Imaginário corrompido

Categoria: Pensamento e teoria.

08/10/2015

The Image Fulgurator (2007/08), do alemão Julius von Bismarck, é tanto o nome da série quanto do aparato que da origem ao trabalho: o artista transformou uma câmera analógica em um projetor que funciona com a duração do disparo de um flash quando um outro flash de outra câmera é disparado, resultando em cenas alteradas que não são vistas a olho nu, apenas podem ser vistas na fotografia final.

 

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Projeto de uma das versões do aparato Image Fulgurator.

 

Os locais e eventos escolhidos são símbolos de poder que estão sendo questionados e ressignificados por von Bismarck. Disfarçado de alguém que também fotografa, ele adiciona novos símbolos e camadas de significado as imagens, como uma cruz no palanque de Barack Obama ou uma pomba sobre um retrato de Mao Tse Tung, alterando a mensagem contida nessas imagens.

 

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The Image Fulgurator em ação.

 

Dessa maneira, von Bismarck coloca em questão duas particularidades da fotografia: a veracidade da imagem que é captada e a memória que temos de algo que fotografamos. Quando alguém viu o discurso de Obama, não viu o símbolo religioso no palanque, e menos ainda se lembra desse detalhe fazer parte do evento. Ao olhar a foto, o novo elemento gera uma confusão de lembranças, afinal, se ele está na imagem, como não foi visto durante o evento? E ainda traça uma nova relação entre dois símbolos políticos, o presidente dos Estados Unidos e a Igreja Católica.

 

 

Aqui na coluna, não irei focar na visão política do artista. Me atrai a questão de percebemos quão frágil é a fotografia quanto a maioria de seus preceitos, como ela pode ser questionada e ressignificada de uma maneira muitas vezes imperceptível e de que maneira a arte contemporânea pode e faz uso de sua ambiguidades.

Assim como von Bismarck, diversos outros artistas alteram a imagem fotográfica buscando questionar sua veracidade, sendo um dos mais famosos e espanhol Joan Fontcuberta. Seus trabalhos nos enganam com muita maestria, muitas vezes passando por um registro de algo real até pelo olhar mais cauteloso.

Na série Fauna, de 1987, juntamente com Pere Formiguera, é apresentado o acervo de um zoologista alemão chamado Dr. Peter Ameisenhaufen, que teria vivido entre o final do século XIX e a metade do século XX e teria documentado uma série de animais incomuns. Esse acervo, que continha notas, desenhos, raios-X, fotografias e vídeos, foi exposto em diversos museus pelo mundo sem nenhum indicativo que era uma farsa.

 

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Imagens da série Fauna, de Joan Fontcuberta e Pere Formiguera, 1987.

 

Em ambos os trabalhos, percebemos uma preocupação em questionar nossa própria capacidade de olhar e entender o que a fotografia significa como registro. A manipulação na fotografia com o objetivo de questionar sua veracidade não é algo novo, Hippolyte Bayard já fazia isso com seu Autorretrato afogado em 1840, o que temos de novo, eu entendo, é a quantidade e a facilidade com que essas imagens circulam hoje antes de serem questionadas.

A fotografia na arte contemporânea tem ocupado um pouco esse espaço de perguntar se tudo que predispormos ser inato da fotografia de fato é e de que maneira isso pode ser usado com outros propósitos. Através da criação de uma parábola, os artistas tem transformado em linguagem o artificio de falsear a percepção. Em seu discurso Fontcuberta alerta para essa questão de uma maneira mais irônica, deixando seu trabalho de manipulação encoberto, enquanto von Bismarck desmascara o processo e se preocupou em patentear seu aparato para que não seja, por exemplo, usado por empresas como ferramenta de marketing.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com