A fotografia ecológica engajada de Araquém Alcântara

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01/12/2015

Árvore em Mata de Igapó

Ave no Parque Nacional Pacaás Novos, em Rondônia. Araquém Alcântara.

 

Em tempos de destruição compulsória dos ecossistemas brasileiros, como o crime protagonizado pela Vale, que culminou num desastre ambiental histórico, e as grandes queimadas na Chapada dos Veadeiros e Diamantina, é muito importante destacar o trabalho de fotógrafos que desenvolvem projetos documentais onde a natureza é o personagem principal. Araquém Alcântara é um deles, um dos maiores expoentes da fotografia ecológica brasileira e mundial.

Alcântara nasceu em 1951 em Florianópolis e desde os anos 1970 se dedica à documentação fotográfica da natureza brasileira. Ele já ganhou diversos prêmios, entre eles o  Prêmio Dorothy Stang de Humanidade, Tecnologia e Natureza (2007) e já lançou diversos livros, como o TerraBrasil (2015), considerado o livro de fotografias mais vendido no Brasil, com mais de 100 mil exemplares. Sua produção pode ser definida como fotografia engajada, uma vez que contribui para registrar as ameaças constantes que o ecossistema brasileiro sofre. Seu trabalho, de notoriedade internacional, aponta para as tragédias ambientais e a degradação dos recursos naturais.

Criança com bicho-preguiça, na Serra do Divisor Onça brincando com um galho (1979), de Araquém Alcântara

Araquém procura o tempo todo estar próximo de seu assunto e, de forma despojada, procura compartilhar as belezas naturais, com a intenção de clamar por uma integridade e complexidade da fauna e da flora que fotografa. Estar no meio da natureza, agindo entre animais selvagens, dificuldades climáticas e falta de controle sobre o assunto e a luminosidade é o que traz mais riqueza para o seu trabalho. “É um exercício de paciência, da obstinação e da contemplação”, diz Alcântara em entrevista à National Geographic Brasil.

A fotografia em si acaba não dependendo somente do esforço do fotógrafo, mas sim da conjunção dos fatores que o farão fotografar, como é o caso da fotografia da onça pintada que chegou a parar a trinta e cinco metros do fotógrafo e se posicionou para o ataque, mas foi embora. A proximidade do fotógrafo com o seu assunto é sempre definida pela intenção fotográfica, ou seja, acaba sendo uma manifestação do envolvimento fotográfico enquanto ato de comprometimento e significação.

Onça-pintada, Reserva Ducke, no Amazonas. A onça parou a 35 metros e chegou a se posicionar para o ataque, mas foi embora. Queimada

Alcântara trabalha nessa linha, pois sua intenção está além da produção de imagens bonitas, está no ato em si, em transformar a visualidade da natureza em algo contemplativo e que urge por uma preservação. Em tempos de destruição compulsiva da natureza, a expressão visual de Alcântara está no campo da transformação social, na clara tentativa de defender o patriomônio natural do Brasil por meio da arte, por meio de sua fotografia eco-documental.

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Texto por Anna Carvalho

Docente e Doutoranda em Artes Visuais – annaleticia@gmail.com