A escrita fotográfica e a representação do real no projeto “Sobremarinhos” de Gilvan Barreto

Categoria: Autores.

21/05/2015

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Desde a sua gênese, a fotografia esbarra na questão do “retrato do real”. Em especial quando estamos nos campos da fotografia jornalística e da fotografia documental.  A objetividade fotográfica, no entanto, se perde quanto tratamos as imagens como representações. Por isso, alguns fotógrafos evitam o “mero registro”, o factual e a dependência do “real”, que faz com o que o projeto fotográfico se aproxime de uma criação artística alinhada com a subjetividade do artista.

Gilvan Barreto, por exemplo, na tentativa de fugir da “realidade” do campo documental, encontra nas novas linguagens, na criação de elementos e na manipulação física a base para a sua fotografia. Barreto abre o campo documental para a possibilidade de criação, de modo a ultrapassar os limites e o faz pensando em todas as características do processo fotográfico: o planejamento, o roteiro e a edição.

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Barreto é fotógrafo pernambucano, radicado no Rio de Janeiro. Já participou de diversas exposições coletivas e tem como proposta retratar e documentar temas sociais e ambientais para organizações como Greenpeace e UNICEF. Em seu último projeto/livro Sobremarinhos, Barreto desvenda imageticamente a presença dominadora do mar. O projeto vencedor do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia – que faz parte de uma trilogia fotográfica, precedida por Moscouzinho (2012) e O livro do Sol (2013) – nos mostra um Barreto perspicaz na representação de sua memória emotiva em relação ao mar.

Sobremarinhos é composto por 160 páginas com fotografias ressignificadas através de interferências visuais e colagens. É tudo inventado pelo artista, pois trata-se da representação afetiva do mar de Recife e do Rio de Janeiro. Além disso, o livro possui as lâminas soltas, que faz com que cada observador possa remontá-lo como quiser. Logo, a “escrita” de Sobremarinhos é também determinada por aquele que observa a composição do artista, de modo a se tornar talvez co-autor, co-escritor da obra.

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Tendo como referência o livro O estrangeiro de Albert Camus, Gilvan nos mostra que é possível documentar a experiência e a memória afetiva de um fotógrafo deixando claro que a superfície imagética enquanto representação, abre possibilidades à reflexão e à interpretação. Ou seja, é possível que cada observador faça uma “leitura” diferente da imagem, que pode diferenciar também da proposta inicial do fotógrafo.

“E neste sentido eu uso a fotografia como uma escrita. Elaboro, escrevo, registro e guardo as percepções do que vivemos a cada dia. Então penso que essa história precisa ser escrita de alguma forma. Porque ela me interessa. Nesse sentido, sinto que chego em algum lugar quando uso a fotografia, ainda que nem sempre seja confortável”, reflete Barreto. A obra de Gilvan Barreto é uma belíssima prova de que o fotógrafo documental pode também ser artista/escritor, que aproxima a fotografia de uma escrita literária. Para Gilvan, criar imagens é também escrever, escrever com a luz.

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Texto por Anna Carvalho

Para mais informações sobre o trabalho de Gilvan Barreto: http://www.gilvanbarreto.com/

Aspas retiradas da entrevista que Barreto concedeu ao blog Olhave. Disponível em http://olhave.com.br/2013/10/gilvan-barreto/