A sutileza visual de “Benditos”: o borrão e outras características estilísticas na obra de Tiago Santana.

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23/06/2015

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A atitude fotográfica de Tiago Santana é revelada numa articulação da fotografia documental com a linguagem contemporânea. A prática experimental do fotógrafo nos leva à utilização de elementos na mensagem visual determinados não somente graças à presença, mas também graças à ausência.

Nascido em Crato, interior do Ceará, Tiago Santana atua como fotógrafo desde 1989 principalmente nos campos de fotojornalismo e documentação. Ganhador de diversos prêmios, Tiago é um dos principais exemplos da utilização de uma estética própria documental, que configura uma relação direta com a produção artística em detrimento das estruturas tradicionais do campo documental. Tendo nascido no município vizinho a Juazeiro do Norte, Santana fez parte desde cedo do universo religioso, e foi em função da romaria do Padre Cícero que Santana se envolveu com a fotografia, o que culminou num belíssimo trabalho chamado “Benditos”.

 

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Em “Benditos” (2000) vemos o uso constante de marcas visuais da obra de Tiago Santana, que propagam seu singular estilo. O primeiro aspecto que nos chama a atenção é a instabilidade imagética, que se revela pelo arrastamento do assunto retratado, ou seja, pelo borrão proveniente das baixas velocidades de obturação e da movimentação dos objetos. A furtividade da presença humana caracteriza o enorme fluxo de pessoas nas ruas, assim como o clima de religiosidade que os peregrinos carregam ao se deslocar pelos caminhos de Juazeiro do Norte.

A figura humana é também sempre deslocada e cortada nos enquadramentos, o que nos leva a outra marca visual de Santana: o extra-campo. Os corte provocados pelos limites do quadro tornam ainda mais indefinidas as presenças e ausências humanas nas imagens, de modo a causar uma quebra no equilíbrio e na simetria imagética. Sendo assim, desperta no observador um olhar aprofundado, pois se torna possível fugir dos limites do quadro e pensar num complemento à cena que ocorre fora da fotografia.

 

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Outro aspecto marcante na obra de Tiago Santana é o uso do preto e branco, pois para o fotógrafo, a presença da cor distrai o observador do clima que se pretende passar. O preto e branco relaciona as fotografias com a xilogravura, fazer artístico muito característico de Juazeiro do Norte. As fotografias de Tiago Santana e as xilogravuras de Juazeiro do Norte revelam uma certa dureza no que se refere aos tons, uma crueza que representam muito bem a dramaticidade visual que Santana pretende transmitir.

“Benditos” levou oito anos para ser concluído, pois representa uma experiência artística e pessoal do fotógrafo. A total dedicação nesse projeto fez com que Santana desenvolvesse um estilo muito característico que contrasta com outras obras de cunho documental. Os borrões, o extra-campo e a crueza do preto e branco retratam primorosamente a sacralidade das romarias em Juazeiro e, apesar de se utilizar de uma presença humana que escapa da composição, podemos perceber que o movimento das pessoas sugerem um diálogo entre elas os ritos religiosos. Apesar da quase ausência, os corpos em borrões acabam sendo os motivos principais das obras fotográficas e desvendam o olhar de Santana, um olhar que retrata a religiosidade colocando em evidência o indivíduo.

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Texto por Anna Carvalho