A imaginação em Joan Fontcuberta – a criação artística documental de Sputnik

Tags: joan fontcubertaesputnik. Categoria: AutoresePensamento e teoria.

17/02/2016

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Joan Fontcuberta (Barcelona, Espanha, 1955) é fotógrafo, escritor, crítico, curador. É considerado um dos principais pensadores da fotografia e possui livros especializados em arte e imagem, além de sua obra imagética ser reconhecida internacionalmente e fazer parte de acervos de museus e instituições importantes. Em sua obra “Sputnik” ele coloca em xeque a fotografia encarada somente como registro documental.
“O astronauta soviético Ivan Istochnikov desapareceu no decorrer de uma missão durante a corrida espacial e ‘desapareceu’ também de qualquer documento que possa provar sua existência. O corpo perdido no céu tem a sua memória extraviada da terra. A imagem se esvanece, a história é reescrita ao capricho de discursos políticos. O segredo do Estado com a desculpa da desinformação e a propaganda. As mentiras do poder, o poder das mentiras”.

 

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Com essa citação, Joan Fontcuberta sintetiza a ideia principal da obra Sputnik: um conjunto de imagens fotográficas “provando” a existência de um astronauta e a manipulação soviética das fotografias em que o mesmo aparece. O fotógrafo cria todo o contexto expositivo em que as fotografias não são necessariamente as protagonistas. Ele se utiliza de diversos objetos e documentos que tornam as imagens passíveis de serem acreditadas com a credibilidade de um documento histórico intocado. A obra de Fontcuberta se torna crível ao mesmo tempo em que se transforma em uma expressão artística, na qual a base da interpretação surge das imagens duvidosamente documentais.

As fotografias são manipuladas digitalmente, como afirma o fotógrafo e muitas delas são claramente fotomontagens. A estética do preto e branco complementam o artifício documental que, sem dúvida, valoriza mais a função temporal da imagem e esta característica é essencial para a brincadeira do fotógrafo. As imagens possuem uma relação com a representação do registro e, portanto, tem a pretensão de serem objetivamente documentais. Dessa forma, através do jogo manipulativo de Fontcuberta, questões referentes à verdade, à manipulação fotográfica e à transformação de fotografias documentais em manifestação artística são levantadas. A interferência de Fontcuberta funciona como dispositivo de desconfiança e coloca em xeque a fidedignidade dessas imagens.

 

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O fotógrafo, em Sputnik, permite o processo de manipulação e resignificação de forma aberta, o que não acontece com todas as fotografias que nos cercam. De certa forma, Fontcuberta tira a imagem do seu contexto histórico e social e a coloca em contato com uma manifestação criativa e com a noção de desconstrução. A fotografia que outrora tivera um contato maior com a realidade é despreendida e se torna uma provocação, se torna irreal, se torna imaginação.

 

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Texto por Anna Carvalho
Docente e Doutoranda em Artes Visuais – annaleticia@gmail.com