Jessie Tarbox Beals (1870-1942): E assim ela nos contou

Categoria: História e Fotografia.

04/08/2016

Perco a identidade do mundo em mim e existo sem garantias. Realizo o realizável mas o irrealizável eu vivo e o significado de mim e do mundo e de ti não é evidente.

(Clarice Lispector. Água Viva)

            Pioneira no fotojornalismo – final de 1880 e início de 1900 – Jessie Tarbox Beals é reconhecida como a primeira fotógrafa mulher contratada para compor a equipe de um jornal. Em 1902, depois de trabalhar como freelancer e de ter mostrado sua competência na arte da câmera escura, Beals se juntou à equipe do The Buffalo Inquirer. No mesmo período ensinou ao seu marido a arte da fotografia, o qual a acompanhou em sua carreira.

Além da qualidade das fotografias, Beals tem destaque e mérito, pois, nesse período, ela chegava a carregar em média 22kg de equipamento fotográfico – câmera, de 8 a 10 placas de vidro emulsionadas e um tripé. Infelizmente, as pequenas câmeras Kodak não eram confiáveis em condições adversas.

 

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Jessie Tarbox Beals, Crianças de rua em Nova Iorque / 19-

 

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Jessie Tarbox Beals, David R. Francis abrindo os portões da Louisiana Purchase Exposition / 30 de abril de 1904

 

Participou da St. Louis World’s Fair, tornando-se fotógrafa credenciada do New York Herald e de outros jornais. Em 1905, mudou-se para Manhattan, onde abriu seu próprio estúdio. Nele ofereceu, gratuitamente, à alta sociedade seus retratos fotográficos. Sua estratégia valeu a pena, pois em 1906 ela e outras fotógrafas foram destaque do Camera Club of Hartford, tendo um reconhecimento especial.

Suas imagens eram brilhantes. No início do século, quando as fotografias de notícias publicadas em jornais eram anônimas, ela era reconhecida e famosa por ter sempre as “imagens necessárias”, estando à frente de seu tempo; se fazendo conhecida.

 

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Jessie Tarbox Beals, Criança empurrando seu cão de estimação em um carrinho de bebê ao longo de um caminho de terra. Ela está vestindo um casaco e chapéu pele-aparados / c. 1908-1918

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Jessie Tarbox Beals, Boêmios de Greenwich Village, Nova Iorque / c. 1910-1920

 

Beals gostava da vida boêmia, enquanto seu marido era mais recluso. Em 1911, quando sua filha, Nanette Beals Brainerd, nasceu, a fotógrafa não largou sua profissão. Essa decisão fez com que mãe e filha tivessem um relacionamento conturbado.

Em 1920, Beals mudou seu foco, ao invés de fotografias do cotidiano e das ruas, volta-se aos jardins suburbanos e às propriedades luxuosas. Em 1928, na Califórnia, fotografou muitas das propriedades de Holywood, o “sonho americano”. Com a “Grande Depressão”, Beals retorna a Nova York em 1933, onde viveu e trabalhou em Greenwich Village até seu falecimento.

 

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Jessie Tarbox Beals, Sala de estar em White Pines, Nova Iorque / 19-

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Jessie Tarbox Beals / c. 1905

Independente das frustrações do passado, Nanette foi leal a sua mãe, preservando sua memória e arquivos fotográficos. No início de 1982, doou à Biblioteca Schlesinger, em Radcliffe, papéis e fotografias de Beals, onde, atualmente, estão disponíveis para estudiosos e outros interessados na história das mulheres. Segundo Jenny Gotwals, bibliotecário de Schlesinger, Beals não se especializou em nenhum tema, são fotografias de notícias, retratos, cenas de rua, interiores de casas, arquiteturas e jardins. Ela apenas seguiu em frente e fez o que precisava ser feito, e foi assim que ela foi capaz de realizar tanto em seus 71 anos de vida.

 

Referências:

Radcliffe Institute for Advanced Study – Schlesinger Library – Harvard University

http://www.radcliffe.harvard.edu/schlesinger-library

Acessado em 31/07/2016, às 19:20.

New-York Historical Society Museum & Library

http://dlib.nyu.edu/findingaids/html/nyhs/beals/

Acessado em 31/07/2016, às 19:35.

The New York Times – PHOTOGRAPHY REVIEW: A Pioneer in a Man’s World, She Was Tough Enough

http://www.nytimes.com/2000/06/23/arts/photography-review-a-pioneer-in-a-man-s-world-she-was-tough-enough.html

Acesso em 31/07/2016, às 20:10.

 

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Fabiola B. Notari é artista visual e pesquisadora. É doutoranda em Literatura e Cultura Russa no Departamento de Letras Orientais (DLO/FFLCH/USP) e mestre em Poéticas Visuais pela Faculdade Santa Marcelina (FASM/ASM). Leciona História da Fotografia e Fotomontagem no Curso Superior de Fotografia no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e coordena o Grupo de Estudos Livros de artista, livros-objetos: entre vestígios e apagamentos na Casa Contemporânea.