O diálogo nas imagens de Ayrson Heráclito

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30/07/2015

imagem 1 Ayrson Heraclito

 

A problemática da escravidão que envolve diretamente Brasil e África já serviu de tema para diversas obras de arte ao longo da história, e volta à tona no trabalho de Ayrson Heráclito, brasileiro finalista do prêmio Novo Banco Photo 2015 em Portugal. O artista plástico baiano revisita e atualiza o diálogo entre os dois continentes a partir de suas relações com o tráfico de escravos. O interessante no trabalho é que a noção de diálogo aparece nas próprias fotografias expostas em dípticos, nos vídeos que mostram um mesmo ritual realizado em dois locais diferentes e também na montagem da exposição: Brasil e África estão em paredes opostas, em uma das salas do Museu Coleção Berardo em Lisboa.

Dois vídeos projetados quase simultaneamente apresentam performances semelhantes em grandes telas que tomam conta da sala. Se trata de dois ‘sacudimentos’, espécie de exorcismo de espíritos para o povo de santo da Bahia. No Brasil o local escolhido para o trabalho foi a Casa da Torre, edifício em ruínas que pertenceu a uma família escravocrata na Bahia. Ali três homens usam ramos de folhas para bater nas antigas paredes do local, o som que embala a exposição é dos ruídos destes sacudimentos.

 

imagem 2 Ayrson Heraclito

 

imagem 3 Ayrson Heraclito

 

Do outro lado do Atlântico a mesma performance foi filmada na Maison des Enclaves na ilha de Goreé, na costa do Senegal, um dos maiores centros de comércio de escravos do continente africano. Da mesma forma três homens percorrem cada cômodo e cada parede batendo com ramos as janelas e batentes de portas, ao final as plantas são trituradas com as mãos e jogados no mar.

O ritual parece querer limpar as impurezas históricas daqueles locais, edifícios que testemunham a escravidão que deixou marcas profundas nas duas populações, ou ainda espantar os espíritos que ali ainda rondam mesmo depois de séculos inabitados. O diálogo entre as imagens destes rituais é marcado pelo sincronismo das ações no vídeo e nas tomadas quase semelhantes, começam com um close em árvores típicas dos dois continentes e terminam com o descarte das plantas.

 

imagem 4 Ayrson Heraclito

 

Ao lado de cada projeção há um díptico impresso em grande formato, são imagens que estão no vídeo e que ganham uma outra dramaticidade ao figurarem em um novo suporte. A vizinhança destas imagens no espaço expositivo confunde o espectador e não há como distinguir quem veio antes, se as fotografias ou o vídeo. O diálogo no trabalho de Ayrson aproxima estas duas margens (Brasil e África) que compartilham história e cultura, e extrapola a temática da escravidão ao propor como forma visual de sua obra a interlocução entre mídias e suportes.

 

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Guilherme Tosetto – Vive em Lisboa onde cursa Doutorado em Belas-Artes. Mestre em Multimeios e Especialista em Fotografia, desenvolve pesquisa na área de fotografia, arte e memória.

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