Nino Cais e a escultura do tempo

Categoria: Autores.

14/04/2015

Nino Cais, Sem Título, Série Os Viajantes / 120x80cm / 2012

Nino Cais, Sem Título, Série Os Viajantes / 120x80cm / 2012

 

Gosto de pensar que uma das funções do artista na contemporaneidade seja propor questões acerca do que já é status quo na arte. Pensando no que consideramos definido e assunto encerrado na fotografia clássica, trago nessa primeira edição da coluna uma reflexão e algumas questões suscitadas por Nino Cais.

Artista paulistano, ele não é propriamente um fotógrafo, mas tem a imagem fotográfica como matéria-prima para grande parte de seus trabalhos. Seu uso é versátil e simbólico e traz questões sobre o que é a fotografia hoje. Para ele, acima de tudo, a fotografia é um objeto tridimensional.

Se num primeiro olhar nos parece bastante óbvia e ingênua essa definição, suas questões transcorrem em um ambiente bem específico das artes: a escultura. Para ele, sua fotografia é escultura.

Nino Cais, Sem Título, Série Guardas / 80x65cm / 2013.

Nino Cais, Sem Título, Série Guardas / 80x65cm / 2013.

 

Sua relação se dá na reflexão sobre o congelamento que as duas propõe. Na escultura clássica o material é moldado até encontrar sua forma final, na qual irá se manter ao infinito. O mesmo acontece com as imagens que Nino Cais propõe, como em seus retratos: ele se mescla com objetos em um ensaio para ser congelado.

- Eu quero uma espécie de disparo para que registre um acontecimento e que esse já nasce para ser congelado. As atuações que eu faço existem para serem congeladas. Ela não é uma ação que foi interrompida e foi congelada pela fotografia.
Eu chamo a câmera de Medusa e quem é a Medusa? É aquele personagem que vai enfeitiçar o outro e tornar ele pedra. Então, eu olho para o lugar que já me ausenta do movimento. No meu caso, acho que me atraí pela maquina fotográfica exatamente por ela dar esse start em que ela vai falar da ausência da ação.

Nino Cais, Sem Título / 65x100cm / 2013

Nino Cais, Sem Título / 65x100cm / 2013

 

As imagens que Nino Cais cria nascem para aquele momento, são desprovidas de passado e futuro, podem ser vistas como um presente congelado, um tempo fantástico que existe para ser imagem.

Seguindo esse raciocínio, ele propõe mais um conceito para sua fotografia: a de “lugar do silêncio”.

- Eu criei uma relação minha que eu chamo de lugar do silêncio. Eu falo que a escultura é o lugar do silêncio. Então quando eu registro uma situação que eu seguro um objeto estou dando para esse lugar o lugar do silêncio. Quando eu obtenho um objeto e me registro segurando ele, eu o contemplo e, nesse start, ele se congela pelo disparo. Assim, eu dou para ele o lugar do silêncio.
Comecei a pensar fotografia como o lugar do silêncio por causa de um trabalho antigo meu em que dava nós em tecidos… foi por aí que eu despertei essa ideia de lugar do silêncio e tracei com a ideia da escultura. Se você da um nó num objeto, quanto mais você vai apertando, menos ação você vai ter. Até que ele chega em um limite em que se congela. E eu falo que esse é o lugar do silencio. A escultura para mim era esse estado. Se você pensar o Michelangelo trabalhando em cima de uma pedra bruta de mármore, ele vai polindo até encontrar a forma. Quando ele encontra essa forma, o que acontece? Ela se estanca, ela se congela. E o que você vê? Você não vê a ação dele, você pode até pensa sobre a ação, mas o que você vê é um objeto fixo, um objeto estancado, que não tem mais para onde ir.

Em seu processo e sua reflexão, Nino Cais propõe pensarmos a fotografia como processo escultórico, em que estancamos o fazer em um momento e apenas desse temos a presença. Para ele, a fotografia é simultaneamente um tempo congelado e ausente. Dessa maneira, nos instiga a pensar algo tão definido como o instante fotográfico em um espaço mais amplo, em que a temporalidade se transforma em atemporalidade.

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* A biografia de Nino Cais e mais trabalhos podem ser vistos aqui:

http://www.centralgaleriadearte.com/a_artista/home.php?artista=cais

Imagens gentilmente cedidas pela Central Galeria.

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com