New Portraits, de Richard Prince

Categoria: Exposição.

19/08/2015

A exposição New Portraits, de Richard Prince, inaugurada na Galeria Gagosian de Londres no dia 12 de junho, desencadeou uma enorme onda de controvérsias sobre as praticas de Prince ao apropriar-se de fotografias alheias. O contraditório é que esse tipo de apropriação, que é o ponto central na obra de Prince, não é uma prática nova, basta pensar em artistas como Serrie Levine, ou até mesmo Duchamp para recordar que Prince não está fazendo nada que ele mesmo ou, outros artistas, já não tenham feito anteriormente.

Em 1989 Prince tirou a foto de uma propaganda da marca de cigarros Marlboro para sua obra Untitled (Cowboy) e a reutilizou como se fosse sua. Entregou uma imagem final que é uma versão reapropriada tanto da imagem publicitaria, como do ideal americano que representava: o homem masculino e forte que cavalga erguido, o emblema do que os Estados Unidos imaginavam ser naquele momento. Richard Prince assume a peça publicitaria como uma imagem de domínio publico e, por esse motivo, suscetível de ser reapropriada. Nada muito distante do que já havia feito Andy Warhol com as sopas Campbell`s.

 

foto 01

 

Segundo Walter Benjamin, idealmente devemos “deixar de ver a fotografia como arte para ver a arte como fotografia”, e talvez essa seja a chave para entender a maneira como a fotografia existe dentro da obra de Richard Prince. Um material a mais para construir imagens novas e, no caso dos seus ‘New Portraits’, objetos de desejo para quem as consume, pessoas que transitam em redes como Instagram qualificando fotos e deixando comentários. Essas imagens, apesar das reclamações e críticas gerais, são essencialmente imagens de domínio público. E, da mesma forma que o vaqueiro da propaganda da Marlboro, são emblemas de uma imagem, no último caso, fabricada através das redes sociais, personagens que só existem nesse reino e que confiam à fotografia o papel mais importante na construção da sua imagem e o que esta representa. Agora, a imagem do vaqueiro foi substituída pela imagem de garotas bonitas posando sedutoras e talvez esse seja o novo ideal americano.

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Na exposição as imagens de Prince se apresentam de maneira particular, estão impressas em marcos e parece ser que isso cumpre com um objetivo fundamental: legitimar-las dentro do contexto da galeria. Além do que, sendo capturas de imagens consideravelmente pequenas, adquirem um tom borrado, que alimenta ainda mais a sensação de hibrido entre fotografia e pintura, ainda que na verdade não sejam nenhuma nem outra coisa. Para incluir uma capa mais de significado, Prince decide manter os comentários feitos na publicação e também inclui comentários próprios que atuam como sua assinatura na imagem, as vezes sedutor outras vezes inocente.

Antes de começar com o projeto New Portraits, Prince, com a intenção de fazer retratos de pessoas próximas a ele, pedia aos retratados que escolhessem uma fotografia que lhes interessava, algum retrato feito por outra pessoa, dava a eles todo o poder de como seriam representados e, mesmo não continuando com o trabalho, a maneira como atua em seus ‘New Portraits’  não está longe dessa ideia inicial. Isso porque, em sua essência, os personagens dessas fotos já deram sua aprovação. Entendemos que se a foto foi publicada é porque foi eleita como digna para ter presença em uma rede social e, ao subir uma fotografia ao espaço virtual de maneira publica, se esta considerando a possibilidade de que uma infinidade de pessoas tenham acesso a ela, projetem suas fantasias, inclusive é absolutamente possível que muitas pessoas se apropriem dessa foto como um arquivo próprio…as possibilidades são tão amplas como o espectro de pessoas que tem acesso a essas imagens.

Richard Prince põe em evidencia todas essas possibilidades não somente ao apresentar esses retratos, afinal, a parte desse intercambio que mais peso tem e que foi o centro da controvérsia é o fato de que as imagens estão a venda a altos preços, possíveis de tornarem propriedade de outra pessoa e assim convertendo-se em objeto de desejo absoluto. A representação de uma pessoa, que existe em uma rede em que o êxito de uma imagem é medido através de likes, que logo ganha status ao ser apresentada em uma galeria e que, ao mesmo tempo, é ultrajada por ser produto de uma apropriação sem a aprovação do proprietário. Tudo isso para terminar sendo propriedade de algum colecionista, alguém o mais distante possível da pessoa que criou a imagem inicial.

A essência dessas imagens pode ser encontrada na declaração contida no título da exposição. São os ‘novos retratos’, a maneira de fazer retratos, é esse o tipo de imagem que transita entre o publico e o privado. Existem em um estado que recorda a heterotopia de Michel Foucault: estão suspensas entre o físico da pessoa na fotografia e o ideal da construção de um personagem. Demonstram de maneira exemplar o que é a fotografia na era das redes sociais e dos likes como moeda do mundo virtual.

Por isso parece contraditório irritar-se com Richard Prince por copiar uma fotografia quando essa existe na rede de maneira publica, destinada a flutuar pelo cyber espaço para sempre.

 

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Texto por Sara Mejia, do Coletivo TRENZA

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.