O Efêmero – a vida útil da fotografia na era pós-digital

Categoria: Pensamento e teoria.

24/02/2016

Esse artigo é uma continuação ou uma evolução do artigo sobre a repetibilidade, caso ainda não tenha lido, meu caro leitor, talvez esta seja uma boa oportunidade. No texto anterior falavamos sobre a repetibilidade na linguagem fotográfica e como a repetição nos leva ao tédio. Porém dessa vez aprofundaremo-nos na quantidade excessiva dessas imagens e sua relação com o tempo. Afinal, vocês poderiam me dizer qual é a vida útil de uma fotografia na era pos-digital?

A repetibilidade na era pós-digital é justamente uma das consequências provinda desse excesso de imagens que produzimos diariamente. Ao produzirmos um número surreal de imagens, das quais inviavelmente não conseguimos nem consumir, criamos uma relação imagem- tempo acelerada, assim como criamos também uma aura. Antigamente a aura fotográfica estava relacionada ao acesso limitado provindo por uma única cópia ou pelo seu original – o negativo. Com o advento do digital, a fotografia assume de vez sua reprodutibilidade técnica e visa atingir um número cada vez maior de espectadores, atualmente não apenas a visibilidade, mas uma maior visibilidade no menor espaço de tempo possível. Chegando ao ponto de buscar uma  nova tentativa de resgate dessa aura perdida na reprodutibilidade, através do efêmero. O Snapchat  (plataforma de interação social, onde as imagens ficam disponíveis por um tempo limitado) exemplifica claramente essa busca pela aura através do tempo, a disponibilidade temporária agregada à esta imagem um significado para consumo, significado este que não esta relacionado com a mensagem a ser transmitida, apenas um consumo por existir essa  possibilidade temporária de consumo. Já que em meio à um número crescente de imagens produzidas, a qualidade da transmissão de informação já não é suficiente, precisamos de outros valores além do informativo ou simplesmente estético, precisamos de algo para capturar a nossa atenção para essas imagens superflúas, que por si só não cumprem mais tão eficientemente com sua função de interação social.

A fotografia passa de meio à pretexto para nossa existência virtual. Mesmo dentro de todas as possibilidades abertas à linguagem fotográfica através das novas mídias, emerge-se  uma necessidade de repensar a fotografia além do espectro que estamos familiarizados. O acesso facilitado tornando qualquer indivíduo como produtor de imagens, faz com que a imagem que antes era apenas ícones, símbolos e índices, torne-se algo a mais, mesmo que esse “a mais” seja raso de significado, informação ou estética, a fotografia começa a ganhar uma “função” humana, ela torna-se nossa memória externa.

A efemeridade na fotografia apenas demonstra a nossa própria distorção em relação à imagem-tempo, Por outro lado, liberta a criatividade do peso da eternidade, dá possibilidades ao inacabado, mas será esta a salvação da repetibilidade ou será apenas mais um meio para  mendigarmos por um pouco mais de contato humano no mundo irreal que criamos? Pensemos.

 

 

Adeus Fotografia foram dois vídeos produzidos por Guilherme Vieira (http://cargocollective.com/guilhermevieira)  de maneira livre explorando o efeito de uma substância solvente sobre uma fotografia impressa. O resultado é a fotografia que ainda hoje representa o registro fiel do momento se diluindo em meio a essa solução onde a relação com o efêmero se torna real.

 

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Texto por Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com