Álbum de família e identidade

Categoria: Pensamento e teoria.

10/09/2015

No post de hoje resolvi trazer para vocês um pouco do foco da minha pesquisa em fotografia nos últimos anos: as relações entre a fotografia de família (álbuns de família) e identidade. Para isso, trago dois trabalhos muito delicados que tem o formato de livro.

O primeiro é um fotolivro da argentina Lorena Guillén Vaschetti, chamado Historia, memoria y silencios. Nele, a fotografa olha para um passado desconhecido em busca da possibilidade de reescrever o passado trágico de sua família de uma outra maneira. Isso se dá a partir de um situação um pouco curiosa: ela recebeu um telefonema de sua mãe dizendo que estava se desfazendo das fotos das fotografias da família, pois tudo aquilo já tinha acontecido e já estavam todos mortos. Lorena corre e consegue resgatar apenas uma pequena caixa que continha alguns slides soltos, pequenos grupos de slides com anotações e latinhas de filme. Dessa maneira, o livro se divide em duas partes.

Na primeira, a artista (re)fotografa os slides que estavam soltos usando um recurso em que seleciona apenas pequenos detalhes da imagem para ficarem em foco. As imagens possuem um ar onírico, propondo a sensação de passagem de tempo e de incerteza sobre o que de fato está sendo visto e se sabe sobre as relações entre os fotografados.

 

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Lorena Guillén Vaschetti, Historia, memoria y silencios, Schilt Publishing, 2011.

 

A segunda parte do livro é composta por fotografias dos pacotes que Lorena não quis abrir. Estão presentes agora caixinhas de filmes, slides amarrados em pequenos pacotinhos e notas indicativas de viagens. Essas imagens marcam a impossibilidade de acessarmos alguns fatos do passado. Esse trabalho, por fim, é uma busca sobre de que maneira o passado afeta a nossa identidade hoje e a fotografia, nesse caso, acaba sendo o espaço para rever o passado e dar outros significados.

 

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Lorena Guillén Vaschetti, Historia, memoria y silencios, Schilt Publishing, 2011.

 

O segundo trabalho se chama The Path of Million Pens, da japonesa Miki Hasegawa. Após casar e ser mãe, a artista passa a não se reconhecer mais pelo próprio nome, uma vez agora seu sobrenome era o do marido e passou a ser chamada a maior parte do tempo de “mãe”. Nesse processo, ela faz uma viagem em busca de encontrar quem ela é revendo suas fotos de criança e também as de seus familiares. Ao reunir esses pedaços de história, ela passou a entender que esses registros do passado são a prova de sua existência.

O livro é muito delicado, feito artesanalmente em uma pequena tiragem de 100 exemplares. Nas páginas se intercalam álbuns de três gerações: o de Miki, de sua mãe e sua avó. Além de fotografias, fazem parte dessa busca desenhos, reproduções de jornais, de livros, anotações, uma ultrassonografia e pequenos bolsinhos daonde tiramos mais reproduções. Em algumas páginas, a autora não só apresenta as imagens, como também trata de ressignificá-las, sobrepondo outras.

 

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Miki Hasegawa, The Path of Million Pens, 2014.

 

É interessante ver como, cada uma a sua maneira e com uma história pessoal muito diferente, ambas as artistas encontram na fotografia uma forma de buscar suas identidades a partir de alguma situação vivida. Lorena olha para as imagens que falam de um tempo em que ela não viveu, mas que repercute fortemente em toda sua história. Enquanto Miki procura sua identidade nessa nova fase da vida olhando não só para ela, mas também para as mulheres que lhe são referência.

 

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Texto escrito por Maria Helena Sponchiado.

Maria Helena é jornalista e pesquisadora em fotografia. Se dedica ao estudo da fotografia além da fotografia, pensando sua fisicalidade e relações com outras áreas de representação. Contato: masponchiado@gmail.com