Dare alla Luce ou uma nova vida às fotografias

Categoria: Autores.

21/04/2016

Muitos artistas ao se depararem com fotografias de desconhecidos sentem-se atraídos pela possibilidade de dar um novo rumo àquelas imagens esquecidas.  Num primeiro momento, pensamos que essas imagens já caducam de significado porque não reconhecemos sobre quem elas falam, então resta a identificação por algo que achamos bonito ou feio, um local que conhecemos ou gostaríamos de ter conhecido, etc. A fotografia, e em especial o retrato, nos atrai principalmente por falar de alguém que nos interesse, que seja próximo ou que nos identifiquemos.

Muitas vezes nos desfazemos dessas imagens que sentimos não ter mais vínculo, e ocasionalmente elas acabam sendo encontradas na rua ou caindo num mercado fotografias “antigas” e encontrando novos donos. E, para alguns desses novos donos, dar uma nova oportunidade de vínculo à essas fotografias é um desejo e um desafio.

Trago nesse post um trabalho muito especial, porque consegue traduzir com primazia seu desejo nas imagens e o significado pretendido a elas, e acaba sendo um exemplo muito completo do que quero falar.  Dare alla Luce é um trabalho desenvolvido pela canadense Amy Friend 2012 e 2015, em que trabalha com fotografias de desconhecidos que ela vem adquirindo e procura levantar a questão de dar um novo significado à elas.

 

LatentLight

Amy Friend, Latent Light, 2012-15.

 

Friend, numa primeira tentativa em bordar em fotografias percebeu que pelos pequenos orifícios entrava luz e que o resultado era muito mais interessante.  Ela proporciona o encontro da luz com diversos tempos dessa fotografia: primeiramente, a luz que reflete no objeto e se transforma em fotografia, em segundo as pequenas perfurações que ela faz nas imagens e, por último, a imagem final, que une tudo e altera o original. Em seu trabalho, a luz é o que empresta significado para as imagens, possibilita múltiplas leituras, ao mesmo tempo em que cria a imagem, a altera e cria um ruído nela própria.

 

AreWeStardust

Amy Friend, Are we Stardust?, 2012-15.

 

O nome da série, Dare alla Luce significa, em italiano, dar à luz, metáfora do nascimento. Nesse caso, não simplesmente o significado simbólico de um (re)nascimento dessas imagens, como também do ato de trazer à luz novamente essas imagens que estavam não sendo vistas. Reforçando, assim, o ato de atribuir um novo significado e uma nova vida a imagens já esquecidas.

Esse retrabalho, que aponta pra trás, quando resgata imagens mais antigas, com características visuais que indicam algo de um tempo passado razoavelmente distante, traz consigo noções de nostalgia e memória, da fotografia como processo e seu espaço na sociedade.

Percebemos isso na série de Friend quando olhamos para os títulos de cada foto, eles dão indícios algumas vezes ao seu espaço na sociedade, quando são sobre informações que estavam marcadas nas fotos, como nomes, locais, ano e outras que apontam sobre seus rastros de memória; outras vezes, falam diretamente sobre temas ligados a fotografia como mídia e a maneira que lidamos com ela, como “We are a table of wax” (somos uma mesa de cera), “It is Epic” (isto é épico), “It could be anywhere” (poderia ter sido em qualquer lugar) e “Latent light” (luz latente).

 

Eva+anywhere

da esquerda para a direita, Eva e It Could Be Anywhere, Amy Friend, 2012-15.

 

Ao explorar esse tema, a artista toca em questões do próprio fazer fotográfico, esse ato de registrar um momento pela sua importância, você o guarda para manter a memória viva, a memória se perde e a imagem também; o artista, ao dar uma nova importância para aquele retrato, questiona a própria falência da fotografia como portadora de uma memória específica.

 

Revenants

Amy Friend, Revenants, 2012-15.

 

Amy Friend e outros tantos artistas que utilizam a apropriação de fotografias de época como discurso trazem algumas questões relevantes para serem pensadas: historicamente, é importante olhar para o passado e entender de que forma ele traz algo para o presente, perceber de que maneira ele moldou o que vivemos hoje; na fotografia, em especial, por toda a mudança técnica e simbólica que ela vem vivendo impulsionada pelo digital; perceber que vivemos em um mundo que é um produtor de imagens ao extremo e que elas estão disponíveis não só para o consumo, mas também para a reflexão sobre o que elas dizem sobre esse mundo; e por último, acredito que ao olhar para a fotografia vernacular, que costuma não possuir pretensão de ser arte, talvez seja a qual fale mais sobre o que fotografar significa para a sociedade e nos ajude a entender qual o papel dela no passado, presente e futuro.

 

Before+Beautiful

da esquerda para a direita, Before the war e Photobooth The Beautiful Girl, Amy Friend, 2012-15.

 

_______________

Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com