Helen Levitt (1913–2009): desenhos de uma infância perdida

Categoria: AutoreseHistória e Fotografia.

11/11/2015

001 002

“A criança é essencialmente um ser sensível à procura de expressão. Não possui ainda a inteligência abstraideira completamente formada. A inteligência dela não prevalece e muito menos não alumbra a totalidade da vida sensível. Por isso ela é muito mais expressivamente total que o adulto. Diante duma dor: chora – o que é muito mais expressivo do que abstrair “estou sofrendo”. A criança utiliza-se indiferentemente de todos os meios de expressão artística. Emprega a palavra, as batidas do ritmo, cantarola, desenha. Dirão que as tendências dela inda não afirmaram. Sei. Mas é essa mesma vagueza de tendências que permite pra ela ser mais total.” (ANDRADE, 1996, p.129-130)

 

Mário de Andrade nesta citação parece estar observando uma das fotografas de meados da década de 1940 de Helen Levitt. Tanto o escritor quanto a fotógrafa deixam-se levar pelos aspectos da cidade ainda não descobertos por todos. Põe a vislumbrar cidades na cidade tornando a todos curiosos por descobri-las. Levitt fixa o elemento fugaz de um lugar que se tornava transitório, captando com sensibilidade os detalhes, as pequenas belezas; os desenhos feitos a giz na calçada e nas ruas da, até então, Nova Iorque que anos depois se tornará irreconhecível.

 

003 004

 

Por dez anos, Levitt documentou a vida dessas crianças, imersas em criações fantásticas era por meio do desenho a giz que elas desenvolviam sua criatividade e socializavam-se com outras crianças, interessadas em reinventar imagens e histórias para o mundo ao redor delas. São nessas fotografias P/B que Levitt registra uma infância perdida, pois décadas depois, imersas em realidades virtuais, as mesmas crianças que antes, sentadas no chão, criavam mundos, agora recebem passivamente mundos criados/manipulados.

 

005 006

 

Os instantes registrados por Levitt apresenta a criança em diversos mundos: resistindo, brincando, inventivas e, por que não, entristecidas e até chorosas. É possível inferir que, diante da cidade e da criança, parece saber e mostrar-nos detalhes precisos sobre ambas convidando a viagens, cujos trajetos, propostos pela fotógrafa, resultam de uma relação intensa com a cidade e com a infância, aparente em tantas reflexões em distintas situações.

 

Referências:

ANDRADE, Mário de. Contos Novos. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

LEVITT, Helen; COLES, Robert. In the Street. Durham NC: Duke University Press, 1987

High Museum of Atlanta

https://www.high.org/Art/Exhibitions/Helen-Levitt-In-The-Street.aspx

Acessado em 14 de outubro de 2015, às 15:00

MoMA – The collection

http://www.moma.org/collection/artists/3520

Acessado em 14 de outubro de 2015, às 14:30

The chalking kids of New York (1938-1948). The photographs of Helen Levitt by Philip Battle

http://screever.org/2011/12/06/the-chalking-kids-of-new-york-1938-1948/

Acessado em 14 de outubro de 2015, 13:42

 

____________________

Fabiola B. Notari é artista visual e pesquisadora. É doutoranda em Literatura e Cultura Russa no Departamento de Letras Orientais (DLO/FFLCH/USP) e mestre em Poéticas Visuais pela Faculdade Santa Marcelina (FASM/ASM). Leciona História da Fotografia e Fotomontagem no Curso Superior de Fotografia no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e coordena o Grupo de Estudos Livros de artista, livros-objetos: entre vestígios e apagamentos na Casa Contemporânea.

http://casacontemporanea370.com/article/Grupo-de-Estudos-Livros-de-artista-livros-objetos-.html

Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/1828197136276074