As imagens contaminadas de Seung-Hwan Oh

Categoria: Autores.

23/02/2016

O fotógrafo Seung-Hwan Oh que vive e trabalha em Seul, Coreia do Sul costuma trazer em seus trabalhos questões que abordam a filosofia e ciência de maneira sedutora. Em Impermanence, 2012, o artista, impulsionado pelas leis da termodinâmica  - que exploram  como a energia num sistema tende por meio da entropia a se direcionar a um equilíbrio térmico – nos provoca com seus retratos a forma como este fluxo opera.

Na série o artista utiliza determinadas colônias de fungos criadas por ele mesmo, após fotografar os retratos em película, os deposita sobre o próprio filme. O contato do filme com a colônia durante meses acaba por desestabilizar os halógenos de prata contidos a película, tendo como consequência visual deformidades nas imagens dos mais variados modos.

 

Seung-Hwan_OH - 01

Untitled_Angela

 

Seung-Hwan_OH - 02

Untitled_Yuna

 

Os resultados são os mais diversos possíveis: temos intervenções que se assemelham a fissuras nas imagens, outras dão a imaginar que o corpo está no processo de se decompor, ou estão em curso de transformação para outra forma, entre outros.

Pelas manchas existentes sobre os corpos, formam padrões que nos levam a enxergar ambientes microscópicos, como se entrando na escala dos fungos ou então em constelações. Com isso temos uma equivalência do micro universo com o macro universo.

Talvez seja justamente isso o cerne da questão deste trabalho, como as trocas e transformações sempre fizeram parte do mundo e como isso acarreta na transitoriedade da vida. Nas imagens, a ação dos fungos exibe a conexão de nós termos origem nas mesmas matérias que os fungos e as estrelas.

 

Seung-Hwan_OH - 03

 Untitled_DavidHyun

 

Seung-Hwan_OH - 04

Untitled_Kyu

 

Outra importante questão no trabalho de Seung-Hwan Oh é a relação com o tempo. No instante em que o artista contamina a película fotográfica com a colônia de fungos é dado o início deste processo de degradação da imagem, que irá obrigatoriamente causar a completa anulação da imagem fotográfica como retrato.

Este procedimento dura alguns meses até que Seung-Hwan Oh digitaliza o filme e obtém uma imagem digital do processo, porém a imagem contaminada segue seu caminho de deterioração, independente da fase na qual o artista a registrou e escolheu como imagem para seu trabalho. Então o que vemos nas imagens é uma fatia de tempo que foi recortado de um objeto que também apreendeu um tempo.

Com isso ele ressignifica o tempo e a função do objeto fotográfico explorando algumas limitações funcionais da fotografia, onde além de não mais enxergar os rostos que um dia foram captados pela câmera, encontramos um processo de transformação desligado do índice. Este que dá uma nova chance de experiência a imagem, ao mesmo tempo pelo fato de se encaixar num processo de ação, é fotográfica e ainda será.

 

Seung-Hwan_OH - 05

Untitled_KyuHyun

 

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Marcelo Parducci é fotógrafo e sua pesquisa tem foco em formas experimentais e/ou alternativas dentro do universo da fotografia que trabalhem construindo poéticas.