Daniel Malva e seu museu do fantástico

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23/07/2015

Malva 01

Felis concolor, 2009

 

Daniel Malva, nascido em Ribeirão Preto – SP, é um artista que tem sede de explorar o conhecimento. Aos 13 anos começou a trabalhar como desenhista numa agencia publicitária, depois foi para a faculdade de biologia, tendo participado por 4 anos do projeto Genoma, no mesmo período estudou engenharia química e por fim se formou em fotografia e mecatrônica.

De modo muito sagaz conseguiu unir seus estudos a sua grande pesquisa, que é desconstruir os passos dados pela história cultural e tenta desarmá-la de seus códigos para se aproximar do seu íntimo. Para ele, enxergamos demais com os olhos que nos precederam sem desconfiar como foi seu processo.

 

Malva 02

Mandrilus sphinx, 2013

 

No universo das suas imagens Malva utiliza como inspiração a aventura de seu próprio inconsciente. Cada uma de suas séries tem origem a partir de seus sonhos. A criação das imagens são o resultado de reflexões dos sentimentos remanescentes destes sonhos.

Para tentar fazer sua câmera alcançar seu passo o artista costuma transgredir seu equipamento. Algumas vezes, Malva acesa o sistema que opera o sensor nas câmeras digitais e o hackeia; em outras, constrói suas lentes a partir de tubos plásticos, carcaças de objetivas, lentes de óculos, etc.

Sua relação com o aparato fotográfico fica além de mero funcionário, ele trata seus equipamentos como seus operários, os quais devem trabalhar a seu favor de acordo com suas necessidades.

 

Malva 03

Lethocerus americanus, 2010

 

No caso da série Museu de História Natural de 2013, o tema e a estética utilizada pelo artista me faz recordar do movimento Simbolista do final do século XIX. Malva retoma a névoa espessa vivida pela geração do poeta francês Charles Baudelaire que procuravam no campo da subjetividade desvendar o que é humano e o que é eterno. Para isto, projetou um software específico para a câmera, a fim de chegar nesta leitura de cores e definição que dão um aspecto de sonhar acordado.

Em meio a esqueletos e taxidermias, Malva vem explorar uma sensação pessimista do futuro salientando um desajuste com a natureza. Nas imagens nos é apresentado vestígios de animais num ambiente que ao mesmo tempo tenta ser um espaço tradicional da ciência, mas acaba por cair num ambiente fantástico e onírico.

Ao invés de se prenderem a um ponto de vista Naturalista, com um cientificismo exagerado e sua forma objetiva de entender o mundo. Malva passa uma sensação expressada similar a vivida pela geração do poeta francês: em meio ao surgimento das grandes cidades e a modernidade se reforçam ideias como o pessimismo, subjetividade e culto a morte.

A série é um jornada para a morte. Misturando em um mesmo nível animais que suspeitamos estarem extintos aos que podem não estar e localizando-os dentro deste grande museu, Malva construiu através de corpos sem contorno bem definido as sensações de distanciamento e esquecimento de como eram e como costumávamos nos relacionar.

 

Malva 04 

 

Serrasalmus nattereri, 2013

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.