A representação indígena na obra de Cláudia Andujar e o engajamento social no trabalho artístico

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14/04/2016

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A fotografia documental tenta frequentemente representar, através de imagens, as condições sociais que os sujeitos vivem. O fotógrafo documental utiliza a imagem fotográfica como suporte para expressar seu profundo senso de humanidade, expondo suas visões como um dos possíveis meios de consciência e mudança social. O resultado é sempre uma mistura entre a noção documental e a expressividade artística e, consequentemente, subjetiva.
Como um grande exemplo de utilização tanto da carga informativa, quanto da expressão artística, enquanto ato­fotográfico, podemos pensar na Claudia Andujar. Nascida na Suíça em 1931, viveu em diversas cidades até ter que se mudar para os Estados Unidos, fugindo da perseguição nazista que mandou seus pais para os campos de concentração. Depois de alguns anos morando em Nova Iorque, decidiu mudar­se para o Brasil e foi nesse país, profundamente marcado pelos resquícios do colonialismo no tratamento aos indígenas que ela começou a fotografar para revistas como a LIFE. Ao ser enviada à Amazônia pela Revista Realidade, teve seu primeiro contato com os indígenas Yanomami e, dessa primeira relação documental, nasceu a vontade de se expressar subjetivamente.

 

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Andujar se envolveu de tal forma com a questão indígena, que seu trabalho se tornou notório no campo da representação documental. Primeiro porque ela propõe enunciados visuais que se afastam completamente da objetividade fotográfica e, segundo, porque ela produz experimentações imagéticas que resultam em imagens abstratas. Nesse sentido, Andujar acaba formando imagens híbridas com alta carga documental e de vanguarda, o que a coloca numa espécie de fronteira entre a fotografia documental e a artística. Suas imagens são, portanto, resultado de um desenvolvimento pessoal de alto valor estético e que denotam um caráter de autoria.

 

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A utilização da iluminação natural do local e os feixes de luz que invadem as habitações iluminando os indígenas definem o trabalho estético da fotógrafa, que prefere usar equipamentos leves e pequenos como método de aproximação dos indígenas. É perceptivo, nas imagens, que a presença de Andujar é sempre próxima e bastante lúcida, pois deseja representar não fielmente os acontecimentos e os sujeitos, mas sim a atmosfera do ambiente, a vivência dos atores sociais e a união entre Andujar e os indígenas.
Andujar viveu vários momentos na região Amazônica e registrou diversas fases dos indígenas se atendo não somente ao ambiente e às tradições, mas também às consequências do contato dos indígenas Yanomami com o homem branco. Em 2015, ganhou uma galeria permanente no Instituto Inhotim, que contém 400 fotografias realizadas pela artista na Amazônia Brasileira. A maior parte das fotografias é inédita, como o trabalho Toototobi (2010) realizado durante a assembléia Hutukara Associação Yanomami.

 

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As fotografias de Andujar são exemplos claros de uma produção que une a expressividade artística com o engajamento social e político. Seu trabalho é um encontro, um encontro com o Outro e, de forma poética, traduz identidades e celebra a potência da fotografia documental no campo das artes. Desse modo, Andujar revela a cultura Yanomami, a protege e a divulga, não só como forma de preservação, mas como forma de conhecimento.

 

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Texto por Anna Carvalho
Docente e Doutoranda em Artes Visuais ­ annaleticia@gmail.com