Fotografia de espíritos

Categoria: História e Fotografia.

24/03/2016

O século XIX foi marcado pela abundância de descobrimentos nas diversas áreas da ciência que fizeram com que o homem compreendesse de maneira mais complexa a si próprio e seu meio.

Nesse cenário, a então nova a fotografia encontra a consolidação do pensamento do Espiritismo, o qual enxergava a existência da alma de forma que poderia existir sem um corpo para contê-la.

Por se tratar de uma crença que possuía capital e influência, em uma sociedade que procurava pelo contato com um mundo espiritual e, ao mesmo tempo, enxergava a câmera fotográfica como um olhar imparcial da realidade e um processo semi-mágico no seu fazer. Isso foi o suficiente para atrelar a atividade do fotógrafo à seus ritos, gerando essa “contaminação” do espiritismo com a fotografia.

Em 1862 na cidade de Boston, uma das capitais financeiras dos Estados Unidos, William H. Mumler (1832 – 1884) montou o que seria uma mistura de estúdio fotográfico com centro espírita, onde oferecia os serviços de fotografar retratos com a presença de celebridades, familiares e amigos que já haviam falecidos. O que economicamente era muito rentável, já que enquanto um retrato encomendado custava em torno de alguns centavos de dólar, as fotografias “assombradas” de Mumler custavam entre $5 a $10 dólares. Sua imagem mais famosa é a da viúva Mary Todd Lincoln com o fantasma de seu marido, o recente assassinado presidente Abraham Lincoln.

 

Mumler

Fotografia de Mary Todd com o espírito de Abraham Lincoln ao seu lado.

 

A que tudo indica Mumler conseguia as imagens dos espíritos mais “populares” graças a situação que vivia o país em meio a guerra civil.

Neste período a quantidade de fotografias realizadas para as correspondências era muito alta e por causa dessa vantagem ele utilizava como base para seus espíritos as fotografias já realizadas dos soldados que haviam morrido em batalha. Curiosamente, o fotógrafo acabou por ser condenado não pelo seu charlatanismo, mas dentre outras coisas, por invadir casas a procura de fotografias de falecidos.

Mais adiante, temos um novo motivo que veio alimentar a fotografia de espíritos, o lançamento comercial dos filmes infravermelhos na década de 1930. Até então as fotografias de espíritos trabalhavam com retratos de estúdio, nunca conseguindo chegar às sessões espíritas, porque elas eram escuras. Com a chegada desses filmes, os fotógrafos puderam levar consigo lâmpadas de baixa frequência que emitiam uma luz vermelha fraca no ambiente, mas suficiente para iluminar o registro.

A médium escocesa Helen Duncan (1897-1956), foi uma das precursoras a unir suas sessões com a fotografia infravermelha, recebendo da empresa Ilford Photo, em 1932, uma amostra da nova série de chapas fotográficas infravermelhas que viriam a entrar no mercado em breve e todo o suporte necessário para que ela testasse.

 

Duncan

Fotografia de Harvey Metcalfe de umas das sessões da Sra. Duncan em que claramente é possível identificar uma boneca feita de papel machê envolta em tecido atrás da médium.

 

Posteriormente em 1931 a organização London Spiritualist Alliance acaba por desmascarar a Sra. Duncan através da análise das próprias fotografias realizadas em suas sessões, comprovando que, o que ela dizia ser o ectoplasma o qual expelia pela boca durante as sessões, era na verdade uma mistura feita de gaze, clara de ovo e papel higiênico que previamente engolia e, que durante a sessão auto provocava a regurgitação, simulando uma experiência sobrenatural.

Um pouco adiante, houve o estudo do casal Kirlian, em 1939, que descobriu a aparição de imagens nas chapas fotográficas após sofrerem uma descarga elétrica de alta voltagem. Inicialmente acreditavam que eles estavam fotografando a áurea dos objetos, e assim produziram uma imensa quantidade de imagens de vegetais, que segue até hoje como empresa que produz estas imagens com finalidade de pesquisa.

O que veio derrubar a ideia de que este processo registrava a áurea dos objetos foi o teste realizado em vácuo, onde não era mais possível registrar o campo que contornava os corpos. Um artigo da revista Science de 1976 justifica que a humidade é um elemento determinante para a aparição destes campos e nas influência das cores, que pelo contato é transferida do objeto para a emulsão da chapa causando uma alteração nos padrões de carga elétrica do filme.

Ainda hoje na Rússia e parte do Leste Europeu o processo ainda é pesquisado e aceito fora da comunidade médica como procedimento laboratorial.

 

Kirlian

Processo Kirlian de fotografia

 

Assim como os monstros que sumiram dos antigos mapas, a presença de espíritos vem desaparecendo do imaginário da fotografia. A maneira como a fotografia se tornou mais íntima na sociedade fez com houvesse hoje uma familiarização menos mágica com processo fotográfico e alterou também o entendimento da confiabilidade da imagem fotográfica, fechando espaço para estas aparições nos dias de hoje. O que não faz com que estas peças produzidas no século XIX e início do século XX percam seu valor, elas nos evocam uma elegante poética surreal que sobrepõe elementos fantásticos tais como figuras etéreas, redemoinhos vaporosos, e objetos mágicos a ambientes ordinários.
Hoje podemos entender que a principal função da fotografia de espíritos no século XIX não foi a de encontrar estes seres sobrenaturais, mas sim a de re-encantar uma sociedade que se viu como num sopro distante de todo os mistérios da vida. Podemos entender também que esta vasta produção inevitavelmente alimentou o imaginário dos artistas que viriam a desenvolver o Surrealismo e Dada com suas fotomontagens.

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.