Jeff Wall e as criações da memória

Categoria: Autores.

18/11/2015

Outro dia me deparei com uma entrevista com Jeff Wall em que ele falava sobre sua carreira e seu processo criativo. Aparentemente, nenhuma novidade, apenas eu que nunca tinha me interessado em ler sobre ele. E então, que tive uma bela surpresa em descobrir que suas imagens tem uma ligação forte e direta com a memória, em um processo talvez um pouco reverso do que quando pensamos no tema fotografia e memória.

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Jeff Wall, A Sudden Gust of Wind (after hokusai), 1993.

 

Encurtando a história, ao vermos imagens feitas por ele, é muito evidente que aquelas cenas são montadas, tanto pela luz um tanto teatral quanto pelas poses e olhares dos personagens. Mas o que existe por trás disso é um processo não só de rememoração, como também de uma espécie de beneficiamento da realidade vista.

Jeff Wall costuma dizer que a origem de suas imagens são situações que ele viu, vivenciou e guardou na memória para fotografar depois. Nessa etapa de rememorar e fotografar, ele busca melhorar plasticamente essas situações através da encenação dirigida por ele, que se parece muito com um flashback: Wall tenta colocar em cena os momentos significantes com os elementos que marcaram na memória.

 

Jeff Wall, “I begin by not photographing”, San Francisco Museum of Modern Art, 2007.

 

Ao ler sobre isso, percebi como suas imagens são memória, mas não aquela dedução óbvia de que todo registro é memória, nem a imagem fotográfica em sí, mas sim um ser memória e ser fotografia independente de existir como fotografia realmente. Uma imagem fotográfica imaginária, um instante congelado que guarda uma história e suas sensações.

Parece uma espécie de peça que a memória nos prega. Explico melhor, primeiro caso: Já ouvi diversas vezes a mesma história de uma pessoa próxima a mim: Ele estava almoçando com a família, o filho criança pega o osso de uma bisteca, faz de conta que é uma câmera fotográfica e diz “Olha a foto!” e durante muitos anos ele não só tinha certeza de que alguém tinha fotografado aquele momento, como também procurava por aquela fotografia. Até que um dia se deu conta que essa foto nunca existiu.

No segundo caso, é a literatura que se apropria dessa situação: “Fez com que mudasse várias vezes de posição, estudando a geometria das pernas e dos braços em relação à raquete e a um elemento do fundo. (No cartão-postal ideal que ele tinha em mente devia haver a rede da quadra de tênis, mas não se podia pretender demais, e Antonino se contentou com a mesa de pingue-pongue.)

Mas ainda não se sentia em terreno seguro: será que não estava procurando fotografar lembranças ou, até, vagos ecos de lembranças que afloravam da memória? Sua recusa em viver o presente como lembrança futura, à maneira dos fotógrafos de domingo, não o estava levando a tentar uma operação igualmente irreal, ou seja, a  dar um corpo à lembrança para que esta substituísse o presente diante de seus olhos? Italo Calvino, A aventura de um fotografo (p. 59) In: Os amores difíceis, Companhia das Letras, 1992.

 

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Jeff Wall, Passerby, 1996.

 

Me parece que a memória e a fotografia, muitas vezes, ocupam o mesmo espaço na capacidade de dar vida as lembranças. A fotografia congela o tempo em estático e imutável, ora ela é toda a recordação que temos, ora funciona como alavanca da lembrança. Cabe a memória uma certa liberdade criativa, da qual se utiliza Jeff Wall, de estar constantemente reconstruindo nossas lembranças, adicionando e perdendo informações e sensações em troca de novas.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com