A participação das mulheres na fotografia

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20/10/2015

Afghan Women

Linsey Addario

 

Por enquanto, a fotografia é apenas uma palavra feminina, porque o seu universo é predominantemente masculino segundo o relatório realizado pela  World Press Photo, Universidade de Stirling e Universidade de Oxford – Instituto Reuters, 85% dos fotógrafos atuantes são homens. E a má notícia não termina por aí, segundo o relatório de 76 páginas publicado em 23 de setembro deste ano, que busca investigar o perfil do fotojornalismo atual, a pesquisa sugere que esta situação não está relacionada à falta de esforço por parte das mulheres. Os números mostram que essas mulheres possuem maior nível de escolaridade, que são mais engajadas com as redes sociais e também mais propensas ao uso de novas tecnologias, como vídeo e multimídia, mas mesmo assim,  poucas estão empregadas ou recebem menos por isso. Apesar de toda trajetória, lutas e conquistas, as mulheres ainda tem um longo caminho à percorrer para que a fotografia possa ser considerada também um universo feminino.

 

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Linsey Addario

 

Ainda segundo a pesquisa, as mulheres são mais pessimistas sobre o futuro na fotografia. Para Melissa Golden, fotojornalista situada em Atlanta (EUA) ao ser questionada sobre a pesquisa publicada, fica claro o porquê as mulheres são mais estressadas sobre seu futuro como fotojornalistas. A maternidade, por exemplo é uma dessas preocupações, já que quando a gestação vem à tona, o fluxo de trabalho diminue drasticamente, há também a possibilidade de assédio ou violência, tudo isso sem nenhum departamento de RH para recorrer. “Estamos cercados por palavras e ações danosas e decrescentes ” lamenta.

Particularmente,  é difícil engolir toda a discriminação sofrida pelo simples fato de ser o “sexo frágil”, antes mesmo de levar em consideração sua capacidade profissional. É desanimador ver oportunidades escorrerem pelos dedos devido exclusivamente ao fato de ser do sexo feminino.  As mulheres ainda são minoria, porém, adicionam, trazem para a fotografia seu olhar diferenciado. Muitas vezes conseguem mais acesso ou veêm uma história que pode passar desapercebido para o olhar e universo masculino. A participação das mulheres na história da fotografia é inegável, nomes como o de Margaret Bourke-White, Dorothea Lange, ou ainda mesmo se olharmos para a nossa própria história, a fotógrafa paulista Nair Benedicto, todas elas trouxeram uma grande participação e impacto para o mundo fotográfico.

 

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Nair Benedicto

 

“Mas muito mais pode ser feito”, diz Golden. “Aqui vai o meu conselho para homens e mulheres sobre a forma de como mantê-las no campo. Apoiá-las. Fazê-las sentir-se  valorizada e competente (assumindo que elas realmente o são). Sim, todos nós temos que ser durões para sobreviver nessa área de trabalho, mas as mulheres (e outros grupos marginalizados) muitas vezes, têm de lidar com alguns tratamentos que realmente são prejudiciais à sua confiança e bem-estar, e ignorar isso mostra uma falta de compaixão que não pertence ao jornalismo”.

 

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Nair Benedicto

 

Elas tem que estar sempre um passo à frente e sempre provar sua própria capacidade. Lynsey Addario, famosa fotojornalista que em 2006 fez um trabalho no Congo com mulheres vítimas de abuso sexual disse que “atualmente as mulheres vivem grandes injustiças e muitas delas não tem o luxo que nós temos. Eu sou mulher, nasci com uma dádiva: uma casa, um teto sobre minha cabeça, com água encanada, eletricidade, educação. Eu pude escolher o que queria fazer da minha vida. E isso é surpreendente porque muitas mulheres no mundo nunca tiveram ou terão chance a estas coisas. Eu não posso deixar de apreciar o valor dessas coisas. Quando fotografava essas mulheres, elas tomaram uma decisão e me dizeram sim, tire a minha foto. Eu quero tentar pegar essa força e passar adiante para que outras possam prosseguir e não sentir-se como vítimas. (…) Aprendi e trago isso para a minha própria experiência. Penso que para muitas, é muito pior. Então eu uso as histórias delas como uma fonte de força.”

 

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Melissa Golden

 

Infelizmente, neste artigo, o feminino fotográfico não é tão poético como a linguagem visual que o universo das mulheres traz para a fotografia. Porém a força que provém do vulgo “sexo frágil” é maior do que a sociedade patriarcal podia prever, e aos poucos mesmo que em “doses homeopáticas” deixa sua marca e caminha para que um dia, se os números ainda forem discrepantes, que seja por opção e não por discriminação.

 

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Texto por Alinne Rezende

alinne@alinnerezende.com