Carlos Mélo | corpo-obra

Categoria: Autores.

26/05/2015

 Carnos (1)

Carnos I

 

Já não é nova a fala sobre o esgarçamento de fronteiras – questão que ocupa, entre outros campos, o repertório crítico das artes visuais. Mas, o assunto continua pertinente, não apenas para a crítica, que se vale muito mais da teoria para a verticalização dessas questões, como para os próprios artistas, com seus projetos de experienciação e produção de ligações “inéditas, dinâmicas e ondulatórias” da matéria reorgnaizada sob potência do calor (BOURRIAUD).

Esse tem sido o percurso de Carlos Mélo. Na busca pela “vivência sensível”, o pernambucano, de Riacho das Almas, transita entre fotografias, performance, vídeos, desenhos e instalações e se deixa acometer por questões que envolvem a não separação do sujeito e objeto, corpo/matéria, arte/vida. É nesse sentido que defende o uso da linguagem fotográfica mais como um modo (obviamente importante) de registrar suas ações e suas vivências, se preocupando menos (sem desprezo) com o preciosismo da imagem.

 

Carnos II

Carnos II

 

Em Experiência sensível, trabalho cujo projeto foi contemplado com o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça, o artista valida essa premissa. Seus subjetos, conceito que equaciona a ideia de objeto para e sobre o sujeito, só reforçam a conformação física dessa experiência. É o caso do chapéu com franjas usado pelo artista, uma espécie de “adê”, adereço de cabeça dos orixás femininos que esconde o rosto de um Deus que se personifica na própria natureza. Seria esse um encontro com a sabedoria e o poder feminino, próprio da Deusa do rio Osun?

 

Experiência sensível (1)

Experiência Sensível (1)

 

O corpo de Carlos – carne e indivíduo: Carnos – se relaciona com a natureza, mas também com a arquitetura, com o ambiente, natural ou não, cuja experienciação se processa.  Em Carnos I, seu “corpo-obra”, como uma vez nomeou Suely Rolnik, parece se integrar à Instituição Museológica (o Mamam, Recife) e, embora haja fissuras nesse acolhimento ambíguo – corpos amarelados com temperaturas singulares -, essas imagens “são o suporte frágil no qual o artista enuncia o seu projeto de diluir fronteiras entre o que é orgânico e o que é matéria inerte ou só idéia” (MOACIR). Ou até mesmo entre corpos naturais e suas diferenças e similitudes, como em Carnos II.

 

Expriência sensível (3)

 Experiência Sensível (3)

 

Diálogos in (diretos): Nicolas Bourriaud, Fabianna Freire Pepeu, Cristiana Tejo, Marluce Vasconcelos de Carvalho, Beth da Matta, Suely Rolnik, Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos.

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Texto por Rebeka Monita*

 

*  Coordenadora do EducAtivo Mamam e professora de EAD da UFRPE. Mestre em Artes Visuais pela UFPE , dedica-se a  pesquisa sobre arte contemporânea, fotografia artística e formação de acervos.  Em 2014 foi contemplada com o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, da Funarte, na categoria crítica sobre fotografia.