O olhar voltado às minorias de Nair Benedito: a experiência visual enriquecedora da questão indígena.

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18/08/2015

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A representação das minorias sempre esteve presente na produção fotográfica documental brasileira, numa tentativa de mover o olhar comum para aquilo que não recebe atenção da mídia em geral. Dentre essas minorias, destacamos a documentação dos indígenas, numa tentativa de trazer olhares mais complexos e humanistas para a fotografia, de modo a fugir dos clichês midiáticos.

Dentre esses fotógrafos, podemos citar Nair Benedicto, fotógrafa ainda atuante no ramo da fotografia documental e jornalística. Nascida em São Paulo em 1940, Nair se consolidou como fotógrafa nos anos 1970 como tantos outros e chegou a ser presa pelo regime militar. Seus trabalhos desde essa época contemplam questões sociais esquecidas pela grande mídia, como o movimento sindical, os direitos da mulher, a infância, a reforma agrária e a questão indígena.

 

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Índios Kayapós, aldeia Aukre, PA/1992 Crédito: Nair Benedicto/N Imagens

 

Sua produção voltada para a questão indígena é bastante competente, pois percebemos uma aproximação entre as lentes e o assunto. Benedicto entra dentro das ocas, observa os rituais cotidianos, a função laborial de cada indivíduo, o contato deles com a natureza, com os animais e entre si. Essa capacidade de chegar perto nos deixa claro a intenção da fotógrafa em fugir dos estereótipos imagéticos e mostrar a riqueza humana. Benedicto elabora um olhar humanista valorizando a posição do Outro. A beleza da simplicidade indígena acaba enriquecendo a experiência visual e, portanto, carrega um potencial transformador.

Benedicto fotografou diversas tribos, entre elas os Arara, os Kaxinawá e os Tembé, dedicando a cada uma delas um interesse diferente: o pouco tempo de contato com os brancos; a produção de materiais desenvolvidos pelos próprios indígenas; a demarcação de terras e os acordos com a FUNAI; etc. A vivência dentro de diversas tribos a fez, inclusive, sentir mudanças estruturais quando algum projeto do governo interferia na vida dos indígenas.

 

NAIR_KAYAPO_09 India Kaiapó Pará Crédito Nair Benedicto/N Imagens

 

Para Benedicto, documentar os indígenas é se envolver com algo que é natural, que possui uma verdadeira identidade. Dessa forma, ela consegue observar a diversidade dos indígenas e a variedade dos modos de vida em diferentes tribos. Benedicto retrata em suas fotografias a luta pela preservação dos costumes, pela dignidade e, principalmente, pela vida. “Acredito no poder transformador da fotografia. Por meio dela, procuro chamar a atenção para questões que considero relevantes à sociedade”, afirma ela em entrevista à Revista Trip.

 

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Texto por Anna Carvalho

Professora de Audiovisual e Doutoranda em Artes Visuais.

annaleticia@gmail.com