MoMA, desde a crise pós-Björk até ‘Ocean of Images: New Photography 2015’

Categoria: Exposição.

28/10/2015

Se poderia dizer que a encruzilhada começou com a exposição dedicada a Björk, inaugurada pelo MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, no dia 08 de Março desse ano, um grande fiasco que um crítico descreveu como um parque de diversões. Dias antes que acontecesse o desastre já se podia intuir um ar de inconformismo diante das novas práticas curatoriais do museu, com exposições que muitos entendiam como jogadas de mídia, como a dedicada a Tim Burton, que recebeu melhores declarações da crítica, mas que marcava um padrão que muitos desdenhavam.

Agora é possível olhar a crise pós-Björk e fazer uma relação com as tendências que agora infestam os museus de maior peso no mundo. Basta analisar a lista das dez exposições mais visitadas do Met, Museu Metropolitano de Nova York, o mais chamativo é que duas dessas são exposições do Costume Institute, dedicadas a manifestações artísticas na moda. Em nono lugar temos o mítico desenhador Alexander McQueen em 2011 com mais de 660 mil visitantes e em quinto lugar está ‘China: Through The Looking Glass’, exibição aclamada pela crítica que terminou agora em Setembro com mais de 800 mil visitantes. Na Inglaterra o Victoria and Albert Museum abriga atualmente ‘Savage Beauty’, sobre o já mencionado Alexander McQueen, é a exposição mais visitada na historia desse museu, com mais de 430 mil visitantes.  O que podemos traçar desde essas exposições até a de Björk é que, o que muitos criticaram nessa última foi a ênfases nas roupas dessa artista, que convertiam as salas em um pseudo Costume Institute falido.

Os desafios assumidos pelo MoMA tem a ver com a necessidade de retomar seu status, mais além das excelentes e bem recebidas exposições montadas no museu esse ano. O que se espera de uma instituição como essa é algo mais que montar grandiosas exibições, espera-se algo que transcenda a ideia de apresentar obras desconhecidas de artistas como Matisse em sua exposição ‘Matisse, The Cut-Outs’. Talvez essa responsabilidade recaia em outros museus, afinal, o que se espera do MoMA é grandeza, não na magnitude ou popularidade de suas salas, mas sim na capacidade de gerar novas ideias. Se espera que continue sendo um dos museus de maior influencia na maneira de pensar a arte contemporânea e é nesse sentido que sempre pensaram a fotografia, sendo esse o primeiro museu em abrir um departamento exclusivo para essa arte sob a direção do legendário Beaumont Newhall.

O que acontece agora é que se aproxima a abertura de New Photography, uma exposição que em sua edição número trinta propõe mudanças na maneira como foi pensada em seus anos anteriores, onde o número de fotógrafos incluídos dificilmente superava 10 e que nesse ano chega a ter 19 artistas de 14 países. Cifra que funciona muito bem com o título da exposição ‘Ocean of Images’ que pretende explorar a realidade baseada em imagens na era pós-internet, entendendo-se, desde seu manifesto, o espaço da internet como um vórtex de imagens. Contendo tanto obras anteriores dos artistas incluídos como obras pensadas particularmente para esse evento. O que entendemos com essa nova visão da nova fotografia é algo caótico, que existe baseado  em uma multiplicidade de meios e finalidades da imagem. A onipresença da fotografia parece ser a nova premissa para entender como nos relacionamos com ela, quase sem estar conscientes, como se a fotografia agora formasse parte da linguagem básica humano-digital.

Os artistas são tão distintos como as ideias que invoca esse ‘vórtex de imagens’. Desde fotógrafos que exploram e levam ao limite as possibilidades do meio, desde práticas analógicas, como é o caso de Basim Magdy, fotografo egípcio.

Basim Mgdy, egipto, A 240 SECOND ANALYSIS OF FAILURE AND HOPEFULLNESS (WITH COKE, VINEGAR AND OTHER TEAR GAS REMEDIES)

A 240 SECOND ANALYSIS OF FAILURE AND HOPEFULLNESS (WITH COKE, VINEGAR AND OTHER GAS REMEDIES), 2012, Basim Magdy.

Também com presença de artistas como Katja Novitskova, da Estônia, que não pensa no meio fotográfico como algo estático, sendo esse somente um possível ingrediente numa equação críptica que não chega a um único resultado, ao contrário, parece ser uma resposta a um algoritmo desconhecido que somente pode existir dentro do reino da internet.

Katja Novitskova, estonia, Pattern of activation, 2014

PATTERN OF ACTIVATION, 2014, Katia Novitskova

O inquietante de ‘Ocean of Images: New Photography 2015’ é que ler em voz alta os nomes dos fotógrafos parece um exercício aleatório, porque al terminar de ler o nome de Novitskova e o de Magdy, aparece a lituana Indrė Šerpytytė, cujo o premiado trabalho ‘A State of Silence’ fala em um idioma diferente. Formalmente talvez seja o mais fotográfico dentro da lista, respondendo a uma busca fortemente vinculada ao meio fotográfico do pós-guerra, um desejo de reclamar a memória, de apropriar-se do que foi arrebatado pelo conflito, no caso particular de Šerpytytė, sendo a morte de seu pai o catalizador para explorar a historia de seu país.

Indrė Šerpytytė, a state of silence

Imagem da serie A STATE OF SILENCE, 2006, Indrė Šerpytytė

Falta um pouco menos de 1 mês para a inauguração da exposição em 7 de Novembro e esse é o momento para começar a entrar em contato com as ideias que propõe a equipe curatorial liderado pelo curador chefe, Quentin Bajac, em companhia de Roxana Marcoci, curadora sênior y Lucy Gallun, curadora assistente, todos do departamento de fotografia. Devemos considerar que o efeito de uma exposição com tantos vértices será trazer boas novidades ao MoMA e  para aqueles que querem seguir recorrendo a essa instituição como algo mais que um museu. Agora que muitos podemos ver uma exposição via internet, é emocionante pensar que uma das exibições mais interessantes desse momento seja dedicada a nova fotografia, tomando isso de ‘nova’ como um emblema, explorando sua onipresença e incluindo tantos pontos de vista como seja possível, uma exposição que seguramente se mutuará na sala até parecer parte posta em cena, instalação, escultura, parte de um todo, porque isso é o que acontece quando se entra no vórtex, tudo se transforma e tudo se move mas sem deixar de ser as imagens que dominam o espaço, a nova fotografia.

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Texto por Sara Mejía / traduçao Renata Alves Fortes

Coletivo TRENZA (trança em português) é uma plataforma que se oferece como aproximação ao contexto artístico. Três sujeitos independentes, transnacionais e multigeracionais se trançam para mutarem em um único formato, tão heterógeno como o meio mesmo que se nutre. Se lança ao publico para com ele também trançar e assim chegar, dialogar, questionar, rebater, penetrar, cambalear, desiquilibrar e seguir multiplicando seu raio de ação.