Hans Aarsman e as fotografias que interessam

Categoria: AutoresePensamento e teoria.

14/07/2015

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Hans Aarsman, Photography against consumerism, FOAM Magazine #13, winter 2008.

 

Em nosso cotidiano, temos fotografado compulsivamente, tanto que provavelmente não paramos para pensar por quê estamos fotografando, quer dizer, qual o papel que aquela imagem cumpre para nós. Essa reprodução da realidade cotidiana tem se tornado ainda mais fácil e fascinante a cada momento em que a câmera se enraíza em nossa rotina, por exemplo, todo e qualquer celular hoje possui uma câmera razoável e mal vamos até o banheiro sem ele. Quase 100% de nossa vida está ao alcance de uma câmera fotográfica.
Para pensar um pouco nos usos que fazemos da fotografia trago um personagem e seu discurso que são até um pouco antigo nesses tempos de velocidade da internet, mas que, justamente por isso, se torna cada vez mais atual.
Hans Aarsman é um fotografo e escritor holandês que vem desde os anos 1990 questionando as nossas ambições fotográficas. Como fotografo e artista, começou a lhe incomodar uma falta de autenticidade quando se propunha a fotografar um determinado tema. Para ele, a criação de um conceito sobre uma imagem fotográfica estaria distanciando ela de sua autenticidade. Também lhe perturbava o fato de belas fotografias serem sempre comparadas a belas pinturas, ou seja, para uma fotografia ser bonita ela deveria se assemelhar a uma pintura. A partir dessas questões, passou a buscar qual seria, para ele, a beleza das imagens fotográficas ou o que as tornaria interessantes.

 

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Hans Aarsman, Photography against consumerism, FOAM Magazine #13, winter 2008.

 

A grosso modo, para ele o que torna as fotografias interessantes estaria contido em sua funcionalidade, que pode aparecer de diversas maneiras, como em um flyer de supermercado ou na imagem de um brinquedo de infância. Mas como ele chegou nessa resolução?
Aarsman parou de fotografar e começou a colecionar fotografias que ele achava interessantes. Na mesma época, precisou se mudar para um apartamento menor e com isso tinha que se desfazer de uma série de coisas. Então ele descobriu que ao fotografar aqueles objetos que desejava se desfazer, as imagens cumpriam a lacuna que eles iriam deixar nele. Dessa maneira, se desfez de uma televisão, de brinquedos de infância, de negativos fotográficos e até de bonecos que sua mãe havia feito no asilo.
Mas essa divagação foi mais longe e ele percebeu que fotografar coisas que ele não tinha também supriam sua necessidade de adquirir aquilo a curto ou longo prazo.

 

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Hans Aarsman, Photography against consumerism, FOAM Magazine #13, winter 2008.

 

Pois bem, o que significa? Para Aarsman uma foto interessante, então, é a aquela que suscita nossa capacidade de esquecermos que ela é uma fotografia e a possibilidade de atribuirmos à ela os sentimentos que o objeto ou situação retratados na imagem nos evocam.
Esse percurso de Aarsman me faz pensar nas fotos que tiramos espontaneamente no dia-a-dia, sem pretensões de elas serem belas ou não. Quando fotografamos nosso cachorro, sinto que queremos registrar o carinho que temos por aquele animal; ou quando minha mãe fotografa bolsas em vitrines na rua, ela está fotografando modelos que ela quer aprender a fazer em patchwork; ou ainda, quando uma aluna não aceitava nenhum tipo de enquadramento mais fechado da imagem, pois ela queria, ao revê-la, lembrar da mesma maneira que tinha visto ao vivo, com toda a possibilidade de ver o espaço.
Tenho a impressão que são esses sentimentos que apreendemos em fotografias tem uma função que é muito importante e que, muitas vezes, não nos damos o direito de ver, por parecerem “assuntos menores”. Acredito, como Aarsman, que a capacidade da imagem de nos fazer entrar dentro dela pode ser o mais interessante nela, por mais que isso muitas pareça nos distanciar do que chamamos de belo e de arte. Para mim, é nesse momento que tudo isso converge.

 

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Mais sobre Hans Aarsman:

Hans Aarsman, junto com outros fotógrafos, criou uma revista que se chama Useful Photography, em que eles trazem essas coleções de fotografias interessantes recolhidas de catálogos, manuais, flyers, livros e dos mais variados meios de nosso cotidiano. Você pode conhecer um pouco sobre ela aqui: http://www.kesselskramerpublishing.com/useful-photography/

Photography against consumerism, na FOAM Magazine: http://issuu.com/foam-magazine/docs/fm–13

Site: http://hansaarsman.nl/

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com