Cartografias contemporâneas

Categoria: Pensamento e teoria.

15/06/2015

O homem sente necessidade de conhecer seu ambiente e a cartografia é uma consequência natural disso, seja para os espaços geográficos já conhecidos, seja para espaços em que sua grandeza só podemos imaginar, como o cosmo.

Fizemos mapas de nossas cidades, de locais próximos e distantes, e demarcamos fronteiras com eles. Desenhamos espaços que não podemos ver claramente ou por completo para explicar questões da existência. Criamos e destruímos mitos a partir deles.
Com a tecnologia (fotografia, tecnologia digital, satélites, etc) a imagem de um mapa é cada vez menos uma representação em desenho de um local e mais uma imagem fotográfica que toca o real.
A arte tem se apropriado dessas representações espaciais com o intuito de lhes dar novos significados ou apontar direções. Fotógrafos sem câmera, alguns artistas vem revisitado nossos mapas, principalmente os disponíveis na Web, como Google Maps e Google Earth, Google Street View, mapas de celular e outros.
Em Dutch Landscapes, Mishka Henner se apropria de imagens de satélite da Holanda disponíveis no Google Maps. A partir delas, ele aponta para o fato de apesar de termos as imagens do planeta todo disponíveis, e a idéia de que a internet é um espaço livre, ainda convivemos com a censura de maneira muito presente e muitas vezes velada. Henner seleciona áreas que a Holanda considera de segurança, como palácios, depósitos de combustíveis e bases militares, e que são cobertas por formas poligonais coloridas que destoam da paisagem holandesa e também da maioria das formas usadas por outros países de esconder o que existe naquele local.

 

MH-DutchLandscapes

Mishka Henner, Dutch Landscapes (da esquerda para a direita: 1: Mauritskazerne, Ede 2: Unknown site, Noordwijk aan Zee, 3: Frederikkazerne, Den Haag) , 2011.

 

David Thomas Smith, altera paisagens para nos mostrar como nós as alteramos em um trabalho chamado Anthropocene. A partir de um conceito de Paul Crutzen – ganhador de um Prêmio Nobel de Química e cientista atmosférico – que denomina Anthropocene o atual período geológico da Terra, no qual o ser humano se torna o principal agente geológico, Smith procura por paisagens humanas de grandes centros globais do capitalismo, como indústrias de petróleo, metais preciosos, cultura do consumo e outros. Com imagens de satélite desses locais, ele os retrabalha influenciado pelas tapeçarias Persas e Afegãs, que trazem em sua tramas determinadas narrativas de histórias culturais e pessoais a partir de padrões gráficos. Com isso, o artista aborda questões que envolvem o fotográfico, realidades econômicas e narrativas antigas.

 

Anthropocene Burj Dubai

David Thomas Smith, Burj Dubai, Dubai, United Arab Emirates, da série Anthropocene, 2009-10.

 

Para encerrar, apresento uma série chamada Land da argentina Marcela Magno, que investiga os poços de petróleo na Patagonia. Nesse trabalho a artista busca tornar visível os campos de petróleo e os seus detritos, mostrando como isso alterou a paisagem do local. Apesar da beleza plásticas, esses mapas nos apontam como a indústria do petróleo modificou a sociedade e o ambiente além do que podemos observar cotidianamente, mas também nessas áreas afastadas de nossos olhos.

 

Marcela Magno

Marcela Magno, 45°47’13.47″S | 68° 3’45.55″O | 30 dic 2005, da série Land, 2004-20013.

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com