A fotografia documental imaginária de Guy Veloso e o universo invisível da religiosidade.

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20/07/2015

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Guy Veloso nasceu em Belém do Pará e vem desenvolvendo desde 1989 um enorme conjunto de obras sobre a sua região, de forma a chamar a atenção para os aspectos humanos e religiosos. Seu trabalho focado na cultura, na arte e na religiosidade é fortemente marcado pelo uso de equipamentos analógicos e lentes que exigem a proximidade do objeto retratado, o que contribui para o olhar de Veloso, uma vez que ele só consegue fotografar se tiver envolvimento com o assunto.

Essa relação que ele desenvolve com os sujeitos representados permite também que ele cruze fronteiras entre o fazer documental, surreal e espiritual. A mistura dessas linguagens se confundem e definem a atmosfera de suas obras, onde o domínio do sagrado é representado pela dissonância entre o mundo real e o imaginário.

O trabalho “Penitentes”, por exemplo, composto por 12 fotografias e exibido na 29ª Bienal de São Paulo em 2010 é um ensaio documental formado a partir do projeto “Penitentes: dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo”, iniciado em 2002 e com previsão de durar 13 anos. Com uma câmera analógica, Veloso se volta para os ritos religiosos verdadeiramente singulares e misteriosos. Ele segue as caminhadas noturnas, os cantos, as rezas, os capuzes, as auto-flagelações dos penitentes, e os transformam em luzes, cores, borrões e narrativa. A força do trabalho se dá pela capacidade do fotógrafo em se envolver com o evento, de modo a tirar da própria experiência uma interpretação imagética.

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O seu olhar tem como pedestal uma forte pesquisa de cunho antropológico, de modo que esse projeto, assim como outros, nos revelam uma visualidade mais livre e transcedental. Veloso se envolve com os ritos profundamente e, portanto, consegue extrair todo potencial imagético que resulta numa representação polissêmica e mágica.

As imagens de “Penitentes” nos transportam para um universo que nos é conhecido, porém com alto grau de transfiguração. O assunto das fotografias propagam não somente corpos percorrendo as ruas, mas também nos leva a uma dimensão sobrenatural: os corpos são formas, sombras, cores e almas que nos fazem vivenciar o encontro entre a materialidade e a sublimidade religiosa, nos fazem entrar em transe.

A produção fotográfica de Guy Veloso de cunho religioso é reveladora porque nos fala sobre o Brasil, sobre o Outro. Ele instaura um diálogo e um entendimento entre as diversas diferenças religiosas brasileiras e, portanto, podemos considerar sua obra não somente um fazer artístico, mas também um fazer político.

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Texto por Anna Carvalho