Novos modos de ver a paisagem

Categoria: Pensamento e teoria.

19/02/2016

Nesse meu primeiro texto de 2016, gostaria de trazer para a discussão a questão da tradição que permeia a arte, e a fotografia mais especificamente, para pensarmos de que maneira os artistas contemporâneos podem olhar para essas tradições, redescobri-las e reiventá-las, trazendo uma reflexão sobre esses padrões.

Com resultados diferentes, ambos os trabalhos que irei mostrar aqui se alimentam de duas tradições muito fortes: a colagem e a representação da paisagem. As duas existem, com suas peculiaridades, em diversas áreas de atuação artística, tendo um espaço definido na fotografia.

A primeira, a colagem, ganha força e forma definida nas vanguardas históricas, e na fotografia ganhou o nome de fotomontagem, se desenvolvendo principalmente entre os dadaístas como Man Ray, John Heartfield, Grete Stern e outros. Mas, passado esse momento histórico definido, ela se diluiu e perdeu força. Geralmente, vemos ela de duas maneiras, como uma reprodução das vanguardas ou diluída como recurso técnico.

 

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(da esquerda para direita) Kurt Schwitters, Das Undbild, 1919. Grete Stern, Dream nº 35, 1949.

 

A segunda, a tradição da paisagem, quando aparece na fotografia, já havia há muito bebido da tradição da pintura, mantendo muitos aspectos formalistas. Desta tradição já bebemos tanto que fotógrafos e não fotógrafos seguem seus parâmetros diariamente de maneira invisível.

 

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(de cima para baixo) Frans Post, Brazilian landscape with anteater, 1649 . Marc Ferrez, Entrada da baía de Guanabara, Niterói, RJ, c. 1885.

 

J.frede, na série The Ficiton Landscpaes, faz uma colagem não agressiva, praticamente uma justaposição de paisagens, com as quais cria novos locais a partir de fotografias diversas, tirando proveito da tradição da fotografia de paisagem, como o ponto de vista  estático e distante, uma perspectiva ampla, orientação horizontal, a existência de planos bem definidos que se sequenciam dando uma noção de natureza vasta e exuberante, entre outros e que permitem ao artista aproximar locais distantes através de suas semelhança formal.

 

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 j.frede, The Fiction Landscape nº 19, 2012.

 

Através dessas fotografias compradas em feiras de antiguidade, j.frede cria novos espaços em uma espécie de panorâmica, colocando lado a lado imagens de locais que não só eram geograficamente distantes, como também foram retratados em tempos diferentes. A marcação do tempo fica clara com a diferença na coloração das imagens, fotografias preto e branco costumam datar de um passado mais distante, enquanto coloridas esverdeadas ou alaranjadas são marcas das décadas de 60 a 80, ou a fotografia digital com cores mais equilibradas.

Ao aproximar esses tempos e espaços, usando a seu favor as características que reconhecemos com facilidade, nos dão uma sensação de aproximação com essas paisagens. Somos capazes de reconhecer nelas fotografias que tiramos em algum momento, lugares que podemos ter conhecido (ou outros muito semelhantes com eles), momentos vividos que também foram retratados de maneira muito parecida.

 

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j.frede, The Fiction Landscape nº17 e nº12 (de cima para baixo), 2012.

Liz Orton, na série Deltiologies, vai buscar nas paisagens de cartões postais do início do século XX o material para suas colagens. Após categorizar essa imagens em lagos, vilarejos, montanhas com pico nevado, e outras, a artista as fatiou e reorganizou essas partes em um formato bastante inusitado quando pensamos em paisagem, o formato circular.

Contrariando nossa ordem de leitura natural, essas imagens fazem nosso olhar varrer as imagens incessantemente e assim reconhecer nelas suas semelhanças. São fotografias feitas para mostrar o local, torna-lo atrativo para quem visse, mostrando um panorama das belezas naturais daquele espaço, com vistas muito abertas, espaços bem definidos dentro do quadro, e tantos outros exemplos já citados acima que fazem parte de tradição da fotografia de paisagem. Ainda se soma à isso a técnica empregada para colorização de imagens preto e branco, chamada Photochrome que era composta através de uma série de placas litográficas que costumava trabalhar com uma cartela de cores bastante definida.

 

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Liz Orton, Deltiologies nº 3, 2013.

 

A artista utiliza a relação das imagens escolhidas com a forma como as quais são dispostas como uma ferramenta de partida para discutir como a cultura da paisagem é moldada por um modo de ver bastante específico e com o qual a narrativa visual da natureza tem sido contada. As paisagens naturais não existem no mundo da maneira com a qual as vemos nas fotografias, e não é também obrigação da fotografia reproduzi-lá de maneira idêntica. Mas, será que essa estrutura definida é realmente a melhor maneira de representar a paisagem?

 

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Liz Orton, Deltiologies nº 6 e nº 2 (da esquerda para a direita), 2013.

 

Ambos os artistas colocam em questão e apresentam novos pontos de vista sobre padrões já bastante difundidos da representação. Considero muito importante a ação de rever os parâmetros em vigor com alguma constância, porém isso não significa que essas tradições devam ser hostilizadas. Bem pelo contrário, toda vez que olhamos para trás, devemos honrar o que passou para podermos refletir e seguir em frente. Dessa maneira, uma releitura pode ser sempre uma homenagem a tradição e um novo olhar sobre a mesma.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com