Helen Messinger Murdoch (1862-1956): As cores dela

Categoria: História e Fotografia.

07/07/2016

Sou livre para o silêncio das formas e das cores.

(Manuel de Barros)

 

Na virada do século XX, a fotografia era predominantemente monocromática, a cor poderia ser adicionada posteriormente com pigmentos, no entanto com este processo de colorização não se conseguia obter “cores naturais” na fotografia. Durante a década de 1890, Murdoch fez suas primeiras fotografias monocromáticas com sua primeira câmera, emprestada de um de suas cinco irmãs.

Em 1907, o Autochrome Lumière foi comercializado, possibilitando assim o registro das cores em fotografias. Essa “revolução” fez com que as fotografias de Murdoch fossem reconhecidas como uma das mais belas e interessantes fotografias do início do século XX.

 

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Helen Messinger Murdoch, Brides Costume, Darjeeling / c.1914

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Helen Messinger Murdoch, Santa Barbara Pupil Weaving Rug / c.1915

 

O Autochrome foi um processo fotográfico colorido desenvolvido em 1903 e patenteado em 1907, como Autochrome Lumière. Tal processo utilizava-se, basicamente, de uma chapa de vidro sobrepostas por camadas de fécula de batata tingidas de laranja, verde e violeta (uma aproximação das 3 cores primárias: vermelho, verde e azul). A chapa com essa estranha mistura de batata era inserida na câmera fotográfica, ficando à frente da chapa com a emulsão em preto e branco. Ao fotografar determinada cena, as informações de cores eram retidas nas partículas de batata e o resto da cena era capturada normalmente em preto e branco. Após o processo de revelação, ao sobrepor ambas as chapas de vidro e iluminando-as por trás, é possível ver uma fotografia colorida.

Qualquer fotógrafo competente dessa época que já conhecia o procedimento da revelação e ampliação de fotografias P/B poderia com facilidade desenvolver o processo da placa Autochrome. Os grãos coloridas tendem a formar pontos visíveis a olho nu, criando um efeito pontilhista, o qual se tornou uma de suas maiores qualidades. O resultado era luminoso e exuberante, com um toque da paleta impressionista na ponta dos dedos do fotógrafo. O apelo romântico do Autochrome sem dúvidas foi reforçado pelo fato dele capturou um mundo que chegou a um fim abrupto com a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

 

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Helen Messinger Murdoch, Miss Muriel Cadell, London, England / 1913

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Helen Messinger Murdoch, Bishareen children, Aswan, Egypt / 1914

 

Em 1911, com sua câmera Autochrome, Murdoch partiu para o Mediterrâneo com suas irmãs e, em seguida, passou a Londres, onde se tornou um membro da Royal Photographic Society. Em 1913, com 51 anos, decidiu embarcar em uma turnê mundial, provavelmente, foi a primeira fotógrafa mulher a fazer uma viagem dessas, fotografando em ambas as placas – Autochrome e negativos em preto-e-branco. Ela anotou em seu diário a primeira fotografia desta viagem intitulada de “O mundo em suas cores verdadeiras”. Por conta de diversos problemas encontrados durante suas viagens – climáticos, de infraestrutura, comerciais, culturais, etc – Murdoch discute em seus escritos desde problemas de exposição em uma variedade de climas até dificuldades de se obter as placas de Autochrme que tinham de ser enviados por amigos. Em suma, seus escritos dão um caráter bastante maravilhoso um grande networker. Onde quer que ela estivesse alguém sempre a ajudava a transformar e/ou adaptar um pequeno quarto ou banheiro em uma câmara escura para ela revelar suas imagens. Sempre havia pessoas, cenas e paisagens a serem fotografadas.

Murdoch fez muitas amizades por onde passou. Com seu carisma e amor pela vida, foi a pioneira na arte da fotografia colorida. Suas imagens até hoje emocionam ao serem lidas como registro da existência e apreciadas como desenho da cor.

 

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Helen Messinger Murdoch, Woman standing by a tree / c. 1910

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Helen Messinger Murdcoh, Portrait of a woman in a pink dress / c. 1915

 

Referências:

The Magazine Antiques – The Intrepid Helen Messinger Murdoch

http://www.themagazineantiques.com/articles/the-intrepid-helen-messinger-murdoch/

Acessado em 20/06/2016, às 16:40.

National Media Museum – Autochromes

http://blog.nationalmediamuseum.org.uk/international-womens-day-helen-messinger-murdoch/

Acessado em 20/06/2016, às 11:15.

 

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Fabiola B. Notari é artista visual e pesquisadora. É doutoranda em Literatura e Cultura Russa no Departamento de Letras Orientais (DLO/FFLCH/USP) e mestre em Poéticas Visuais pela Faculdade Santa Marcelina (FASM/ASM). Leciona História da Fotografia e Fotomontagem no Curso Superior de Fotografia no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e coordena o Grupo de Estudos Livros de artista, livros-objetos: entre vestígios e apagamentos na Casa Contemporânea.