Morte e sobrevivência em acervos fotográficos

Categoria: Pensamento e teoria.

24/09/2015

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Ao encontrar 4 fotografias, duas da cantora portuguesa Amália Rodrigues e duas do cineasta brasileiro Glauber Rocha, nos acervos do Museu e Arte Moderna de São Paulo e do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, tive um encontro fúnebre com estas figuras, principalmente porque estes retratados já estão mortos. De certo modo a própria ideia de morte está vinculada a história da fotografia desde seus primórdios. Seja no ato da captura, da circulação ou do surgimento de novas técnicas, a morte foi utilizada como metáfora e analogia pelos pensadores da fotografia.

Os primeiros retratos eram considerados por muitos como um ato de capturar a aura dos fotografados e assim eternizá-los, fazendo-os vencer a morte. Quando a técnica ainda não permitia fazer uma fotografia em frações de segundos, os retratados eram obrigados a ficarem estáticos por um período consideravelmente grande, o que os fazia parecerem mortos tamanha rigidez exigida em busca da nitidez da imagem.

Outra ação recorrente ligada a morte no começo da atividade fotográfica era o registro de defuntos. ‘Fotografar pessoas no seu leito de morte era um dos vectores da atividade profissional dos fotógrafos do século XIX’ (Medeiros, 2010:18).

 

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A partir do ponto de vista do retratado, Barthes comenta em seu clássico livro Câmara Clara que ao ser retratado sentia que a fotografia criava o seu próprio corpo ou o mortificava a seu bel-prazer (Barthes, 1980:25).

Ainda nos primórdios da fotografia, a técnica foi declarada por alguns como culpada pela possível morte da pintura, que até então era a forma e o suporte para a expressão da visualidade.

Com o avanço da técnica deparamos com outra declaração de morte, desta vez a fotografia digital era quem sepultaria a fotografia analógica, o que ainda não vimos acontecer por completo, pelo contrário o panorama atual apresenta todas estas linguagens em coexistência, cada uma com sua especificidade e circulação próprias.

 

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Apesar de tantas referências a morte, (e por vezes estas imagens serem consideradas arquivos mortos) considero estas 4 fotografias como como imagens sobreviventes, a espera de serem reanimadas e trazidas novamente a vida.

Didi-Huberman apresenta em seu texto ‘Sobrevivência dos vagalumes’ uma interpretação interessante sobre o caráter intermitente da imagem, já anteriormente defendido por Walter Benjamin e que ganha uma nova reflexão a partir do livro ‘La disparition des lucioles‘ de Denis Roche. Em um trecho do texto o autor relata uma experiência no campo com vagalumes, que aparecem e desaparecem em um intervalo indefinido de tempo.

A partir daí Didi-Huberman questiona: “como os vagalumes desapareceram ou redesapareceram? É somente aos nossos olhos que eles ‘desaparecem pura e simplesmente’. Que eles desaparecem apenas na medida em que o espectador renuncia a seguí-los. Eles desaparecem de sua vista porque o espectador fica no seu lugar que não é mais o melhor lugar para vê-los” (Didi-Huberman, 2011:47)

 

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Esta reflexão serve também para pensarmos a sobrevivência destas fotografias que estão nos acervos dos museus. Se por um lado as imagens parecem estar mortas ou sepultadas, elas continuam existindo.

Assim como os vagalumes estão escondidos em seu habitat natural, as fotografias também estão abrigadas (neste caso dentro de museus). Estão fora do nosso alcance porque não temos contato com elas, seja por falta de interesse ou porque tentamos encontrá-las em lugares que não são os melhores para enxergá-las, ou ainda porque nem sabemos de suas existências, mas elas ainda brilham. São testemunhas de uma cultura visual que se torna cada dia mais complexa e inundada por incontáveis imagens que circulam em rede.

 

Bibliografia

BARTHES, Roland. A câmara clara. Edições 70, Lisboa, 1980.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vagalumes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

MEDEIROS, Margarida. Fotografia e verdade. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

 

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Guilherme Tosetto – Vive em Lisboa onde cursa Doutorado em Belas-Artes. Mestre em Multimeios e Especialista em Fotografia, desenvolve pesquisa na área de fotografia, arte e memória.

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