A fotografia é um suspirar no eterno: Walter Benjamin e nossa relação com o clique

Categoria: Pensamento e teoria.

11/08/2015

9261001330_3943e2704c_b_d

 

O primeiro espelho que aparece na sua frente, vai e o flash estala aos olhos. Corta, põe filtro e posta. Curtidas contadas ali ao lado do coraçãozinho. O espelho não nos basta mais para nos vermos, ou ao menos tentar. Se quiséssemos mostrar como somos não usaríamos aqueles filtros todos, nem o fotógrafo haveria de tratar a foto pra ficar melhor. Isso, queremos o melhor. A foto é ficção, cria da relação entre o olho que vê a cena e o olho que mira a lente.

Os fotógrafos (amadores e profissionais) têm um prazer ainda maior com as analógicas, quando como uma Vênus saindo da concha a foto se revela – duas vias: o processo químico e o processo de nascimento dessa imagem. Enquanto filme era só semente, uma foto em potencial de ser. Levanta-se o papel com a imagem daquele instante clicado e a vê, imersos revelador e cria naquele cheiro e naquela luz tão típicos desse lugar. Se aquele que realizou o clique é também o que levanta os braços com o que já deixou de ser apenas um papel molhado, o momento é ainda mais especial. Assim concebe-se a foto.

 

tumblr_mxbenws1oh1qdqpe6o1_500

 

Se a experiência com as lentes digitais apresenta menos glamour, as analógicas conseguem muito bem lidar com uma demanda contemporânea. Mais até do que saciar o ego diante desse espelho 2.0 chamado câmera frontal (tirar foto de si mesmo não é exatamente a novidade), as novas formas de fotografar nos apresentam uma relação de duas vias entre comunicação humana cada vez mais veloz e o poder de termos, de forma simples, o registro de praticamente tudo que quisemos, produzir arte e/ou denúncia, em uma potência nunca antes ocorrida. A experiência da vida contemporânea segue lancinante e o poder da fotografia se expande: a sensação de congelar o momento, de o preservar, agora pode ser comunicada.

Muitos textos hoje participam dos debates sobre a experiência com o ato de fotografar de ser fotografado em nossos tempos, mas em 1931 Walter Benjaim em sua Pequena História da Fotografia nos deixou uma frase que hoje soa como profética: “no fundo, o amador que volta para casa com inúmeras fotografias não é mais sério que o caçador, regressando do campo com massas de animais abatidos que só tem valor para o comerciante. Na verdade, não está longe o dia em que haverá mais folhas ilustradas que lojas vendendo caças ou aves”. Seu interesse no texto era o de trazer que fotografia e arte estavam mais próximas do que os debates teóricos até então estipulavam, mas é justamente nele que se pode perceber com clareza que o gesto de fotografar mudou de formas e mesmo até de sentido, mas o desejo da caça continua, quer seja no estúdio fotográfico, quer seja no banheiro do shopping.

 

620-breanna

 

No mesmo texto ele escreve que “a natureza que fala à câmera não é a mesma que fala ao olhar; é outra, especialmente porque substitui a um espaço trabalhado conscientemente pelo homem, um espaço que ele percorre inconscientemente”. Nossos gestos fotografados quando percebemos não os mesmos do cotidiano. Na realidade, tanto o posar para a foto quanto a realizar exigem que os sujeitos se “suspendam” do tempo presente por aqueles segundos – a paisagem, as pessoas, tudo haverá de parar no processo da máquina. Estáticos assim, nós tentamos nos imortalizar, acreditamos termos em mãos esse poder, quem sabe mesmo ser idolatrado em um panteão de celebridades. A fotografia é o mais próximo que temos da experiência do eterno, é um pulinho ali onde os deuses moram e são cultuados, ou onde estátuas e pinturas são admiradas. Pensar se estamos fazendo isso em demasia é também trazer à tona todas as demasias da sociedade, assim como pensar sobre nosso desejo de trazer na foto verdade e denúncia e/ou emoção e beleza é tratar do poder de expressão que a imagem fotográfica carrega e como isso é experimentado na nossa condição humana. Portanto, pensar e fazer fotografia é do nosso cotidiano, do tempo presente, assim como esses vários segundinhos de cliques nos põem cada vez mais em suspensão do instante e cada vez mais para dentro do aparelho em nossas mãos.

 

____________________________

Texto por Renata Moraes.

Renata Moraes faz mestrado em História pela UFPE com interesse nas questões sobre imagem e imaginário.

E-mail: renatapsmoraes@gmail.com.