas vezes escolhemos não nos envolver ou ainda, de quantas vezes fechamos os olhos e tapamos os ouvidos à um pedido de socorro. A realidade, muitas vezes, é dura e os problemas da sociedade não serão resolvidos até que os mesmos sejam identificados e vistos.

 

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Kevin Carter

 

Em seu discurso no TED, James Nachtwey, famoso fotojornalista, disse que “fotógrafos vão às fronteiras extremas da experiência humana para mostrar aos outros o que está acontecendo. Algumas vezes eles põem suas vidas em linha, porque eles acreditam que a sua opinião e influência fazem a diferença. Eles focam suas fotos em nossos melhores instintos, generosidade, um senso de certo e errado, a habilidade e a vontade de se identificar com os outros, a recusa de aceitar o inaceitável.” E com sua fala eu termino deixando exatamente essa questão de que a fotografia jamais mudou o mundo, mas quando somos confrontados por uma imagem poderosa, temos duas escolhas: virar o rosto ou focar na imagem.Elas deixarão o seu impacto, elas nos empurrão a questionar o núcleo de nossas crenças e de nossas responsabilidades e cabe unicamente a nós a ação.

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Texto por Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com