O abismo celeste de Alexander Binder

Categoria: Autores.

26/04/2016

Alexander Binder, nascido em 1976 na região da Floresta Negra (Alemanha), é um fotógrafo autodidata que procura criar ambientes míticos e etéreos através da utilização lentes antigas de vidro e plástico, prismas e outros acessórios óticos.

Uma questão recorrente em seu trabalho é a ligação com o cenário onde cresceu, a Floresta Negra na  região sudoeste da Alemanha, vivendo no mesmo ambiente onde surgiu grande parte das tradições orais que deram origem às fábulas registradas pelos Irmãos Grimm. É uma região repleta de lendas antigas que ainda hoje fazem parte da cultura dos habitantes. Isto reflete na pesquisa de Binder através da maneira como ele enxerga o ambiente silvestre, o qual não é apresentados como cenário, mas como personagem dotado de força e intenção.

Em sua última série, Das Innere (2013), Binder nos conduz a seu próprio mundo dualista interior. São imagens repletas de alegorias e referências literárias-mitológicas que utilizam a força da natureza como ferramenta narrativa. O artista buscou registrar cenários vulcânicos, costeiros e tempestuosos, nos quais é possível enxergar o grande atrito entre os elementos do fogo e da água nas cenas.

 

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Imagem de Sulphur a esquerda e de Solar a direita.

 

O nome da série tem um duplo significado no alemão: pode ser o interior de algo, como uma casa ou um vaso, e ao mesmo tempo, pode fazer referência ao que é interno de um ser humano. Portanto, aquilo que não faz parte do mundo externo, e que na série de Binder,  reforça sua característica abstrata.

Como já mencionado, Binder gosta de procurar o mito em suas séries, em especial na que estou apresentando aqui. Nela, as fotografias foram realizadas num período de três anos em viagens às Ilhas Eólias, Sicília e ao sul da Itália. Locais esses que reforçam o caráter mítico do artista, uma vez que na mitologia grega, as Ilhas Eólias foram governadas por Éolo (Senhor dos Ventos) e na estória da Odisseia, de Homero, durante o regresso de Odisseu a Ítaca, o rei de Eólia o ajuda dando como presente um saco de couro que continha o vento do Oeste.

Outra referência que une os trabalhos do artista é a Divina Comédia, de Dante Alighieri.  No poema, o personagem do escritor é guiado pelo espírito de Virgílio (poeta da Antiguidade) em uma jornada de purificação espiritual, na qual percorre os reinos do Inferno, Purgatório e finalmente chegando ao Paraíso. Em Das Innere podemos perceber esta relação na forma como as imagens em são construídas, ambientadas e agrupadas: um grupo é chamado de Sulphur (Enxofre), ela segue uma linha mais obscura e caótica, com imagens em preto e branco referenciam os reinos do Inferno ou Purgatório; o outro, nomeado de Solar, trás imagens de caráter mais idílicas servindo como tradução Paraíso.

 

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Imagem de Sulphur à esquerda e de Solar à direita.

 

Em Sulphur vemos o poder de destruição contido no interior da terra sendo liberado de forma explosiva. São imagens mais agressivas, que demonstram força e movimento. Enquanto em Solar as imagens fazem uma alusão ao nosso interior e nossa alma. Com formas mais fluidas e harmônicas, relacionadas ao onírico.

 

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Imagem de Sulphur à esquerda e de Solar à direita.

 

O grande elo entre os dois grupos é o movimento dado por cada imagem, que tenta se aproximar de algo mais etéreo a respeito da vida. A junção dos dois grupos como uma única série reforça a necessidade do artista em dissolver as fronteiras entre seu corpo e o ambiente afim de se sentir conectado com o universo.

 

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Imagem de Sulphur à esquerda e de Solar à direita.

SITE: www.alexanderbinder.de

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.