Como podemos pensar possíveis relações entre fotografia e escultura?

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19/05/2015

Após a conversa com Nino Cais sobre fotografia e escultura que deu origem ao post anterior achei que seria interessante dar uma continuidade a discussão das possíveis relações entre essas duas manifestações artísticas que talvez em um primeiro momento nos pareçam bastante distantes.

Penso nesse texto então como um prolongamento dessa investigação com a função de lançar algumas perguntas de como essas linguagens podem se relacionar.

Historicamente a escultura é um campo bem definido e delimitado, regida pela lógica do monumento: possui local determinado, é um representação simbólica desse espaço e possui uma função de exaltação. A partir do século XIX ela começa gradativamente a se descolar do monumento e começa a trabalhar com a ausência de local fixo. Um dos primeiros exemplos dessa circunstância são Rodin e Brancusi, e desvendando essa lógica seguem os modernismos.

É na segunda metade do século XX que a escultura tem sua maior abertura, alimentando diversos novos campos, como a Land Art, a performance, a instalação e tantas outras. A fotografia é adotada como cúmplice desses novos desdobramentos e me suscitam algumas questões que irei apresentar agora:

 

-       Como a fotografia pode ocupar o local (espaço demarcado) na escultura?

 

Ao criarem um espaço metafórico-geográfico em seus trabalhos, algum artistas discutem uma existência além da fisicalidade dos espaços que usam como material e matéria de trabalho. Temos como exemplo Christo, que ao embrulhar monumentos já existentes cria uma discussão em torno de sua simbologia, Robert Smithson e Dennis Oppenheim com suas paisagens criadas e/ou encenadas para o registro, e outros. Neles, a fotografia não me parece meramente o registro de uma obra, mas confere outras características potencias, reunindo elementos natos da escultura com alguns da fotografia, como o imaginário coletivo de documento – monumentos de cartão postal revestidos em discussões plásticas escultóricas e a noção falseada de verossimilhança.

oppenheim

Dennis Oppenheim, Monument to Escape, Memory Park – Buenos Aires/Argentina, 2001.

 

-       Como o corpo pode assumir um papel escultórico na fotografia?

 

Em misto de performance e escultura, alguns artistas usam o corpo (o seu e/ou o de outros) como material escultórico diante da câmera. Simbolicamente, é o individuo que tenta ser imagem. É muito fácil encontrarmos muitos exemplos disso, como Bruce Nauman em Eleven Color Photographs (1966-1967/70), Gilbert&George quando declaram suas performances como esculturas (“living sculptures”), Erwin Wurm em One Minute Sculptures (1990-atualmente), Ren Hang nos ambientes que cria para retratar a juventude chinesa atual, e outros.

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Ren Hang, Untitled, 2012.

 

-       Como a fotografia pode ganhar corpo e se tornar escultórica?

 

Alguns artistas partem de fotografias para a construção de novos objetos artísticos que se relacionam com conceitos escultóricos. Entre eles ressalto Sigmar Polke e a obra Polkes Peitsche (1968) e as projeção em árvores de Roberta Carvalho (Symbiosis, 2011).

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Simar Polke, Polkes Peitsche, 1962.

 

-       Como a fotografia pode tratar de seus conceitos através da escultura?

 

Percebo em alguns trabalhos pontos que nos direcionam a pensar na fotografia mesmo não sendo ela a questão principal ou seu único formato de existência e sobrevivência. Vejo muito isso em Gordon Matta-Clark, ao cavar e recortar o ambiente urbano ele desperta o ver diversos planos diferentes, questão bastante presente na fotografia. A forma como Rodin cria enquadramentos de caráter fotográfico ao esculpir momentos e Damien Hirst que congela o tempo ao guarda animais em um recipiente de formol.

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Gordon Matta-Clark, Conical Intersect, 1975.

 

Essas foram algumas das questões que me instigaram ao pensar nesse tema, e a vocês, o que vem em mente ao pensar a relação fotografia a escultura?

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com